Abaixo-assinado que será enviado à Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul pede que os deputados rejeitem a adoção da canção “Querência amada” como hino popular do Estado, por entender que ela retrata Deus e o povo gaúcho “de maneira muito infiel, inadequada e injusta”.

A canção teve parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Legislativa. “Querência amada”, de autoria do cantor e compositor Victor Mateus Teixeira, mais conhecido como Teixeirinha, já falecido, diz que Deus é gaúcho de “espora e mango (relho com cabo de madeira e tiras de couro)”, que foi “maragato ou foi chimando” (duas facções políticas que entraram em conflito armado no Rio Grande do Sul).

“Não se pode deixar de lamentar, não somente o gosto duvidoso e pouco estético da mesma, como também a infelicidade manifesta na imagem por ela (canção) refletida”, diz o abaixo-assinado, que acrescenta:

– Por melhor que tenha sido a intenção do compositor e o valor folclórico que, talvez, a dita canção tenha, atribuir a Deus o uso da espora e mango e ter pertencido a duas facções político-partidárias do passado gaúcho, marcadas por uma série de arbitrariedades e violências praticadas contra o povo, beira ao grotesco, ao inoportuno, à irreverência e à mais do que evidente inconveniência.

Em entrevista ao Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), irmão Antonio Cechin, 80 anos, agente de pastoral em periferias da Região Metropolitana de Porto Alegre, criador da Romaria da Terra e idealizador da missa em honra ao guerreiro indígena guarani Sepé Tiaraju, que defendeu a área das missões do invasor português e espanhol no século XVII, também lamentou a indicação do hino.

“O mínimo que posso dizer é que essa canção ofende profundamente a sensibilidade religiosa dos cristãos rio-grandenses e brasileiros”, disse Cechin. Os rio-grandenses, explicou, nasceram e renasceram junto com Sepé, nas Missões Jesuíticas, “que significam o ato fundante do Rio Grande do Sul e que, como tal, devem ser o referencial permanente tanto para a Igreja daqui e desta sociedade sulina”, defendeu.

Co-fundador do Movimento Nacional Fé e Política, Cechin também não concorda com a missa crioula, celebrada pela Igreja Católica em regiões do Estado. Nessa missa, arrolou, Deus-Pai é invocado como o patrão celestial, Jesus Cristo é o divino tropeiro, e Maria, mãe de Jesus, é a primeira prenda do céu.

“Para constatar a inconveniência, ou melhor, a irreverência desses arquétipos, basta inquirir qualquer operário para se dar conta do substrato da palavra patrão que vai na cabeça dele, quais os sentimentos que lhe afloram na alma quando ouve essa palavra”, recomendou.

Fonte: Ansa