Religiosos manobram e lançam a candidatura avulsa de Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ), forçando uma nova eleição e anulando a escolha de Paulo Pimenta (PT-RS), feita nesta terça-feira.

Após articulação política do PT na terça-feira 3, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias parecia ter ficado fora da zona de influência da bancada da bíblia e da bancada da bala na Câmara dos Deputados. No entanto, em um rápido e inesperado contra-ataque, os parlamentares evangélicos conseguiram inviabilizar a eleição do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), escolhido na terça-feira, para presidir a comissão.

A movimentação da bancada evangélica contou com o apoio do DEM e do PTB e demonstra a fraqueza política do Partido dos Trabalhadores na Casa. Em uma movimentação política articulada, o PTB rompeu o acordo de terça-feira 3 e reclamou de volta seu lugar na comissão, anteriormente cedido ao deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), para alçar o pastor Ronaldo Nogueira (PTB-RS) à comissão. Ao mesmo tempo, o DEM se apressou trocar a deputada Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO) pelo cantor e deputado Marcelo Aguiar (DEM-SP), em um claro movimento para enfraquecer a candidatura do deputado Pimenta (PT). Com o mesmo intuito, o PMDB também incluiu os nomes dos deputados federais de Rondônia Lindomar Garçom e Lucio Mosquini. Dessa forma, os partidos visavam obter os votos suficientes para eleger o religioso Sóstenes Cavalcante (PSD-RJ), que lançou candidatura avulsa ao cargo e chegou ao parlamento apoiado por Silas Malafaia.

Caso a movimentação se concretizasse, um deputado evangélico seria eleito pela segunda vez para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, já que em 2013 o Pastor Marcos Feliciano comandou a comissão em meio a diversos episódios polêmicos e de tentativas de retração dos direitos das minorias. Na tentativa de evitar esse reprise indesejado para o PT e o governo, o deputado Assis do Couto (PT-PR), que presidia a comissão, tentou indeferir –sem sucesso– a candidatura de Sóstenes, acabou sendo obrigado a cancelar a eleição e remarcá-la para quarta-feira 11, às 14 horas.

De acordo com o regimento interno da Câmara, a candidatura do deputado do PSD não pode ser invalidada porque o partido integra o bloco partidário, liderado pelo PT, que irá indicar o presidente da Comissão. Com isso, o PSD tem os mesmos direitos que o PT para concorrer ao cargo. O PSD, lançado por Gilberto Kassab, é o mais novo partido da base aliada do governo Dilma Rousseff.

Pelo acordo firmado entre lideranças partidárias com base na proporcionalidade das bancadas, coube ao PT indicar formalmente o presidente. O partido escolheu Paulo Pimenta (PT-RS) para o cargo, nome que foi comemorado por movimentos sociais. Nas contas de parlamentares ligados à defesa dos Direitos Humanos, Cavalcante teria votos suficientes para vencer a disputa.

Cavalcante, que pertence ao mesmo bloco partidário do PT, indicou seu nome de forma avulsa, à revelia do líder de sua legenda, Rogério Rosso (PSD-DF), e do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ele, o peemedebista pediu três vezes para que ele retirasse a candidatura.

Presidente da Comissão no ano passado, Assis do Couto (PT-PR), negou o pedido da candidatura avulsa com base em um eventual prejuízo à proporcionalidade partidária. Entretanto, o petista atendeu a um pedido do líder de seu partido, Sibá Machado (AC), e encerrou a reunião.

Cavalcante acredita que sofre preconceito por ser pastor evangélico. “Não entendo por que tanto preconceito com a nossa candidatura”, disse. “Todo pastor, todo sacerdote, é militante de direitos humanos. Não sei por que atribuíram que a direitos humanos são ligados a partidos de esquerda”, afirmou o candidato.

Apadrinhado político do pastor Silas Malafaia, Cavalcante está em seu primeiro mandato como deputado federal e também é pastor da Assembleia de Deus.

O deputado evangélico também tem o apoio de Jair Bolsonaro (PP-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), integrantes da bancada da bala que também fazem parte da CDHM. O Bolsonaro pai costuma fazer discursos na Câmara contrários aos trabalhos da comissão em defesa dos direitos de homossexuais e presidiários, por exemplo. Na semana passada, o pepista disse que a bancada da bala” deveria tomar o controle da comissão de Direitos Humanos.

Para Paulo Pimenta, a candidatura do deputado do PSD fere o regimento da Casa. “Tenho certeza que nesta semana ele vai pensar no equívoco que fez”, disse o petista.

Como não se chegou a um consenso, foi convocada uma nova sessão para a próxima quarta-feira (11).

Fonte: Carta Capital e Terra