O presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, Raffaele Martino, declarou hoje que “a eutanásia é como o aborto planejado”.

“Os parlamentares católicos devem defender a vida desde o seu início até seu fim natural e impedir que projetos de lei possam legalizar a eutanásia, como já ocorreu em outros países”, afirmou.

O prelado refletiu sobre o debate em curso na Itália sobre a eutanásia e ressaltou o pensamento da Igreja Católica, que “defende sempre a vida humana, um princípio que não é católico, mas faz parte da lei de natureza”.

Em relação ao tratamento biológico, tema de discussão nestes dias, Martino rejeitou também a distanásia (tentativa de prolongar a vida a qualquer custo, o que causa sofrimento ao doente), pois “quero morrer naturalmente”.

“Em meu testamento manifestei a vontade de que, se estiver em estado terminal grave, não quero receber tratamento e vou deixar a natureza atuar.”

“Para nós cristãos, também o sofrimento tem um valor e uma expressão de vida. Nós cristãos temos que aceitar isto, assim como Jesus aceitou ao morrer na cruz”, acrescentou o cardeal.

Quanto às leis favoráveis à eutanásia, “espero que na Itália não aconteça o mesmo que em outros países como, por exemplo, a Holanda, onde a prática da eutanásia é permitida inclusive em crianças, dado que os especialistas devem decidir sobre a vida delas. Isto é horrível”, ressaltou Martino.

Há dois dias, o ministro de Saúde do Vaticano, o cardeal mexicano Javier Lozano Barragán, reiterou que a Igreja “é sempre a favor da vida e contra qualquer hipótese de eutanásia, tanto ativa quanto passiva”.

O debate sobre a eutanásia foi retomado na Itália no fim de semana passado, com pronunciamentos de vários políticos, após o pedido de um doente de distrofia muscular ao presidente da República, Giorgio Napolitano, para pôr fim em sua existência.

Napolitano respondeu no sábado a Piero Welby, de 60 anos, que é mantido em vida por meio de máquinas.

“Recebo sua mensagem de trágico sofrimento com sincera compreensão e solidariedade”, escreveu o presidente, a quem era dirigido um vídeo – transmitido pela televisão pública – em que Welby contava do seu leito como vivia e pedia oficialmente a Napolitano para acabar com sua vida.

Segundo Napolitano, “esta situação representa uma oportunidade de reflexão sobre ocasiões e temas de complexidade no âmbito da ética, que exigem um enfrentamento sensível e profundo”.

“As palavras do presidente da República sobre a eutanásia foram de grande sensibilidade e civilidade”, comentou o presidente da Câmara dos Deputados, Fausto Bertinotti.

Por sua vez, o presidente do Senado, Franco Marini, ao dar voz para a posição dos católicos, assegurou que “a palavra eutanásia não existe e não tem espaço no debate político de nosso país”.

Para Marini, no entanto, “é possível trabalhar” na direção do “tratamento biológico”.

O desesperado chamado de Welby, co-presidente da associação Luca Coscioni (que realiza uma batalha pelo direito a morrer), foi emitido na sexta-feira pelo programa “Primo Piano”, da emissora pública televisiva Rai.

Na gravação aparecia o doente, imobilizado na cama por causa de uma distrofia muscular progressiva. O enfermo podia falar com uma voz sintética por meio de um computador.

Welby passou a metade da sua vida sem caminhar, um terço sem falar ou escrever, e nos últimos meses não pode fazer nada.

Fonte: ANSA