O prefeito de Anápolis, Pedro Sahium, está perdendo defensores de primeira hora de sua gestão à frente do Executivo: líderes evangélicos se dizem frustrados com atos do prefeito e sua incapacidade de admitir e corrigir erros em seu mandato.

A primeira palavra contrária à atuação de Sahium é do pastor Victor Hugo de Castro, da Igreja de Cristo Vida Nova. Fundador do Conselho de Pastores, entidade que congrega líderes evangélicos de diversas igrejas de Anápolis e que prestava apoio irrestrito ao prefeito, inclusive realizando sessões de oração na prefeitura, como tentativa de criar um clima religioso para melhorar a administração municipal, o pastor Victor Hugo reprova as ações do prefeito e faz considerações sinceras. “Estou frustrado, como mais de 70 por cento da população anapolina se sente. Tudo aquilo que foi proposto e pregado durante a campanha eleitoral não foi colocado como prioritário, inclusive princípios básicos como sinceridade e transparência”, frisa.

O fato de a Justiça ter cassado o mandato do prefeito em duas instâncias distintas e ele se manter no cargo através de medidas protelatórias pesa ainda mais contra Pedro Sahium. “Nós vemos isto com muita decepção e consideramos que essa relação atenta contra todos os princípios cristãos e contra os ideais de administração pública.”

O juiz da Vara de Fazenda Pública de Anápolis, Sebastião José de Assis Neto, já havia condenado o prefeito à perda da função pública, tendo assim seus direitos políticos suspensos por três anos. A ação movida pelo Ministério Público foi em razão de uma área do Mercado do Produtor, central de distribuição de produtos alimentícios, ter sido cedida pela administração pública para um amigo do prefeito, que também foi condenado por ato de improbidade administrativa. Segundo o inquérito feito pelo promotor, o prefeito Pedro Sahium firmou um contrato de “comodato” com Alecir Reginaldo, que freqüenta a mesma Igreja Evangélica que o prefeito, para que ele construísse uma seqüência de boxes para instalar atacadistas de frutas, verduras e outros alimentos. A sentença foi mantida integralmente pelo Tribunal de Justiça e os advogados de Pedro recorreram para o STJ com um pedido de efeito suspensivo da sentença para mantê-lo no cargo.

A gestão de Pedro Sahium, segundo o líder do Conselho de Pastores é “totalmente contra o que se espera de um cristão” para tocar a coisa pública e explica seu descontentamento com argumentos bíblicos. “Eu entendo que um dos maiores problemas da administração de Pedro Sahium é uma coisa que podemos classificar como ‘síndrome de Adão’, que é nunca reconhecer que errou. Essa talvez seja a pior coisa dessa administração: errar, não reconhecer o erro e ainda tentar justificar esse erro”.

Mais de uma dezena de investigações do Ministério Público, ações judiciais de improbidade administrativa, condenação já em grau de recurso na Justiça e uma Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal revelam que Pedro Sahium à frente da prefeitura de Anápolis tem reprovação da quase totalidade da população de Anápolis. Victor Hugo considera que “o erro mais gritante da administração de Pedro Sahium é que ele não tem vocação para administrador público e eu alertava isto antes da campanha”.

A posição assumida por Victor Hugo é endossada por outros líderes religiosos, ouvidos pela reportagem com a condição de não serem identificados. Victor esclarece que “somente o fato de ser evangélico não significava que Pedro mereceria nosso voto”. Ele prega que para ser prefeito merecedor da confiança do povo e, especificamente dos evangélicos, precisa demonstrar ter don para a administração pública e que falta ao prefeito Pedro Sahium autoridade. “Não se trata de uma crise administrativa e nem política. Tudo isto é conseqüência da crise de autoridade, de comando e de liderança que falta em nossa cidade”.

Troca

Um conselho do pastor Victor Hugo para o prefeito Pedro Sahium é uma reformulação integral de seu secretariado para dar uma nova feição e modificar completamente a forma de administrar a cidade. “Avisei ao Pedro antes de sua posse que muitos líderes terminaram seus mandatos de forma melancólica por não terem sabedoria na escolha de seus auxiliares. É necessário e crucial ele colocar uma equipe realmente competente, que realiza e sabe o que fazer, pois do contrário ele estará fadado ao fracasso, porque primeiramente precisam ter princípios de lisura e honestidade para gerir os destinos públicos e depois comprovar competência. Ser competente e não ter princípios não adianta nada. É preciso ter embasamento de princípios com honestidade, com compromisso com a cidadania e com as promessas assumidas em praça pública, que criaram toda uma expectativa na população de Anápolis. Foi prometido que Anápolis seria uma nova Curitiba, fazendo alusão à capital paranaense que é conhecida como um dos melhores locais para se viver e que no Brasil tem poucas concorrentes em qualidade de vida, além de tantas outras coisas que foram ditas para captar votos da sociedade, que o povo acreditou e que infelizmente não estamos vivenciando. Quanto ao secretariado que o prefeito escolheu vemos, que sem sombra de dúvida, peca por não preencher requisitos básicos como probidade e respeito pela coisa pública. Há uma passagem na Bíblia dizendo que ‘pelos frutos se conhece a árvore”, explica.

Um fato isolado da prefeitura causa perplexidade ao pastor Victor Hugo, principalmente por vir de um secretário que é referência na comunidade evangélica. O secretário de saúde do município, Erney de Pina, reconheceu que não aplicou o limite constitucional mínimo em saúde de 15 por cento do orçamento municipal.

“Fiquei perplexo quando soube desse caso, porque é sabido que em todo o país o serviço público de saúde é problemático e em Anápolis é igualmente caótico. Cada um de nós é responsável por sua parcela quando um administrador público reconhece que não destina os recursos que a lei determina em uma área crucial para a população como é a saúde só me resta demonstrar minha perplexidade, apreensão e meu temor com os rumos que a saúde da sociedade pode ser conduzida”.

Fonte: Jornal Opção