Pessoas de todo o mundo vieram para Spindale, pequena cidade da Carolina do Norte nos contrafortes dos montes Blue Ridge, atraídas por promessas de paz interior e vida eterna. O que muitas encontraram, em vez disso, foram anos de terror travado em nome do Senhor.

[img align=left width=300]http://cdn.abclocal.go.com/content/wtvd/images/cms/automation/images/1772348_1280x720.jpg[/img]Em entrevistas exclusivas e individuais, 43 ex-fiéis da Word of Faith Fellowship (Irmandade da Palavra da Fé) contaram à Associated Press que os fiéis eram regularmente socados, estapeados, sufocados, jogados no chão ou contra as paredes, numa forma violenta de “salvação” que teria o objetivo de “purificar” os pecadores, expulsando violentamente seus demônios.

Entre as vítimas da violência houve pré-adolescentes e até crianças de dois a três anos —até mesmo bebês, que eram sacudidos vigorosamente e às vezes espancados aos gritos para expulsar demônios.

“Vi inúmeras pessoas serem espancadas ao longo dos anos. Criancinhas levando socos no rosto e sendo chamadas de satanistas”, contou Katherine Fetachu, 27, que passou quase 17 anos na igreja.

A Palavra da Fé também sujeitava seus fiéis a uma prática chamada “blasting” (detonação) —uma agressão verbal violenta, de rachar os tímpanos, muitas vezes conduzida em sessões que duravam horas, com a finalidade de expulsar demônios.

Como parte da investigação, a Associated Press examinou centenas de páginas de documentos policiais, de tribunais e de varas da família, além de horas de conversas com Jane Whaley, a líder controladora da igreja evangélica, gravadas em segredo por seguidores.

A Associated Press também passou mais de um ano localizando dezenas de antigos discípulos que se dispersaram depois de deixar a igreja.

Os entrevistados —em sua maioria pessoas que foram criadas como seguidoras da igreja— disseram que os líderes da Palavra da Fé passaram décadas acobertando o que faziam para frustrar as investigações policiais e dos serviços sociais, pressionando as vítimas menores de idade e seus pais a mentir.

Disseram que os fiéis eram proibidos de buscar assistência médica externa para seus ferimentos, que incluíam cortes, contusões e costelas quebradas.

Vários ex-fiéis da igreja disseram que alguns congregados, incluindo menores de idade, foram sexualmente molestados.

Os ex-fiéis disseram que estão vindo a público agora por um sentimento de culpa por não terem feito mais para acabar com os maus-tratos e porque temem pela integridade física das crianças na igreja —acredita-se que sejam cerca de cem.

No passado, Jane Whaley, 77, rejeitou fortemente a sugestão de que ela ou outros líderes da igreja tivessem cometido violência contra fiéis da Palavra da Fé e alegaram que qualquer disciplina aplicada seria protegida pelos dispositivos sobre liberdade religiosa contidos na Primeira Emenda da Constituição americana.

Ela e o advogado da igreja, Josh Farmer, recusaram repetidos pedidos da Associated Press de concederem entrevistas para comentar as novas acusações feitas por dezenas de antigos fiéis.

Os ex-fiéis disseram que a violência estava sempre presente: menores eram afastados de seus pais e colocados nas casas dos pastores, onde eram espancados, “detonados” e às vezes impedidos completamente de ter qualquer contato com suas famílias por até uma década.

[b]’PRÉDIO DE BAIXO’
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Durante vários anos, homens vistos como sendo os piores pecadores foram mantidos num galpão de quatro cômodos no complexo conhecido como “prédio de baixo”.

Eles eram isolados de suas famílias por até um ano, sem nunca saber quando seriam libertados, e, segundo mais de uma dúzia dos entrevistados, eram sujeitos a espancamentos e “blastings” especialmente violentos e prolongados.

Os professores da escola de ensino fundamental e médio da igreja incentivavam os alunos a bater em seus colegas quando os flagravam sonhando acordados, sorrindo e tendo outros comportamentos que, segundo os líderes, mostravam que estavam possuídos por demônios, disseram os antigos fiéis.

“Não bastava berrar e urrar contra os demônios. Era preciso literalmente bater neles até expulsá-los das pessoas”, disse Rick Cooper, 61, veterano da Marinha que passou mais de 20 anos como congregado e criou nove filhos na igreja.

Desde o início dos anos 1990 a Irmandade Palavra da Fé já foi investigada várias vezes pela polícia, agências dos serviços sociais e a mídia noticiosa, mas as investigações nunca tiverem impacto significativo, principalmente porque seus seguidores se negavam a cooperar.

Alguns antigos fiéis deram uma explicação mais doutrinal das décadas de silêncio: os avisos frequentes de Whaley de que Deus os mataria se traíssem a ela ou à igreja.

[b]FUNDAÇÃO
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A Irmandade Palavra da Fé foi fundada em 1979 por Whaley, antiga professora de matemática, e seu marido, Sam, antigo vendedor de carros usados.

Eles aparecem em documentos como copastores da igreja, mas todos os entrevistados disseram que é Jane Whaley quem exerce controle ditatorial sobre a congregação e também administra pessoalmente alguns dos espancamentos.

Whaley tem dezenas de regras rígidas que controlam a vida dos fiéis, inclusive a possibilidade de eles se casarem ou terem filhos. A primeira regra da lista: ninguém pode fazer reclamações sobre ela ou questionar sua autoridade. A desobediência às regras muitas vezes provoca reprimendas humilhantes dadas desde o púlpito ou, o que é pior, castigos físicos, segundo a maioria dos entrevistados.

Sob a liderança de Whaley, a Palavra da Fé passou de um punhado de seguidores para uma seita com 750 membros, concentrada em um complexo de 140 mil metros quadrados protegido por fortes medidas de segurança e uma barreira de árvores.

O grupo também tem quase 2.000 membros em igrejas no Brasil e em Gana, além de entidades filiadas em outros países.

As pessoas que assistiam aos seminários bíblicos internacionais promovidos pela igreja duas vezes por ano eram encorajadas a mudar-se para Spindale, comunidade de 4.300 moradores situada entre Charlotte e Asheville, na Carolina do Norte.

Os ex-fiéis disseram que apenas depois de terem vendido suas casas e se mudado emergia o “lado escuro” da igreja.

Quando isso acontecia, eles já estavam isolados de seus familiares e amigos e acreditavam que Whaley era profeta. Tinham medo de protestar ou de deixar a igreja.

[b]VINGANÇA[/b]

Em vista do que descrevem como sendo o histórico de Whaley de vingança contra quem ela vê como sendo traidores, os antigos fiéis disseram que sua esperança é encontrar força e proteção por serem vários que estão se manifestando.

“Passei a maior parte de minha vida com medo. Hoje não sinto mais medo”, disse John Cooper, um dos filhos de Rick Cooper.

Mesmo assim, muitos antigos membros da igreja disseram que as memórias e os pesadelos nunca desaparecem e que vivem com medo do que possa acontecer com os familiares que ainda fazem parte da seita.

Danielle Cordes, 22, contou que carrega cicatrizes psicológicas profundas por ter passado mais de três quartos de sua vida no mundo de Jane Whaley.

Três anos atrás, a última vez em que ela tentou visitar seus pais, seu pai bateu a porta em sua cara sem dizer uma palavra. Até hoje, sempre que ela telefona, seus familiares desligam o telefone. “Preciso de minha família, mas a perdi”, ela disse.

Rick Cooper comentou: “Você fica isolado de todo o mundo. A igreja e Jane são a única coisa que você conhece. Você acredita que ela é profeta, que ela tem uma via de comunicação direta com Deus. Por isso você fica passivo, sem fazer nada, enquanto ela detona sua família. Não sei se é possível superar isso algum dia”.

[b]DEFESA[/b]

Em nota no seu [url=http://wordoffaithfellowship.org/]site[/url], a igreja se defende dizendo que estão chocados com as alegações de ex-fiéis feitas contra a igreja e seus pastores. Afirmam ainda, que não toleram e nem permitem abusos e que as alegações são feitas por membros de uma grande família onde um deles enfrente várias batalhas judiciais, inclusive na área criminal.

A nota diz ainda, que as alegações devem ser vistas em contraste com o grande número de membros que a igreja possui atualmente e pergunta: “Se a nossa igreja é um lugar tão abusivo, por que vários dos advogados citados no artigo permitem que seus filhos continuem frequentando nossa igreja e escola por meses depois que eles se retiraram da condição de membros da igreja?”

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]