O ex-bispo católico Fernando Lugo, que largou sua vida religiosa para combater a pobreza e a corrupção através da política, acabou com seis décadas de governo do centro-direitista Partido Colorado no Paraguai ao ganhar, neste domingo, eleições presidenciais históricas.

Com 84,15 por cento das urnas apuradas, Lugo, de 56 anos, tinha 40,71 por cento dos votos, seguido pela candidata governista Blanca Ovelar com 30,79 por cento das preferências, segundo o Tribunal Superior de Justiça Eleitoral. Blanca reconheceu a derrota.

O ex-bispo, que é adepto da Teologia da Libertação e tomou cuidado para não ter sua imagem ligada a líderes populistas latino-americanos, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prometeu uma reforma agrária e quer renegociar os acordos energéticos que o país tem com Argentina e Brasil.

“Os cidadãos humildes e simples são os responsáveis por esta mudança, para que nosso país não seja sempre lembrado por sua corrupção, por sua pobreza, e sim por sua honestidade, por sua eficiência”, disse Lugo pouco depois de conhecer os primeiros resultados oficiais.

Milhares de paraguaios se reuniram no centro de Assunção com bandeiras do país e de diferentes partidos que integram a Aliança Patriótica para a Mudança, coalizão liderada por Lugo, para festejar.

O Partido Colorado dominava a política paraguaia desde 1947 e seu poder se consolidou em 1954, quando o general Alfredo Stroessner deu um golpe de Estado e instaurou uma brutal ditadura que caiu em 1989 após uma revolta liderada por alguns setores da mesma legenda.

“O resultado é irreversível e reconhecemos o triunfo de Fernando Lugo”, disse Ovelar, uma ex-ministra da Educação de 50 anos.

Votação tranquila

Segundo a Organização de Estados Americanos (OEA), a votação transcorreu de maneira tranquila, com incidentes isolados e sem qualquer informação sobre tentativa de fraude.

Lugo receberá uma economia que cresceu 6,4 por cento em 2007 graças às exportações de soja. O país, entretanto, apresenta um nível de pobreza que alcança cerca de 40 por cento da população.

A promessa de Lugo de renegociar os acordos energéticos causou apreensão no Brasil e na Argentina, especialmente pela possibilidade de que aumentem os preços da eletricidade que o Paraguai vende em duas represas binacionais, no caso do Brasil, em Itaipu.

Cerca de 2,8 milhões de pessoas estiveram habilitadas a votar no país de 5,6 milhões de habitantes, que tem uma das menores economias da América do Sul e uma má fama em matéria de corrupção, falsificação e contrabando.

Além do presidente e seu vice, os eleitores também escolheram um novo Congresso, com 45 senadores, 80 deputados, 17 governadores regionais e dezenas de legislaturas locais, todos para um período de cinco anos.

O presidente eleito assumirá o governo em 15 de agosto.

Fonte: Reuters