A Igreja Internacional da Promessa, no Centro de Santo André, se aproveita do desespero de seus ‘fiéis‘ para vender milagres. No discurso dos falsos bispos, entidades de Umbanda viram demônios que destruirão a vida de qualquer um que não coloque a mão no bolso para ‘desfazer o trabalho‘.

Há quem tenha perdido quase R$ 50 mil para a falsa instituição religiosa. O jornal Diário do Grande ABC comprovou o caso de charlatanismo.

O repórter inventou uma história triste e freqüentou a igreja para confirmar a veracidade das denúncias. Um dos bispos não precisou de muito tempo para diagnostigar os problemas fictícios como conseqüência da atuação do Exu-Caveira, uma entidade da Umbanda. A solução do problema seria um trabalho espiritual utilizando cinco velas especiais. As velas precisariam ser encomendadas na própria igreja, ao preço total de R$ 500 (R$ 100 cada uma). Nas lojas do ramo, esse tipo de vela (28 dias) custa cerca de R$ 20.

A igreja é internacional. Mas a única sede conhecida da entidade, na rua Carlos de Campos, próximo ao terminal de trólebus da cidade, fica em um prédio sem regulamentação na Prefeitura e sem alvará de funcionamento. Em uma das denúncias recebidas pelo jornal, que virou inquérito criminal, a família acusa a igreja de ter conseguido R$ 47 mil por meio de estelionato. No outro golpe, as vítimas, com medo, preferiram não registrar nenhuma ocorrência. Alegam ter perdido R$ 25 mil. As denúncias citavam o bispo Carlos Roberto de Miranda, que trabalha em uma rádio da Capital. Outro homem tentou aplicar o golpe na reportagem. O que leva a crer que bispos não faltam no templo da instituição.

A reportagem visitou o local na última quarta-feira, às 14h (horário do culto, segundo a placa da entrada), mas foi aconselhada a tratar diretamente com o bispo. Foi aí que se percebeu o quão espontâneas eram as doações. “Para falar com o bispo, pedimos uma contribuição de R$ 20 para nossa rádio”, disse a moça no balcão do fim da escadaria. A reportagem insistiu, mas não teve escolha. Teve de pagar e recebeu recibo. A moça colheu dados preliminares, como estado civil, situação trabalhista, local de residência e idade. Todos os dados foram inventados.

Na sala das consultas, atrás das cadeiras dos fiéis, outro homem, com jeito de segurança. Pela descrição feita por vítimas, é o bispo Carlos Roberto de Miranda. Depois do pagamento (depositado na urna do altar), o bispo chamou o repórter. O homem usava camisa de manga curta, gravata e uma espécie de batina por cima. Perguntou o que trazia o suposto fiel até o templo.

A história inventada foi sobre um pai doente e um irmão supostamente viciado em cocaína (leia diálogo na página 6). O bispo mordeu a isca. “Esses problemas foram causados por um Exu-Caveira que colocaram na sua casa”, disse o bispo. Ele alegou que, para retirar a entidade da vida do repórter, era preciso realizar um trabalho, utilizando, entre outros itens, cinco velas fornecidas pela igreja. Era preciso freqüentar um culto realizado no domingo.

O repórter saiu da igreja alegando ter de ir ao banco retirar o dinheiro. Quando voltou, dizendo que não havia conseguido sacar e que demoraria um pouco mais, o bispo não desistiu. “Quando você saiu daqui, apresentei seu problema a Deus. Você não vai chorar mais”. E depois insistiu para trazer o dinheiro o mais rápido possível.

Estelionato, artigo 171 do Código Penal, tem pena de um a cinco anos de prisão. Consiste em “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio ou tratamento”. O promotor criminal Amaro José Thomé, da 1º Vara Criminal de Santo André, diz que é comum que golpistas se apóiem na liberdade religiosa garantida pela Constituição para praticar crimes de estelionato impunemente.

Perseguição

Após ser procurado pela reportagem, na sexta-feira, o presidente da Igreja, que se identificou como Carlos Roberto de Miranda, disse que sofre perseguição religiosa. Alegou que o próprio repórter é quem acenderia as velas, e que ele poderia as ter comprado em qualquer lugar. Por isso, não viu nada de errado na ação. Segundo o bispo, o preço da vela é o praticado no mercado. Sobre a falta de regularização e alvará de funcionamento junto à Prefeitura, voltou a usar o argumento da perseguição religiosa. Depois, desligou o telefone.

Ex-metalúrgico perdeu R$ 47 mil

A Igreja Internacional da Promessa desfalcou o metalúrgico Antônio Luiz Ferreira, 54 anos, em R$ 47 mil, indenização que recebeu pelos 18 anos de serviços prestados à Volkswagen. O bispo da Igreja Internacional da Promessa, Carlos Roberto de Miranda, teria dito que um ‘trabalho‘ encomendado resultaria na morte de dois integrantes de sua família, cujos nomes nunca foram revelados. Nos cultos, o bispo prometia que em breve Ferreira arrumaria outro emprego e que, por meio da “fé em Cristo”, recuperaria todo o dinheiro investido para que a ‘macumba‘ fosse desfeita. O ex-funcionário da montadora continua desempregado e conta os dias para começar a receber a aposentadoria. A casa é mantida pelos filhos.

Deprimido, Ferreira conta que a família começou a freqüentar a igreja, em janeiro de 2004, sempre aos domingos, por causa de um filho, cujo nome pediu para não ser citado. “Na segunda vez que ele foi, disseram que tinha de levar minha esposa sem falta. Ela e falaram que uma pessoa da família havia feito uma ‘macumba‘ e que duas pessoas da minha casa iam morrer. O bispo disse que eu tinha de ir lá urgente. No início não dei atenção, mas acabei indo. Mas ele nunca dizia quem ia morrer.”

No início, Ferreira ficou desconfiado, mas caiu na história arquitetada. Para desfazer o suposto ‘trabalho‘, feito em um cemitério da Bahia, a família teria que desembolsar R$ 12 mil. “Pediram outros R$ 1,8 mil para acabar com um outro trabalho que a ex-namorada do meu sobrinho encomendou para acabar com a vida dele.”

O dinheiro serviria para custear a viagem de membros da Igreja à Bahia para resgatar bonecos enterrados em um cemitério e trazê-los a São Paulo, para juntá-los a outros enterrados no Cemitério de Vila Formosa. “Pediram para voltar no domingo seguinte. O bispo disse que tinham desenterrado os bonecos na Bahia e que o Exu queria falar com a gente. No dia seguinte (uma segunda-feira) nos levou a um terreiro, com velas e imagens do candomblé. A figura que apareceu disse ser o Exu, estava de preto e encapuzada. Disse que tinham desfeito o trabalho dele, mas que queria os dois corpos prometidos no trabalho encomendado. O bispo pulou na frente dele com a cruz, fez uma oração e disse que ele (Exu) não ia destruir ninguém. A figura sumiu no meio do mato.” Terminada a encenação, conta o metalúrgico, o bispo pediu outros R$ 32 mil para livrar de vez a família das perseguições do Exu.

Com a ajuda de uma das filhas, que desconfiou estar havendo algo de estranho ao presenciar o pai assinando cheques, a família decidiu registrar um boletim de ocorrência (7682/04) contra o bispo no 1º DP de Santo André. O inquérito policial resultou na abertura de um processo (1154/04) por estelionato. O caso tramita na 1ª Vara Criminal de Santo André e aguarda julgamento.

Trabalhos

Em outra denúncia, um casal de aposentados foi lesado em R$ 25 mil. Quem denunciou foi o namorado da neta do casal, porque todos os demais membros da família diziam estar com medo da Igreja Internacional da Promessa. Nesse caso, a família procurou a igreja por indicação de conhecidos, para tratar de uma doença da neta. O erro do avô foi deixar que os bispos descobrissem uma poupança que tinha, em conjunto com a neta.

O idoso passou a ser abordado por estranhos na rua, que se passavam por médiuns. “Eu tive uma visão. Sua neta vai morrer”, alegavam. Diziam que o problema da neta era um trabalho de umbanda que havia sido feito, e até levaram o idoso para ver o tal trabalho, numa esquina próximo à residência dele. Ele acabou entregando a poupança inteira. A família pediu para não ter o nome revelado e ainda tem medo de possíveis reações.

Outro lado

A respeito do inquérito por estelionato, o presidente da Igreja Internacional da Promessa, Carlos Roberto de Miranda, disse que era para a reportagem procurar o advogado da Igreja, sem dizer quem era ou passar contatos. Sobre a outra denúncia, ele disse que a igreja não tem funcionários trabalhando na rua e desconhece a prática.

Fonte: Diário do Grande ABC