O ex-bispo paraguaio Fernando Lugo, que foi suspenso “a divinis” pelo Vaticano, considera irreversível sua candidatura presidencial em 2008 e, se vencer, pretende governar com todos os partidos, sem copiar modelos de outros países da região.

O ex-bispo defendeu a renegociação dos convênios das grandes hidroelétricas nas fronteiras do Paraguai com o Brasil (Itaipu) e Argentina (Yacyretá).

“O próprio presidente do Brasil, Lula, nos disse explicitamente e publicamente que o crescimento econômico do Brasil não vai ser às custas dos países pobres da região. Acho que é um bom argumento”, disse.

Atualmente, o Paraguai recebe US$ 280 a 300 milhões por Itaipu.

“O valor poderia quase quintuplicar, com um tratado mais justo.

Poderia alcançar os US$ 2 bilhões”, avaliou.

Sobre sua candidatura, Lugo disse em entrevista à Efe que acha que é “um processo irreversível, independentemente do que possa acontecer à Concertação Nacional”. O movimento integrado pelos principais partidos de oposição procura a apresentação de um candidato único em 2008.

O ex-bispo de San Pedro explicou que sua decisão de ser candidato atende a um pedido expresso de diferentes movimentos, partidos e setores. Ele opinou que sua candidatura “tem que ser um processo dos paraguaios”.

“O Paraguai não é a Venezuela. Não acho que haja um líder parecido com Hugo Chávez, nem temos os recursos dele. Não dispomos de 3 milhões de barris diários de petróleo”, acrescentou.

Lugo também apontou diferenças com Evo Morales, presidente da Bolívia. “No processo boliviano, o ingrediente étnico é muito forte, assim como o cultural e o nacionalista, que não surgem com a mesma força no Paraguai”, comparou.

“No Paraguai existe uma tentativa de aglutinar esforços de diferentes partidos. Em primeiro lugar, é preciso tirar do poder o partido Colorado, que governa há 60 anos e não soube administrar os recursos do país”, destacou.

Ao comentar a onda de Governos de esquerda, opinou que no Paraguai a situação será diferente. “Os paraguaios devem formar um projeto de país com pontos de convergência”, enfatizou.

Além disso, desmentiu acusações de setores governistas de ter o apoio de Chávez. “Isso é muito paraguaio. Durante a ditadura de Stroessner, falar de Cuba, Fidel Castro, e até usar barba era gravíssimo. Hoje, elogiar o processo venezuelano e o boliviano é de alguma maneira uma desqualificação”, ironizou.

Um decreto do Vaticano divulgado hoje em Assunção informou que Lugo “permanece no estado clerical e continua estando obrigado aos deveres a ele inerentes, embora suspenso do Ministério sagrado”.

Lugo se considera ex-bispo, após ter pedido ao Papa para voltar a ser leigo, em 2006.

Sobre as suas prioridades como presidente, ele afirmou que primeiro tem que haver “uma reconciliação política” no Paraguai.

“Em segundo lugar, acho que o grande déficit é a administração da Justiça, que é cativa do poder político”, apontou, definindo como terceira prioridade “um crescimento econômico com eqüidade social”.

Fonte: EFE