As relações entre política e religião no Brasil chamam a atenção dos franceses, destaca Jean-Pierre Langellier, no diário Le Monde.

Com 155 milhões de católicos, o país mais católico do mundo mantém estreitas relações entre política e religião, que vem desde a descoberta em 1500, pela cruz fixada na Bahia quando foi celebrada a primeira missa.

Langellier aludiu ao projeto colonial português e sua associação com a Igreja Católica ao dizer que era “espada e água benta misturadas, a serviço da colônia, do Império (1808) que se tornou independente (1822), depois na República (1889)”.

Esse será um dilema para cristãos conservadores em relação a Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), e José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), candidatos à eleição presidencial que terá seu segundo turno neste domingo.

Serra quando ministro da Saúde assinou nota normatizando o aborto em hospitais públicos, nos casos previstos em lei. Ainda assim, ele acusa a adversária de assumir compromissos públicos com o aborto. Dilma defende que aborto é assunto de saúde pública e defende o fim da morte de 40 a 50 mulheres por mês, desassistidas pelo Estado.

O colunista francês lembrou que a primeira Constituição republicana brasileira, proclamada em 1891, 14 anos antes da francesa, já consagrava a separação entre Igreja e Estado. A Igreja perdeu muitos direitos, especialmente o financiamento público para seus hospitais e escolas, recuperando-os 33 anos depois, no governo de Getúlio Vargas.

Mesmo sendo um Estado laico, escreveu Langellier, o poder da religiosidade católica popular ainda dá à Igreja poder de assumir seus valores, manifestando sua opinião sobre o aborto nos prazos eleitorais em que isso é proibido ao conjunto da sociedade.

Informou ainda que a própria Igreja Católica é perpassada por correntes politicamente diferentes, entre elas a “teologia da libertação”, que defende a “força histórica dos pobres”, a partir da leitura da Bíblia nas comunidades eclesiais de base, com educação popular, catequese e resistência. Muitos quadros do PT, incluído o próprio presidente Lula, têm seu destino político na família dos católicos de esquerda.

Na época do Segundo Reinado, o Conselho do Império, presidido pelo imperador Pedro II, mandou prender e endossou a condenação de dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, da diocese de Olinda e Recife, e de dom Antonio de Macedo Costa, da diocese de Belém, no Pará, por entenderem que orientação do papa estava acima da imperial. Isso garantiu que por mais de três décadas a Igreja Católica não interferisse e nem desacatasse o governo.

A mudança começou a surgir com a chegada das igrejas pentecostais no início do século XX e sua explosão de crescimento nos anos 60, de traço conservador, inclusive na moral sexual. Reunidas em 23 grupos diversos, as igrejas evangélicas fizeram do Brasil o maior país pentecostal depois dos Estados Unidos.

Elas representam 20% da população, ou seja, cerca de 40 milhões de fiéis. Unem a um antigo devocionalismo protestante, fundado nas práticas de cura e de exorcismo, uma modernidade religiosa que coloca em primeiro lugar o fervor e o aspecto afetivo.

O neopentecostalismo, dos anos 80, defende uma ideologia de sucesso social batizada de “teologia da prosperidade”, por meio da qual os pastores, muitas vezes sem formação teológica, prometem uma “felicidade imediata” às massas privadas de bens de consumo e convidadas a adquiri-los por meio de milagres a serem realizados.

Esse materialismo radical autoriza a Igreja Universal do Reino de Deus a garantir a seus fiéis a abertura “das portas do céu” a seu favor, com a condição de que se integrem à denominação e contribuam. A Universal tornou-se um império midiático e financeiro, liderada pelo bispo Edir Macedo.

Mas as novas igrejas também levam muitas vezes uma resposta calorosa e fraterna às famílias que pagam o seu “dízimo”. Lá onde reina a pobreza, a violência, a prostituição e a droga, onde o Estado, ausente, não desempenha o seu papel em matéria de saúde e de educação, elas realizam uma rede de ajuda recíproca comunitária que oferece uma certa proteção baseada na confiança.

O grupo parlamentar evangélico cresceu 50% este ano: 63 deputados e três senadores foram eleitos no dia 3 de outubro, pertencentes a 14 partidos. Dilma Rousseff e José Serra não falam a respeito do aborto, mas falam da lei vigente que autoriza o aborto em caso de estupro e de ameaça à vida da mãe. Preferem exaltar “o direito à vida”, o slogan curinga usado pelos partidos cristãos.

[b]Fonte: ALC[/b]