Na entrevista que concedeu no avião que o trouxe ao Brasil, o papa Bento 16 atribuiu o avanço das igrejas pentecostais a “uma sede por Deus” por parte de fiéis, o que exige mais dinamismo da Igreja Católica “para responder a essa sede”, alertando que “as pessoas, principalmente os pobres, querem ter isso mais perto deles”.

O papa disse que “a igreja não entra na política” e criticou a Teologia da Libertação: “É evidente que esses fáceis milenarismos, que prometem revoluções e também rápidas condições para se conseguir uma vida justa, estavam errados”.

Bento 16 voltou a condenar o aborto e afirmou que as excomunhões dos políticos que votaram a favor da medida “não são uma coisa arbitrária”. Leia alguns trechos da entrevista:

Qual sua opinião sobre a legalização do aborto no México?

BENTO 16 – Nossa busca pela vida vem desde o papa João Paulo 2º. Ele fez disso um ponto central de seu pontificado, fez uma encíclica que avançava já nessa mensagem de que a vida é um dom, e não uma ameaça. Nessas situações [legalização do aborto no México] há um certo egoísmo e, de outra parte, é uma questão de valor e beleza da vida. É nisso que está o futuro. Sobretudo a vida é bela. Isso não é uma questão da igreja, é um dom em si. Mesmo em condições difíceis, é sempre um dom recriar o reconhecimento desta beleza. Sobre o futuro, claro, pairam tantas ameaças, mas a felicidade é que Deus é sempre mais forte e presente no teatro da história, para que possamos dar, com confiança, a vida a um novo ser humano. A fé garante a beleza da vida. Podemos resistir a esse egoísmo e a esse medo, que está em algumas coisas dessas legislações.

Deputados do México votaram a favor do aborto, e os bispos do país disseram que eles não poderiam receber a comunhão em nenhuma igreja do mundo. O sr. concorda com as excomunhões dadas aos deputados do México?

Sim, concordo. Essas excomunhões não são uma coisa arbitrária, estão previstas no Código [de Direito Canônico]. O direito de matar um inocente, uma criança humana, é incompatível com estar em comunhão com o corpo de Cristo. Não foi feito nada de novo, de surpreendente, de arbitrário, eles apenas revelaram, declararam publicamente algo que é previsto pelo direito da igreja, que foi a própria igreja que estabeleceu assim.

Como lidar com a perda de fiéis na América Latina?

Essa é a nossa preocupação comum na conferência episcopal. Queremos encontrar respostas convincentes, estamos trabalhando nisso já. O sucesso dessas seitas demonstra que existe uma sede por Deus, uma sede de religião. As pessoas querem estar perto de Deus e procuram essa proximidade. Naturalmente elas também aceitam que essas seitas se apresentem como capazes de solucionar os problemas cotidianos. Nós, da Igreja Católica, temos que transformar isso num objetivo da conferência, para sermos mais dinâmicos, mais missionários, para responder a essa sede por Deus. E devemos também ser conscientes de que as pessoas, principalmente os pobres, querem ter isso mais perto deles. Somos conscientes de que, junto a essa resposta à sede de Deus, devemos ajudá-los a encontrar condições de vida justa, sejam microeconômicas, nas condições concretíssimas da vida, como fazem as seitas, sejam macroeconômicas, pensando em todas as exigências da justiça.

No Brasil, muitos católicos discordam das posições da igreja. Como recuperar fiéis se até católicos não querem ouvir a mensagem?

Essa não é uma especificidade do Brasil, são muitíssimas as pessoas em outros lugares que também não querem ouvir. Esperamos que ao menos uma parte queira ouvir e responder e que possamos tentar convencer também aqueles que ouvem, mas não querem sentir. Naturalmente, se até o nosso Senhor não convenceu a todos que o escutassem, não esperamos também que possamos convencer a todos que me escutem, que todos se convençam no momento. Mas eu tento, com a ajuda dos meus colaboradores, falar ao Brasil nesse momento, na esperança de que muitos queiram ouvir, que muitíssimos possam se convencer de que esse é o caminho para seguir.

Acha a América Latina importante?

Amo muito a América Latina, já fiz muitas visitas a região. Sei como são grandes os problemas e como é grande a riqueza humana desse continente. O fato é que nesses últimos tempos os temas dominantes são os problemas do Oriente Médio, que geraram uma imediata prioridade, e também o sofrimento da África, mas não amo menos a América Latina, o maior continente católico, a maior responsabilidade de um papa. Chegou então o momento em que posso estar na América Latina, confirmar o empenho começado por Paulo 6º e João Paulo 2º. Naturalmente, estarei em um continente católico, que é um continente exemplar e onde os problemas humanos são grandes, para trabalhar com os bispos e sacerdotes para que esse grande continente católico seja também um continente de vida e realmente de esperança, e isso para mim é uma prioridade, uma prioridade de primeira ordem.

Como a cultura brasileira fez parte da sua formação?

Entendo que o Brasil é o maior país da América Latina, vai da Amazônia à Argentina, além de sua cultura indígena, e as mais de 80 línguas que esses grupos falam. Por outro lado, há o grande passado com influências afro-brasileiras, e é interessante como se formou o povo com base na fé católica e como a fé católica foi para todos os lados, ainda que com dificuldades. No século 19, a igreja foi perseguida pelas forças liberais. Na minha formação, é importante o conhecimento dessa Igreja Católica da América Latina, não sou um especialista, mas o continente é uma parte fundamental do futuro da Igreja Católica.

O que significa ir a Aparecida?

Nossa mãe está presente em vários continentes, sempre com muita importância, é a mãe de Deus, e ela está presente em Fátima, em Aparecida, em Lourdes, em Guadalupe, é uma figura próxima a todos, isso mostra que ela está presente em várias culturas.

Que mensagem o senhor gostaria de mandar para os expoentes da Teologia da Libertação?

Com a mudança da situação política, também mudou profundamente a situação da Teologia da Libertação. Agora é evidente que esses fáceis milenarismos, que prometem revoluções e também rápidas condições para se conseguir uma vida justa, estavam errados. Hoje todos sabem disso. A questão é como a igreja deve estar presente na luta por reformas necessárias para que se possa ter condições de vida justas. É nesse ponto que se dividem os teólogos e os sociólogos. Nós, com as nossas instruções por parte da congregação, tentamos fazer um trabalho de discernimento para se libertar dos fáceis generalismos, dos lugares comuns e libertar-se também de uma mistura errada entre igreja e política e fé e política. De uma parte, mostrar que a missão especifica da igreja é responder à sede de Deus e, de outra parte, indicar as linhas-guias para uma política justa, que não fazemos nós, mas nós devemos indicar, sejam as grandes linhas, os grandes valores determinantes para criar as condições humanas, sociais, psicológicas, nas quais essas condições podem crescer e acontecer. Enfim, existe um espaço para o debate legítimo de como tornar mais eficaz a doutrina social da igreja.

Acha que o arcebispo Oscar Romero, de El Salvador, um ícone da Teologia da Libertação, poderá ser canonizado?

O caso está em curso e baseado em uma biografia bastante completa sobre ele. Ele foi certamente um grande testemunho da fé, um homem de grande fé cristã, que se empenhou pela paz e contra a ditadura e teve uma morte verdadeiramente incrível no testemunho da fé [foi morto quando celebrava missa]. O problema é que uma parte política o usou como bandeira, injustamente.

Fonte: Folha de São Paulo