Muçulmano devoto, Abdullah Gul é o primeiro político com passado de militância islâmica a se tornar chefe de Estado na Turquia desde a criação da República, fundamentada na separação entre Estado e religião, em 1923.

A eleição, nesta terça-feira, do ministro do Exterior, Abdullah Gul, para a Presidência do país ocorreu na terceira rodada de uma votação parlamentar, após meses de tensão entre os defensores do secularismo no país e a agremiação governista Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), que tem raízes islâmicas – e à qual é ligado o premiê Recep Tayyip Erdogan.

Muçulmano devoto, Gul obteve votos de 339 dos 550 membros do Parlamento, dominado pelo AKP desde que o partido venceu as eleições gerais do mês passado.

O presidente turco tem o direito de vetar leis e dissolver o parlamento. Ele também indica o primeiro-ministro e outras figuras-chave no governo.

Véu

Embora Gul tenha dito que vai respeitar a Constituição secular e que vai governar para todos os turcos, a elite secular e os militares da Turquia dizem temer que ele esconda uma agenda islâmica.

Muitos secularistas vêem com desconfiança o fato da mulher do político usar o véu islâmico, um poderoso e controverso símbolo de religiosidade islâmica no país.

Ela será a primeira mulher de um presidente turco a usar o véu, mas ainda não está claro se ela estará sujeita à proibição do uso do véu em instituições do Estado, como o Palácio Presidencial.

A seu favor, Gul tem a fama de ser um habilidoso diplomata, que tem tentado convencer a União Européia a dar início às negociações para a eventual entrada da Turquia no bloco.

Militares

Na segunda-feira, o comandante das Forças Armadas da Turquia, general Yasar Buyukanit, afirmou que “centros do mal” estavam tentando prejudicar o governo secular do país.

Buyukanit não identificou quem, na opinião dele, estaria “tentando corroer a natureza secular da República Turca”, mas as suas declarações foram entendidas como uma mensagem a Gul.

O fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal Ataturk, baniu a influência religiosa da vida pública quando criou uma república inspirada nos modelos ocidentais, em 1923.

O Exército se intitula o guardião do secularismo na Turquia. Nos últimos 60 anos, o Exército turco derrubou quatro governos.

Fonte: BBC Brasil