A Fundação Nacional de Crianças Roubadas e Desaparecidas (Find, na sigla em espanhol) apresentou ontem uma denúncia contra a ordem Legionários de Cristo à Procuradoria-Geral da República do México.

A denúncia pede a investigação e eventual condenação pelo regime de “escravidão” aos quais mulheres consagradas seriam submetidas no Regnum Christi, a rama laica da ordem religiosa.

A situação de cerca de 900 mulheres, instaladas em diversas casas da congregação, foi denunciada nos últimos dias, por pessoas que conseguiram desvincular-se do grupo.

Contudo, diante das denúncias das desertoras, muitas — que ainda continuam na Legião — negaram ser exploradas, mas reconheceram que eram submetidas a sacrifícios, dizendo ser “escravas, mas de Cristo”.

As integrantes do grupo “decidiram renunciar a suas famílias e a tudo o que representa ir contra as normas, que neste caso são a castidade, a obediência e a pobreza”, esclareceu a diretora do centro da Legião em Saltillo, Miriam de la Gaza, ao referir-se sobre as condições de vida nesse local.

Por outro lado, o presidente da Find, Juan Manuel Estrada, afirmou que as denunciantes relataram que as mulheres na ordem são, em sua maioria, adolescente entre 15 e 17 anos, que se encontram em “cativeiro” no contexto de uma “forma moderna de escravidão e de fraude”.

Trata-se da primeira denúncia apresentada à PGR contra a Legião de Cristo, organização fundada pelo sacerdote mexicano Marcial Maciel, falecido em 2008 e acusado de abusar sexualmente de seminaristas, além de manter uma vida dupla, com mulheres e filhos.

A Legião de Cristo, criada em 1941, atravessa, devido ao caso de seu fundador, por um momento de grave desprestígio. Nos últimos dias, após a realização de uma investigação, o papa Bento XVI pediu a “reformulação” da ordem e anunciou que irá enviar um “delegado” do Vaticano para acompanhar esse processo.

Também ontem o sacerdote Juan Carlos Ocejo, membro da congregação no estado de Coahuila, que conhecia Maciel há muitos anos, falou sobre a conduta do sacerdote.

“Nunca vi nada, dele só recebi coisas boas, bons exemplos, testemunhos que, agora, infelizmente, temos que saber que já não podem ser um exemplo”, afirmou ao jornal local Milênio.

Ocejo reiterou a necessidade de se “reescrever” a história dos Legionários, “que ainda é ligada à figura do padre Maciel”. “Eu não fiz nada e sou um Legionário de Cristo”, complementou.

Mais cedo, os dirigentes da Legião anunciaram, em uma nota, que a maioria deles, “incluindo os que dirigem atualmente” a entidade, não sabia sobre os abusos cometidos por Maciel.

O comunicado também reforçava “a confiança no futuro, enfrentando-o com serenidade e espírito positivo”, tendo “o olhar fixo à grandeza e à urgência da evangelização”.

Fonte: Ansa