Vice-presidente do Senado, Marta Suplicy (foto), do PT-SP, defende o projeto de lei contra a homofobia, a descriminalização do aborto e o casamento gay.

Vice-presidente do Senado, Marta Suplicy (PT-SP) não para. Ao mesmo tempo em que cobra a fixação de um quadro na parede de seu gabinete, herdado de Aloizio Mercadante, ela acompanha o tititi em busca de nomes para disputas eleitorais e frequenta as reuniões das comissões de Constituição e Justiça e Direitos Humanos. Apesar de satisfeita na nova atividade, porém, garante não ter feito acordo com Mercadante, hoje ministro de Ciência e Tecnologia, para que ele seja o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, em 2012.

“Não se trancam portas em política”, afirma Marta, sem pestanejar. “Só faz isso quem é mentiroso, quem não pretende cumprir a promessa.”

Psicóloga conhecida por dizer tudo o que pensa “na lata”, a senadora também tem a mesma resposta na ponta da língua quando questionada se o governo paulista está no seu horizonte, na eleição de 2014. Nem mesmo os movimentos do prefeito Gilberto Kassab (DEM), que negocia sua ida para o PSB, de olho no Palácio dos Bandeirantes, fazem Marta especular sobre uma possível candidatura pelo PT. “Só se eu fosse vidente para saber”, desconversa. Mas, em relação à disputa presidencial de 2014, ela arrisca uma previsão. “É Dilma, não tem nenhuma dúvida”, diz, numa referência a Dilma Rousseff.

Defensora de causas polêmicas, Marta tem três frentes de batalha à vista: o projeto de lei contra a homofobia, a descriminalização do aborto e o casamento gay. Na sua avaliação, a campanha presidencial do ano passado foi “um retrocesso” quando tratou do aborto. “A discussão não levou a nada. Foi ruim para os dois candidatos, um desastre”, diz, numa referência a Dilma e a José Serra (PSDB).

Para a senadora, no entanto, Dilma foi “até o limite de onde poderia ir, sendo do PT”. Ao mencionar as discussões em torno união civil entre homossexuais, no entanto, ela não poupa os seus pares: “O Legislativo se apequenou nesses anos, ignorando o que a sociedade já aceita”.

[b]O projeto de lei contra a homofobia já tem as assinaturas suficientes. É possível aprová-lo numa casa tão conservadora como o Senado?
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O projeto contra a homofobia está pronto, maduro para ser votado e conta com uma compreensão e respaldo maior porque a sociedade quer ser mais civilizada. Esse último episódio de agressão, que ocorreu na Avenida Paulista, deixou as pessoas extremamente indignadas. Foram ações homofóbicas violentíssimas.

[b]Na vice-presidência do Senado a sra. terá de fazer parceria com José Sarney, que o PT já tentou tirar do comando da Casa. Não é uma contradição com a história do PT se aliar a Sarney?
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Eu espero ser uma boa aliada. Se transformações podem vir a ocorrer nessa Casa, dependem dele. E ele tem essa percepção e trabalharemos em conjunto para isso.

[b]A sra. vai trabalhar pela aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo e pela defesa da descriminalização do aborto?
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São dois temas pelos quais eu trabalhei a vida inteira. Sempre tive um olhar para esse segmento. Temos de pensar que o Brasil teve um retrocesso, nesses últimos anos, em relação às duas questões. Mais visivelmente em relação à união civil para os homossexuais e mais midiaticamente na questão do aborto na campanha. No caso da parceria civil houve avanços gigantescos no Judiciário e no Executivo. Quem se acanhou foi o Legislativo, que se apequenou nesses anos, ignorando o que a sociedade já aceita.

[b]Como a sra. avalia a forma como o tema aborto foi tratada na campanha da então candidata Dilma Rousseff?
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A manipulação eleitoral da questão foi extremamente nociva para as duas candidaturas (Dilma Rousseff e José Serra). E, para as mulheres, mais ainda. A discussão não levou a nada, além de uma visão conservadora, que dificulta os caminhos de retomada da serenidade com a qual o assunto precisa ser tratado. Foi ruim para os dois candidatos, um desastre.

[b]Só que em 2007 ela chegou a defender a descriminalização do aborto…
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A Dilma foi até o limite de onde poderia ir, sendo do PT. Ela se comprometeu a não enviar projeto de lei ao Congresso. A campanha foi odiosa, de retrocesso. O próprio Serra disse coisas que duvido que diga particularmente. Foi muito desagradável tudo o que ocorreu.

[b]Como contornar a oposição da Igreja Católica e dos evangélicos em relação a esse tema?
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Vamos ter conversas, com respeito, mas esse tema tem que avançar. Nós não somos o Afeganistão.

[b]Mas na sua campanha à Prefeitura, em 2008, um programa de TV causou polêmica ao perguntar o estado civil do prefeito Gilberto Kassab e se ele tinha filhos. Em eleição vale tudo?
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Foi um erro crasso do João Santana (publicitário da campanha), que assumiu. Eu só soube depois que o programa foi ao ar. Eu não tinha visto. Fiquei dois dias chorando. Quando eu vi aquilo, falei: “Vocês ficaram loucos?”

[b]A sra. é a favor da descriminalização das drogas?
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Já fui mais. Hoje tenho de retomar os estudos a respeito.

[b]Por quê?
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Eu tinha muitas certezas nessa área, mas hoje tenho muitas indagações. Há uma vertente relacionada ao aumento da violência e, hoje, tenho preocupação com a maconha.

[b]A sra. não teme ficar carimbada como uma senadora de duas causas só?
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Temo, sim, e por isso não estou gostando do caminho dessa entrevista. Ao mesmo tempo, porém, não posso abandonar bandeiras de uma vida. Isso começou no meu consultório, como psicóloga, foi para o TV Mulher e assim por diante. Sempre tive um olhar voltado para a discriminação. Agora, outro dia expus a minha proposta de reforma constitucional em relação às grandes metrópoles.

[b]Qual é a proposta?
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Hoje, as regiões metropolitanas estão abandonadas à própria sorte. São os lugares de maior índice de violência e problemas de urbanização, como enchentes. Não há como combater a violência e melhorar o transporte em São Paulo, por exemplo, se você não tiver uma relação com todas as cidades vizinhas. Mas não há instrumento para isso. Então, precisamos ir além dos consórcios e das agências, que não têm orçamento próprio. Devemos pensar em um novo ente federativo, que seria a região, para planejar o desenvolvimento. Essa vai ser uma prioridade minha, além da reforma política e da reforma administrativa do Senado.

[b]No ano passado houve várias denúncias no Senado a partir da revelação dos atos secretos. Que reforma a sra. defende?
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Cheguei há pouco tempo e ainda estou estudando. Mas vou entrar em todas essas questões. Há sempre resistência quando se vai cortar, mas tive uma impressão muito positiva sobre a primeira reunião a esse respeito. Uma das propostas é a de acabar com contratos de emergência.

[b]A sra. fez um acordo com Aloízio Mercadante, hoje ministro, pelo qual ele seria candidato à Prefeitura de São Paulo, em 2012, em troca de não disputar a reeleição ao Senado?
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Não. Não foi feito nenhum acordo.

[b]Então, a sra. pode concorrer à Prefeitura?
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Eu não tenho nenhuma intenção nessa disputa. Estou bem aqui, o Senado é uma Casa onde você pode desenvolver projetos extremamente importantes, mas não se faz acordo com tanta antecedência sobre nada. Tivemos essa conversa. Não sei qual é a expectativa dele (Mercadante), mas eu disse o que penso. Não se trancam portas em política. Só faz isso quem é mentiroso e não pretende cumprir a promessa.

[b]Quem é o seu candidato ao governo paulista, em 2014? Marta Suplicy?
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Com quase quatro anos de antecedência, só se eu fosse vidente para saber. Mesmo assim, com 50% de chance de errar.

[b]E qual sua aposta para a Presidência, também em 2014: Dilma ou Lula?
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É Dilma. Não tem nenhuma dúvida.

[b]Por que a sra não conseguiu se reeleger depois de ser prefeita por quatro anos? Qual foi o seu maior erro?
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A melhor explicação veio do Lula. Ele disse: “Você trabalhou com prioridade para os pobres.” Eu acho que esse foi um dos motivos.

[b]O que a sra. não faria novamente?
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De ações concretas eu faria o que eu fiz. Mas tenho, sim, uma crítica a mim. Acredito que quis fazer muita coisa em pouco tempo, com uma situação caótica e uma dívida gigantesca. Não dá para fazer ao mesmo tempo a revalorização da planta genérica do imóvel, aumentar o IPTU e fazer imposto progressivo, mesmo isentando 1 milhão de pessoas. Aí, quando foi criada a taxa do lixo, a oposição soube trabalhar muito bem. Foi uma enorme aprendizagem. Não dá para fazer uma revolução em quatro anos.

[b]A separação do senador Eduardo Suplicy teve algum impacto na sua vida política?
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Nas pesquisas que fizemos, as pessoas diziam: “Cada um tem sua vida, a vida particular é dela e, se ela trabalhar bem, não temos nada a ver com isso.” Mas eu sinto que teve (impacto), mais do que apareceu nas pesquisas.

[b]E hoje, como é o seu relacionamento com ele?
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É bom, é ótimo. Nós temos três filhos, cinco netos e nos damos bem, super civilizadamente.

[b]Mas outro dia a sra. cortou o som do microfone dele no plenário…
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Ser vice-presidente do Senado e regular o tempo é um processo de aprendizagem. Estou tentando ser equânime, gentil, mas, ao mesmo tempo, permitir a mais senadores a palavra. E isso você só faz se interromper algumas falas que se prolongam mais do que o dobro.

[b]Dizem que a sra. é muito mandona. Corrigiu até o senador Sarney e pediu questão de ordem para lembrar que Dilma deveria ser chamada de “presidenta”, e não de “presidente”. Há alguma semelhança em seu estilo com o de Dilma, que também tem essa fama?
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Ai, meu Deus! (risos). Olha, quanto ao senador Sarney, eu me penitencio pelo que fiz. Não fiquei satisfeita comigo. Eu queria ter falado do simbolismo de Dilma ter escolhido a letra “a” para presidente. Mas deveria ter falado pessoalmente.

[b]Mulheres no poder têm de ser duras para obter reconhecimento?
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Não acho que tenha a ver com ser mulher. Isso tem a ver com personalidade. São personalidades mais decididas, mais fortes, que acabam sendo rotuladas de mais autoritárias porque são mulheres. Se não fossem mulheres, não seriam nomeadas assim.

[b]Fonte: Estadão[/b]