Mary Darden está excitada: “Estamos vivenciando uma reviravolta considerável”. Como clérigo de uma igreja batista em Waco (Texas), ela se preparava, na quarta-feira, 30 de janeiro, para tomar um avião rumo a Atlanta (Geórgia) onde assistiria, à noite, à convenção de uma nova organização religiosa nos Estados Unidos, a New Baptist Covenant (Nova Aliança Batista, NBC).

O motivo da sua emoção: o medo de se apresentar pela primeira vez diante de uma platéia. Mary Darden estava escalada para pronunciar um discurso perante uma comissão. A razão do seu entusiasmo: “Estamos encerrando um período de longos anos sob a dominação de pastores iluminados de extrema-direita. Agora, estamos vendo uma luz no fim do túnel. A prova disso é que finalmente batistas brancos e negros estão se associando”.

Com efeito, o apelo que foi lançado pela NBC está muito distante das preocupações primeiras da poderosa e ultraconservadora Southern Baptist Convention (Associação dos Batistas do Sul), a maior organização de protestantes nos Estados Unidos. Sob a presidência de George W. Bush, que ajudou a levar ao poder, ela constituiu a voz dominante dos evangélicos americanos. Os Southern Baptists menosprezam o estatuto das mulheres, execram o divórcio, o aborto, os homossexuais. O seu mundo foi criado em sete dias.

A New Baptist Covenant, por sua vez, afirma por meio da sua convocação o seu desejo de “promover a paz com justiça, alimentar os esfomeados, ajudar os que precisam de roupas e calçados, fornecer abrigo aos sem-teto, auxiliar doentes e marginais, acolher os estrangeiros em nossa comunidade, promover a liberdade religiosa e respeitar sua diversidade”.

O objetivo declarado é reunir os batistas, que se encontram divididos há um século e meio nos Estados Unidos. Mas a ambição implícita é levar a melhor em relação aos batistas do Sul que, ao serem convidados a aderir à NBC, não só recusaram o convite como promoveram uma campanha contra este concorrente “liberal-progressista”, termo que utilizam como insulto.

Jimmy Carter pronunciou o discurso de abertura. Bill Clinton e Al Gore estavam presentes. “Dois antigos presidentes, um ex-vice-presidente e dois Prêmios Nobel reunidos em três batistas”, comenta com orgulho Jo Haag, responsável pela Convenção Geral dos Batistas do Texas (BGCT), associação que separou os Batistas do Sul. Junto com William Underwood, antigo presidente da grande universidade batista Baylor, de Waco, Jimmy Carter foi o principal mestre de obras do projeto.

Tradição “branca”

Criado em 10 de abril de 2006, o projeto foi atraindo uma atenção crescente. Mais de 20 mil delegados dos 50 Estados americanos foram a Atlanta. Os senadores republicanos Lindsey Graham (Carolina do Sul) e Charles Grassley (Iowa) participaram da convenção, assim como o autor de best-sellers John Grisham. Entre os convidados de honra estrangeiros estava presente Hanna Massad, a única pastora batista de Gaza. Também estavam lá, evidentemente, William Shaw e T. de Witt Smith, os presidentes das duas grandes associações de batistas negros – os “Nacionais” e os “Progressistas”.

“A cisão histórica entre os batistas do Sul e do Norte dizia respeito à questão da escravidão”, explica Suzi Paynter, diretora para assuntos políticos e éticos da BGCT. Os primeiros eram a favor, os segundos contra. Desde então, esta tendência perpetuou uma tradição não apenas “branca” como também portadora de uma visão segundo a qual toda evolução é percebida como uma ofensa a Deus. Não foi por acaso, diz Suzi Paynter, se a NBC foi constituída por iniciativa de associações negras: “O pequeno precisava do grande. O processo foi muito demorado, mas agora, a junção está completa”.

Uma junção política? Ela garante que é o contrário: trata-se de “romper com a prática” desses batistas “dotados de uma agenda política”. A New Baptist Covenant quer “retornar ao ensinamento do Cristo: recusar a ordem das coisas quando esta é nociva para a humanidade”. Resta que o ressurgimento de um batismo “dos depauperados e dos fracos”, diz Jo Haag, não é fortuito.

Os batistas do Sul, de tendência fundamentalista, “associaram o seu destino aos setores mais conservadores do país. A guerra no Iraque, a recessão, a crise social e o declínio da administração Bush resultaram no seu próprio declínio”, acrescenta. “Os atentados de 11 de setembro tinham paralisado as pessoas e servido aos interesses dos milenaristas”, acrescenta Suzi Paynter. “Hoje, nós voltamos a ser ouvidos”.

O fato de a New Baptist Covenant realizar a sua primeira “grande missa” no momento em que se aproxima o pleito presidencial americano não é por acaso. Os batistas texanos confirmam a ligação entre os dois eventos: em Atlanta, as figuras de destaque – além de uma proporção muito grande dos participantes – são democratas. Na noite de segunda-feira, Mary Darden havia se recusado a assistir ao discurso do presidente Bush sobre o estado da União. “Eu não consigo mais agüentar este homem”, diz. “Ele está deixando a América inteira envergonhada”.

Fonte: Le Monde