Diz o ditado popular que religião e futebol são coisas que não se discutem. Mas e quando a paixão do brasileiro pela bola se mistura à fé do torcedor, ainda mais em um país com 180 milhões de técnicos de futebol e quase 40 milhões de evangélicos?

A cada domingo, em igrejas pelo Brasil afora, crentes em Jesus abrem uma brechinha nas conversas após o culto para aquele papo sobre a última rodada do Brasileirão – ainda mais quando, na mesma congregação, é possível achar torcedores de times variados. Assim, em São Paulo, crentes corintianos, são-paulinos e palmeirenses vivem uma saudável rivalidade quando o assunto é a bola. No Rio, flamenguistas podem ter a mesma fé dos vascaínos, mas quando seus times se enfrentam, saem até faíscas. E assim é no Rio Grande do Sul, em Minas, Pernambuco… Afinal, o país do futebol também é, cada vez mais, um país evangélico.

Repelido no meio protestante até bem pouco tempo atrás – há coisa de uns 30 anos, a prática esportiva e ainda mais o envolvimento com os jogos eram condenados por setores da Igreja –, o futebol, a cada dia, cai no gosto dos crentes, sobretudo os da ala masculina. Alguns até vão aos cultos com a camisa do seu clube. Por outro lado, há aqueles para quem as coisas velhas já passaram – no caso, a paixão desenfreada pelo time. Que o diga Luciano Costa Gonçalves, de 31 anos. Membro da torcida corintiana Gaviões da Fiel antes de sua conversão ao Evangelho, ele chegou a envolver-se em diversas confusões. “Eu era do tipo que não levava desaforo para casa”, lembra. Uma dessas ocasiões ocorreu durante a final do Campeonato Paulista de 1992. O motorista do ônibus no qual estavam os torcedores perdeu-se no caminho e acabou entrando na mesma avenida em que havia aproximadamente cem ônibus com torcedores do arqui-rival Palmeiras. Claro que o pau quebrou. “Fomos cercados. Achei que fôssemos morrer”, revela.

Depois que encontrou-se com Cristo, em 2001, tudo mudou na vida de Luciano. “Fiquei mais tranqüilo. Agora, não brigo por nada”, garante. A guinada foi tão radical que surpreendeu os companheiros da Fiel – maneira pela qual é chamada a torcida corintiana, tal seu nível de paixão pelo clube do Parque São Jorge. A bem da verdade, Luciano continua gostando de futebol e torcendo pelo Corinthians. Mas o foco de sua vida passou a ser outro. “Muitos não acreditavam que eu havia mudado, mas, quando ia aos jogos, até testificava de Jesus”, frisa. Seu bom testemunho o ajudou até a ganhar alguns amigos para Cristo. “Um deles, que era também da Gaviões, começou a ir comigo aos cultos da igreja. Um dia ele aceitou Jesus e se batizou”, comemora.

“Briga, não”
O estudante Arthur Henrique de Paulo Moreira, de 19 anos, membro da igreja Assembléia de Deus de Guarulhos, cidade vizinha a São Paulo, preferiu se desligar totalmente da torcida organizada Jovem, do Santos. “Pertencer a uma organizada aumenta o risco de violência com os rivais. Se você é um torcedor comum, ou seja, não é ligado a nenhuma facção, essa possibilidade diminui”, explica. Ele diz que, apesar de ser um santista apaixonado, procura se conter durante as partidas, coisa muito difícil quando era um recém-convertido. “Deus me ajudou, e hoje posso vibrar bastante sem ter de ofender pessoas nem falar palavrão”, garante o rapaz.

“Realmente, quando se é de Jesus, não dá para fazer parte de certas coisas. Basta torcer e pronto”, concorda Rogério Segala Lopes, 24 anos, ex-integrante da Torcida Independente, do São Paulo. Membro da Igreja do Evangelho Quadrangular do Jardim Alto Alegre, na capital paulista, ele admite que, na final do Paulistão de 1998, chegou a pedir uma “ajudinha” a Deus para que o tricolor derrotasse o Corinthians. “Fiz um voto: se o meu time fosse campeão, eu iria ler a Bíblia toda. Pois bem, o tricolor ganhou, e eu cumpri o que havia prometido”, conta. Se a motivação não foi das melhores, Rogério pelo menos edificou bastante sua fé. Mas ele faz questão de explicar que hoje, mais maduro, não faz mais esse tipo de coisa, que considera “voto de tolo”.

A designer de interiores Mariele de Lima Santos, 29 anos, membro da Igreja do Nazareno, assume sua paixão pelo futebol, mas também tem consciência que se deve manter no limite. “Eu torço muito, mas nunca fiz coisa alguma que considerasse além da conta”, comenta. Segundo ela, é preciso manter o equilíbrio em tudo, inclusive nas questões futebolísticas; por isso, quando a paixão pelo jogo começar a extrapolar, é hora de rever a situação. “Quando eu chorei em um jogo, por exemplo, decidi ficar um tempo sem assistir às partidas, mesmo que fosse à tarde, ou seja, sem atrapalhar o culto. Essa decisão foi para não influenciar meu temperamento. Hoje, assisto tranqüila. Se perder, fazer o quê?”, resigna-se.

Evangelismo na arquibancada

Nem todos os crentes, é preciso reconhecer, abandonaram a arquibancada depois de conhecer Jesus. Coordenador do site oficial do tradicional clube carioca Vasco da Gama e do Casaca!, portal de notícias do time cruzmaltino, Eduardo Maganha, 30 anos, é um torcedor pacífico, que não quer saber de brigas. Mas nem por isso se considera menos apaixonado. “Costumo ir a todos os jogos no Rio”, orgulha-se. Membro da Primeira Igreja Batista na cidade vizinha de Niterói, ele conta que, apesar de normalmente não acompanhar os gritos de guerra da torcida, muitas vezes acaba extrapolando. “Às vezes, eu me flagro falando coisas feias junto aos outros. É complicado”, admite.

Do outro lado da trincheira do futebol carioca, o webdesigner e flamenguista Eduardo Medeiros de Oliveira, 29 anos, também aproveita o democrático território virtual para divulgar em seu site, o Sempre Flamengo, notícias relacionadas ao time. Membro da Igreja Assembléia de Deus do Plano Piloto, em Brasília, ele acredita que o cristão não deve ser fanático por nada, nem mesmo à bola. “Creio que torcer não é isso. Apreciar futebol é festa, música, hinos e brincadeiras sadias com as demais torcidas”, opina. Freqüentador assíduo dos jogos, Medeiros considera difícil assistir a uma partida sem se envolver com os gritos de guerra e xingamentos da torcida, mas vê nisso uma boa oportunidade. “Isso pode mudar, basta o povo de Deus freqüentar esses locais também e dar um testemunho diferente. Não é esse o nosso papel?”, questiona.

Ex-líder da torcida Multijovem, do Bahia Esporte Clube, o pastor Ubirajara Gomes, da Igreja Batista Missionária da Independência, em Salvador, era um fanático torcedor. Antes de se converter, envolveu-se em várias confusões e, por conta das brigas, principalmente contra a torcida rival, a do Vitória, foi até preso. Do passado encrenqueiro, o pastor só traz o carinho pelo tricolor baiano. Demonstrando bastante equilíbrio, ele lembra que há tempo para tudo: “Torcer por um time não é errado, contanto que isso não se transforme em fanatismo”, opina. Dirigindo uma igreja com mais de mil membros, Ubirajara limita-se a acompanhar os jogos que pode pela televisão. “O futebol está no sangue do nosso povo, e nós, evangélicos, devemos aproveitar essa paixão nacional como estratégia evangelística”, sugere. “São muitas as maneiras pelas quais podemos utilizar o futebol para apresentar Jesus às pessoas”, aconselha.

A idéia de evangelizar durante os jogos tem dado frutos em Goiás – mais precisamente, no Estádio Serra Dourada. “Em um jogo do Brasil contra o Peru, 56 pessoas confessaram Jesus. Também atuamos nas finais do campeonato goiano e, agora, nos jogos do campeonato brasileiro”, explica Colemar Júnior Barbosa, de 37 anos, membro da Igreja Nova Aliança em Células, em Goiânia. Ele mobilizou 400 voluntários para evangelizar durante aquela partida, e desde então, não parou mais.. Atualmente, ele comanda um programa de rádio chamado Torcida gospel, que, além de notícias sobre os jogos, incentiva os torcedores a levarem as boas-novas aos estádios. Barbosa conta que há conversões naqueles locais, mas também durante a programação na rádio, pois muitos ouvintes ligam para entregar-se a Jesus. “Uma de nossas idéias era montar a Torcida Evangélica Organizada”, diz. Nos estádios, os voluntários, que pertencem a torcidas diferentes – muitas até rivais, como no caso dos torcedores do Goiás e do Vila Nova –, distribuem folhetos antes das partidas, no intervalo e no fim de cada jogo. Além disso, circulam com camisetas e faixas contendo mensagens evangelísticas.

Há também amantes do futebol que fizeram escolhas radicais para que a família e a fé pudessem ser preservadas. A pastora e advogada Rosana Pereira Agnoletto, de 41 anos, da Igreja do Evangelho Quadrangular em Vila Esperança, São Paulo, foi criada em uma família de corintianos e era daqueles torcedores que bate ponto em todos os jogos – mas, quando conheceu o futuro marido, Nelson Agnoletto Júnior, que era palmeirense, preferiu evitar o tema futebol. Porém, quando se casaram não teve jeito e as diferenças se evidenciaram. “Ouvia os jogos no último volume e me metia nas conversas dele como os amigos”, lembra ela. A diferença chegou a causar rusgas entre o casal, mas quando os filhos optaram pelo Verdão, Rosana preferiu se sacrificar pela harmonia do lar e converteu-se ao Palmeiras. Ela confessa que foi uma escolha difícil e que, até hoje, muita gente se surpreende com sua decisão. “Mas, agora, posso dizer que sou uma palmeirense de coração. Até torço contra o Corinthians”, diverte-se.

Fonte: Revista Eclésia – edição 118