Shirin Ebadi é ativista de direitos humanos e ganhadora do Nobel da Paz em 2003, a primeira mulher a se tornar juíza no Irã, atua em favor de presos políticos e, aos 50 anos, tenta reunir 1 milhão de assinaturas pelo fim da discriminação contra a mulher.

A entrada simples, no subsolo de um prédio de três andares numa rua tranqüila do bairro residencial de Yusejabad, em Teerã, não dá pistas de que ali funciona o escritório de uma Nobel da Paz. Exceto por uma discreta placa de bronze, ao lado do interfone, com seu nome e profissão escritos em farsi e caracteres ocidentais: Shirin Ebadi, advogada.

Uma senhora de estatura pequena, o véu discretamente cobrindo-lhe parte dos cabelos curtos aloirados, atende pessoalmente à campainha. Sua voz é enérgica e ela parece não ter tempo a perder. A recepção está cheia de mulheres. Na sala, Shirin retira o véu. Sobre a mesa, um quadro com os dizeres: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra.” Guerra que para ela dura há, pelo menos, 27 anos.

Shirin era, então, a primeira mulher a se tornar juíza no Irã. Veio a Revolução Islâmica, que ela apoiou contra o regime corrupto do xá. E, com a revolução, a surpresa das leis rígidas e discriminatórias contra as mulheres. Shirin foi impedida de atuar no Judiciário, que passou a ser controlado pelos aiatolás.

Em 1999, enfrentou meses na temida prisão Evin e, pouco depois, encontrou, entre documentos oficiais que investigava, a própria sentença de morte. Em 2002, sua organização, o Centro para a Proteção dos Direitos Humanos, foi banida. Ela passou a defender – como advogada – mulheres e presos políticos do regime, trabalho que lhe valeu o primeiro Nobel concedido a um iraniano.

Shirin é também a única mulher islâmica a receber o prêmio. Aos 50 anos, ela tenta recolher 1 milhão de assinaturas pelo fim da discriminação contra a mulher. Aqui, trechos de sua conversa com o Estado:

Qual é a situação das mulheres no Irã hoje?

A mulher no Irã vale a metade de um homem. Em um acidente de carro, o seguro pago para uma vítima mulher será a metade do que seria pago a um homem. Num tribunal, o testemunho de um homem tem o peso do de duas mulheres. Eles podem ter quatro esposas e elas só se divorciam com autorização do marido. São os homens que ficam com a guarda dos filhos. Outro problema grave é a execução de crianças: meninas a partir de 9 anos e meninos, de 15. Tudo isso se deve a uma interpretação errada do Alcorão.

Mulheres são as únicas vítimas?

Não. Na religião há discriminação. Cristão, judeus e zoroastristas só podem ter um representante no Parlamento. Não podem ser ministros, juízes ou presidente. São minorias sem direitos. O valor de indenizações às famílias diferem de acordo com a fé. Se um pai morre, sua herança deve ser dividida igualmente entre os filhos, mas se um deles se converte ao Islã, todo o dinheiro vai para este. Mesmo entre islâmicos, há discriminação. O país tem 90% de xiitas. Desde a revolução, os sunitas não estão autorizados a ter sua mesquita.

Houve algum avanço da defesa dos direitos humanos desde 1979?

Nos primeiros dias da revolução era mais difícil. Os jornais chamavam-me de feminista. Hoje, trabalhar com direitos humanos é um valor. Não quer dizer que não temos problemas. Há muita censura, jornais reformistas sendo fechados, dissidentes perseguidos, estudantes na prisão. O governo criou uma comissão de direitos humanos islâmicos que é uma mentira. Por isso, sigo trabalhando. Como não posso ter uma entidade, presto serviços como advogada independente há dez anos, gratuitamente.

Um Prêmio Nobel ajuda?

O prêmio facilitou muito. Ganhei voz junto às entidades internacionais e, de certa forma, mais liberdade. Depois do Nobel, o governo tentou me prender três vezes, mas a repercussão foi tanta que desistiram.

Direitos humanos podem existir num Estado teocrático?

O problema do Irã não é o Islã. O governo é antidemocrático, não a religião. O governo se baseia em uma interpretação torta da sharia (código de leis islâmicas), mas há muitas outras leituras possíveis. A Malásia é uma nação islâmica e democrática. No Alcorão, não há nada incompatível com democracia, direitos humanos e modernidade.

A democracia pode prevalecer no Irã?

Não podemos esquecer que ditadores chegaram ao poder por meio da democracia. Hitler foi um deles. O que deveria legitimar um governo no poder é seu compromisso com os direitos humanos e não o voto.

Como foram as negociações para libertar a acadêmica americana de origem iraniana Haleh Esfandiari? A minha cliente era inocente e não deveria ter sido presa. Ela tem o direito de deixar o Irã, mas é mantida aqui ilegalmente. É tudo o que sei. O governo não nos dá qualquer informação. Até hoje não consigo imaginar o que passou pela cabeça do juiz que a colocou na prisão. Mas, como ela, há muitos no Irã.

A sra. não tem medo?

Foi horrível ver meu nome numa lista negra e saber que minha vida corria risco. Mas, quando se está no meio do mar, desesperar pode levar à morte. Minha única alternativa é seguir nadando.

A sra. apóia o programa nuclear?

O programa para fins pacíficos é um direito. Mas no Irã as decisões são tomadas a portas fechadas, por isso a comunidade internacional desconfia. Sanções econômicas, porém, só prejudicam o povo.

Fonte: Estadão