Como fermento em massa de bolo, as igrejas evangélicas crescem a um ritmo alucinante em Rio Preto, (SP). De janeiro até agora, surgiram cem templos evangélicos na cidade, segundo dados da Defesa Civil – média de uma igreja a cada três dias.

Ao todo, o município conta atualmente com 584 templos religiosos, entre evangélicos (500), católicos e espíritas, entre outras religiões. Em janeiro eram 480 (dos quais 400 evangélicos).

O crescimento acelerado das igrejas evangélicas na cidade chama a atenção para a atuação em franquias dessas entidades.

No franchising da fé, pastores atuam como modernos empresários. Antes de abrir um templo, estudam o perfil sócioeconômico dos fiéis do bairro, planejam o custo-benefício do empreendimento e pagam “royalties” para a matriz dona da franquia.

“É mercado mesmo”, resume o pastor da Assembléia de Deus Antônio Domingues. Desde que trouxe o seu “ministério” (como a Assembléia denomina as franquias) de Severínia para Rio Preto, há três meses, Domingues luta para ganhar espaço entre as demais filiadas da Assembléia de Deus, a igreja com maior número de templos na cidade, 97 ao todo.

“É lógico que a concorrência chia, tem um ciumezinho. Eles vão perceber que dormiram, ficaram acomodados”, afirma o pastor. Como outros “ministérios” de cidades menores da região, Domingues trouxe sua igreja para Rio Preto em busca de fiéis – e de mercado. “Aqui há um potencial grande.”

Empresas modernas

O gerenciamento das igrejas como modernas franquias é um método já conhecido do pentecostalismo moderno, mas que tem ganhado corpo entre os chamados pentecostais históricos, como a Assembléia de Deus, segundo o especialista em religião evangélica da PUC em São Paulo Edim Abu Mansur. “São como empresas mesmo, com métodos modernos de gerenciamento e administração.”

A Igreja do Nazareno, também pentecostal, é meticulosa no seu processo de expansão em Rio Preto. A igreja se prepara para, no fim do mês, inaugurar seu quarto templo na cidade, em uma antiga academia de ginástica na avenida Potirendaba.

Antes da expansão, porém, um fiel instaura um grupo de oração em sua residência. No prazo de um ano, verifica-se mês a mês o percentual de crescimento dos freqüentadores. Se houver aumento satisfatório, o pastor-chefe na cidade requisita à gerência regional em Rio Claro (SP) a abertura de um templo.

A igreja então é montada em imóvel alugado, e bancada pela gerência até tornar-se auto-suficiente. “Há uma junta de fiéis em Rio Preto que avalia o nosso desempenho, e faz o acompanhamento financeiro”, diz o pastor Josué Pacheco, responsável pela nova igreja.

Com a filosofia do franchising, as igrejas evangélicas reforçam a economia da cidade: com base no salário mínimo de R$ 350 (e desconsiderando as diferenças salariais dos fiéis), é possível estimar que, todos os meses, as igrejas angariem R$ 550 mil em dízimo dos devotos rio-pretenses.

Jaguaré tem maior densidade de templos

O bairro Jaguaré, na zona norte, concentra o maior número de templos religiosos por habitante. Pelo cruzamento dos dados da Defesa Civil com a estimativa populacional por bairro da Secretaria de Planejamento, estima-se que o bairro tenha uma igreja para cada 109 moradores.

Segundo a presidente da Associação de Moradores do Jaguaré, Divina Aguiar Barbosa, o bairro é carente, e os moradores são facilmente atraídos pelo assistencialismo das igrejas evangélicas. “Todo mês surge uma igreja diferente aqui”, diz. Conforme a Defesa Civil, o Jaguaré tem 11 templos religiosos.

A presença maciça da igreja evangélica na zona norte, onde se concentra a população mais pobre da cidade, não é fenômeno exclusivo de Rio Preto, segundo o especialista da PUC em São Paulo Edim Abu Mansur. “As igrejas evangélicas mais tradicionais costumam acompanhar o crescimento das cidades”, afirma.

Em número absoluto, o bairro com o maior número de igreja é o Eldorado, também na zona norte, com 45 templos, seguido de perto pelo Solo Sagrado, com 40 igrejas. Como são bairros populosos da cidade, porém, a presença das igrejas acaba se diluindo.

Assembléia privilegia a zona norte

As igrejas evangélicas apresentam políticas diferentes de ocupação do espaço geográfico de Rio Preto, conforme análise feita pelo jornal BOM DIA com base em dados da Defesa Civil.

A Assembléia de Deus, denominação com o maior número de templos na cidade, com 97 igrejas, distribui-se irregularmente pelo município. Está concentrada na zona norte, onde possui sete templos no Santo Antônio e seis no João Paulo 2º, e praticamente ausente na zona sul, com exceção do São Francisco, onde a Assembléia tem duas igrejas.

As demais denominações evangélicas, ao contrário, demonstram racionalidade na ocupação da cidade. Os 34 templos da Igreja do Evangelho Quadrangular, por exemplo, estão distribuídos nos principais bairros da cidade, com uma igreja por bairro, exceto os mais populosos, como o Eldorado e Dom Lafayette, com três templos.

Um caso à parte é a Universal do Reino de Deus, cujos 12 templos estão localizados em áreas de grande fluxo de pessoas, como a Redentora. A igreja começou a construir um novo templo no Eldorado. O jornal BOM DIA apurou que a nova igreja vai custar R$ 65 mil aos cofres da Universal.

Templos clandestinos são 10% do total

A Defesa Civil estima que 10% dos templos religiosos de Rio Preto sejam clandestinos. No fim de 2005 a Defesa iniciou vistorias em todas as igrejas da cidade. São verificadas as condições estruturais dos prédios, incluindo os padrões mínimos de segurança.

Os templos clandestinos são notificados para que providenciem o alvará de funcionamento junto à prefeitura. Antes, porém, o imóvel precisa passar por uma vistoria dos bombeiros.

A maior dificuldade da Defesa Civil é o crescimento acelerado da abertura de templos na cidade. “É como enxugar gelo. Para cada imóvel que fiscalizamos, surgem outros dois”, diz o diretor do órgão, José Carlos Sé.

Camelôs lucram com suvenires de beato

Se os evangélicos lucram alto com o dízimo obrigatório cobrado dos fiéis, a Igreja Católica não fica atrás. A instituição tolera e até se aproveita do comércio de suvenires. O exemplo mais recente dessa mercantilização da fé ocorreu no dia 6: um dia após a beatificação do padre Mariano de la Mata, camelôs vendiam camisetas, chaveiros e imagens do padre na igreja Santo Agostinho, na Capital, onde está o corpo do padre.

O padre Irineu Vendramini, assessor do Bispado de Rio Preto, reconhece a existência da indústria por trás do culto aos santos católicos, mas diz ser raro o envolvimento da igreja. “É um modo de divulgar a religião.”

Fonte: Jornal Bom Dia Rio Preto