Desde quinta-feira, 8, a técnica em enfermagem Maria, de 43 anos, vive o drama de ter dois de seus filhos acusados do bárbaro assassinato de João Hélio Fernandes Vieites, de 6 anos. “Gostaria de ter enterrado meus filhos”, disse, muito emocionada.

O mais velho deles, Carlos Eduardo Toledo Lima,o Dudu, de 23, é apontado pela polícia como o chefe da quadrilha de roubo de carros. E., de 16 anos, disse ao pai que confessou o crime a pedido do irmão, em troca de um celular. “Gostaria de ter enterrado meus filhos. Gostaria de estar no lugar dela (Rosa Cristina, mãe de João Hélio). A minha dor é pior do que a dela, só de pensar que um dos meus filhos pode ter feito aquilo”, disse, muito emocionada.

João Hélio foi arrastado pelo cinto de segurança do carro por sete quilômetros depois que os assaltantes tomaram o veículo na última quarta-feira, na zona norte do Rio de Janeiro. O crime causou comoção nacional. Além de Carlos e E., também estão presos Tiago Abreu Matos, de 19 anos, Diego Nascimento Silva, de 18, e Carlos Roberto da Silva, de 21.

Maria não quer ter o nome revelado nem ser fotografada. “Toda hora que fecho os olhos vejo o carro correndo com aquela criança. Trabalhei desde sexta-feira para não pensar. Não quero ser taxada como a mãe dos monstros. Criei meus filhos dentro da igreja”, desabafou.

Ela não sabe em qual dos filhos acreditar – se em E., que disse ter confessado a pedido do irmão, ou em Carlos Eduardo, que afirmou ter sido surpreendido ao ser avisado por um conhecido que estava sendo procurado pela polícia. “Eles são muito próximos. O E. não teria coragem de incriminar o irmão se ele não estivesse envolvido”, disse Maria.

Relação difícil

A relação com Carlos Eduardo sempre foi difícil. O menino fugiu de casa aos dez anos, passou por instituições para menores. “Ele não tem contato com o pai, foi criado pelo meu marido desde os 6 anos. Eduardo ficou na rua até os 18 anos e nós sempre lutamos para ele voltar para casa”, disse Maria, mãe de uma menina, de 14 anos, e outros dois meninos, de 17 e 12.

Em 2004 Eduardo foi condenado por roubo. Ficou dois anos preso e estava em regime semi-aberto, mas não voltou para a prisão. Foi expulso de casa uma semana antes do crime, depois de agredir o padrasto, que não aceitava o comportamento do rapaz. “Ele trazia mulheres para a porta de casa”, contou Maria.

Nilson Nonato da Silva, pai de E., foi quem levou Carlos Eduardo à delegacia, no domingo. O rapaz pediu ajuda a um pastor evangélico, que telefonou para Silva. “Eu o criei desde os 6 anos. Para mim, entregá-lo à polícia foi como deixá-lo no matadouro. Se para o povo ele é digno de morte, para Deus não é”. Ele se solidarizou com os pais de João Hélio. “Minha casa também está vazia, dentro de mim tem uma parte que está morta. Nossos filhos não são mais nossos. Estão nas mãos da Justiça”, afirmou.

Maria comentou a defesa que se tem feito da redução da maioridade penal. “Se a Justiça fosse consertar meu filho, ele poderia passar preso o resto da vida. Mas quanto mais tempo ele ficar ali, mais vai aprender coisas com pessoas ruins. Quando sair de lá, vai sair pior do que entrou”.

Ao fim da entrevista, concedida na residência do casal, na favela São José da Pedra, em Madureira, zona norte, Silva mandou um recado para Elson Fernandes Vieites, pai de João Hélio. “Quero pedir desculpas por ser pai dos causadores dessa situação, se é que eles cometeram esse ato. Ele (Elson) deu carinho, amor, deu tudo o que o filho merece e ver um filho ser destruído dessa forma… Que Deus possa consolar o coração dele. Estou sofrendo junto com ele. Gostaria de poder chorar com ele, de abraçá-lo”.

Fonte: Estadão