A irmã Elizabeth Bowyer, que foi amiga da freira Dorothy Stang por mais de 50 anos, crê que a sentença que condenou o suposto assassino da missionária americana é boa, mas não garante que crimes semelhantes não voltarão a ocorrer no Pará.

Dorothy Stang, de 73 anos, foi assassinada em fevereiro de 2005, em Anapu, no oeste do Pará. O fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime, foi condenado a 30 anos de prisão na terça-feira.

”Sempre nos sentimos inseguras sobre o destino de nossas irmãs no Brasil, porque elas trabalham com os pobres e com os alijados do poder, e isso as coloca em risco”, disse, em entrevista à BBC Brasil, a religiosa que responde pela área de comunicação da congregação Irmãs de Notre Dame de Namur, à qual Stang pertencia.

Bowyer é também a responsável pelo material da missão de Justiça e Preservação Ambiental, a área na qual a freira americana atuava. Elizabeth Bowyer, que trabalha em Ohio, o Estado natal da missionária assassinada, acredita que a sentença judicial ”não é necessariamente um sinal de que a área esteja mais segura. Esperamos que sim, mas nunca se sabe”.

Segundo a religiosa, um total de 16 freiras da ordem das Irmãs de Notre Dame atua no Brasil, sendo metade americana e metade brasileira.

Em Anapu, no Pará, o número de missionárias oscila entre quatro ou cinco. Elas trabalham em missões de prazos variáveis, às vezes de poucos meses ou em outras ocasiões por períodos mais extensos.

Sentença

Ainda que não considere a sentença de Bida uma garantia de segurança, a irmã Elizabeth elogiou a decisão da Justiça brasileira.

”Houve tantos assassinatos e tanta na violência naquela área do Pará, com muita impunidade. Sentimos que esse julgamento é muito importante para os camponeses e trabalhadores rurais do Brasil.”

”Esperamos que o julgamento os ajude a superar o medo da violência, que eles possam exercer seus direitos como cidadãos do Brasil, os direitos de ter propriedades e de cultivar terras na região sem temer que sejam despejados ou que tenham suas propriedades incendiadas”, acrescentou.

Silêncio do papa

O tom elogioso da religiosa não se estende ao silêncio do papa Bento 16 sobre o assassinato da freira durante a sua recente visita ao Brasil. Para Elizabeth Bowyer, o fato de o papa não ter feito pronunciamentos sobre o tema foi ”decepcionante, mas compreensível”.

”A Igreja é lenta em temas como esse. E, além disso, há toda a questão da Teologia da Libertação. Estamos decepcionadas, mas não tínhamos grandes expectativas de que ele fosse falar sobre isso.”

Indagada se existe uma conexão entre Teologia da Libertação e a o trabalho das Irmãs de Notre Dame, a missionária afirmou: ”Não usaria a palavra conexão. A Teologia da Libertação teve forte efeito sobre a Igreja no Brasil, e as nossas irmãs integram Igreja no Brasil. Por conta disso, o trabalho com os pobres e despossuídos faz parte da missão delas no país”.

Conscientização

Elizabeth Bowyer avalia que a condenação do suposto mandante do crime poderá servir ainda para despertar uma ”nova conscientização sobre o trabalho com os pobres”.

”A congregação das Irmãs de Notre Dame foi criada para educar os pobres. No caso da irmã Dorothy, a educação e o desenvolvimento sustentável eram suas prioridades. Ela abriu vários colégios no interior da Amazônia e trabalhou duro pelo cultivo da floresta. Ela trabalhou também com camponeses para criar cooperativas que os permitissem manter cultivos sustentáveis”, afirma.

Segundo a missionária, o interesse de Stang pelo cultivo agrícola se deu ainda em sua juventude. ”Em Ohio, seu pai era um fazendeiro. Antes de ir ao Brasil, ela esteve no Arizona, onde atuou com os imigrantes e viu de perto as preocupações deles, ligadas à agricultura.”

A freira acredita que, mesmo após a decisão da Justiça, muitos no Brasil seguirão criticando o trabalho de missionárias como Dorothy Stang.

”Haverá sempre aqueles que criticam o trabalho da irmã Dorothy e a busca por justiça. Mas creio que essa é uma reação de pessoas que temem as implicações econômicas desse trabalho. Não posso ler as mentes dos críticos, mas creio que eles têm muitos interesses velados.”

Fonte: BBC Brasil