A radicalidade do discurso de políticos evangélicos contra bandeiras feministas e LGBT e a favor de valores morais e da família é boa no caso de disputa para cargos legislativos, de eleição proporcional. Quando a disputa é por cargos executivos, que requerem eleição majoritária, o extremismo dá lugar à negociação e à moderação.

Este foi um dos pontos debatidos nesta terça durante encontro sobre “Religião e Sistema Político” da série Diálogos, realizada pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e “Ilustríssima”.

O evento reuniu Ricardo Mariano, professor de sociologia da USP, e Ronaldo de Almeida, professor de antropologia da Unicamp, diretor científico do Cebrap e autor de “A Igreja Universal e Seus Demônio” (ed. Terceiro Nome).

Mariano citou o caso do pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), que presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara com um discurso homofóbico e antifeminista e obteve o dobro de votos em São Paulo em relação à eleição anterior. “Radicalizar posições no Legislativo dá voto.”

Segundo ele, nos últimos anos, políticos pentecostais fizeram alianças que têm construído um discurso radicalizado no Parlamento: se aliaram à bancada católica conservadora e à bancada da bala. “Além disso, Bolsonaro se converteu e jogou o PSC na extrema direita.”

Almeida avaliou a moderação no discurso do bispo licenciado da Igreja Universal (IURD) e prefeito eleito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). “Estou curioso para saber como será sua administração.”

Ele destacou que a campanha de Crivella se distanciou da IURD ao mesmo tempo em que adotou o discurso do empreendedorismo. “A Universal, seu braço político, o PRB, e seu braço na mídia chamado Record têm de ser tratados como um sistema”, avaliou.

Para ele, a Universal tem se mostrado mais flexível. “Gosto de citar a tautologia sociológica de Paul Freston: quanto mais os brasileiros viram evangélicos, mais os evangélicos viram brasileiros.”

[b]HIPERATIVISMO[/b]

Mariano explicou que até os anos 1970, os evangélicos eram tidos como “apolíticos e alienados”. A partir da Constituinte, cresceu o ativismo político desses religiosos, com integrantes da Assembleia de Deus pregando o lema corporativista “irmão vota em irmão” para engajar politicamente os fieis.

Após a campanha, houve salto de dois deputados federais evangélicos eleitos em 1982 para 32. O Brasil tem 50 milhões de evangélicos, ou cerca de 25% da população, segundo os debatedores.

Para Mariano, há alguns anos o que se vê é um “hiperativismo político evangélico”, especialmente em pautas ligadas a costumes.

“Eles se opuseram à “proposta de escola sem homofobia, fizeram lobby em favor do projeto da cura gay, desengavetaram o Estatuto do Nascituro, que proíbe aborto até em casos de estupro, bem como tentaram abreviar a tramitação do Estatuto da Família, que veta a adoção de crianças por casais gays.”

Para Almeida, existem três vetores da atual onda conversadora compartilhados pelos políticos evangélicos.

“Primeiro, o liberalismo econômico, presente na teologia da prosperidade e na lógica do empreendedorismo e do consumo. Segundo, a disputa da moralidade pública. Terceiro, o vetor punitivo-repressivo, que votou a Lei Antiterrorismo, a revisão do Estatuto do Desarmamento e que não consegue justificar a pena de morte teologicamente, mas sustenta a redução da maioridade penal.”

Para Mariano, “o firme propósito político de discriminar minorias sexuais e assegurar parte de suas crenças e valores morais no ordenamento jurídico faz com que [políticos pentecostais] contribuam para polarizar o debate”.

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]