Os fundadores da igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandes (foto), que estão presos nos Estados Unidos, usaram parentes, laranjas e empresas fictícias para registrar os bens pessoais do casal. Dos R$ 13,8 milhões em patrimônio levantados pela reportagem, pelo menos 72% estão em nome de terceiros.

Para o Ministério Público do Estado de São Paulo, que no ano passado acusou formalmente o casal na Justiça pelo crime de lavagem de dinheiro decorrente da prática de estelionato e falsidade, o patrimônio real é muito maior, atinge a cifra dos R$ 130 milhões.

O emprego de terceiros dificulta o rastreamento de bens. Os que foram identificados, estão bloqueados judicialmente.

Do patrimônio levantado pela Folha, duas fazendas, uma lancha, cinco carros e dois jet-skis estão registrados em nome de uma das empresas criadas pelo casal e que, segundo a Receita Federal, são fictícias, existem apenas no papel. Teriam sido abertas exclusivamente para a passagem de dinheiro.

Em outros casos, são os próprios fiéis da Renascer que surgem como donos de bens que são reconhecidamente do casal, como era o caso do helicóptero Bell Jet Ranger 206-B, de R$ 2,3 milhões.

No papel, o aparelho pertencia ao vereador e ex-PM Marcos Medeiros (PSDB), de Santo André. Na prática, era de uso exclusivo dos Hernandes. No Natal de 2005, o helicóptero caiu logo após deixar a família no haras de Atibaia (SP), matando o piloto.

Os bens mais valiosos do casa, como o haras avaliado em R$ 1,8 milhão, estão registrados em nome dos filhos, Fernanda Hernandes Rasmussem e Felippe Hernandes, o bispo Tide, ou de parentes próximos.

É o caso da antena de TV na avenida Paulista, avaliada em cerca de R$ 1,5 milhão. Após uma intensiva campanha de arrecadação de dinheiro entre os fiéis capitaneada pelo casal, a antena foi registrada em nome do bispo Tide.

Por outro lado, as empresas fundadas pelos Hernandes que se afundaram em graves problemas financeiros, com inúmeras dívidas, foram transferidas para o nome de fiéis.

Foi o que aconteceu com a RGC Produções, a “TV Gospel”, que é a campeã do grupo em protestos judiciais por falta de pagamento. Fundada por Estevam e por parentes de Sônia, a empresa foi transferida para o nome do bispo Marcele Meleiros depois que as dívidas chegaram a R$ 5 bilhões.

A alteração societária não implicou em uma mudança na administração da TV, que segue nas mãos dos Hernandes. Desde a prisão do casal nos EUA, há quase um ano, a gestão ficou a cargo dos filhos.

Estevam e Sônia foram presos quando tentavam entrar nos EUA com US$ 56 mil não-declarados. Eles foram condenado pela Justiça norte-americana a 140 dias de reclusão em uma penitenciária, cinco meses de prisão domiciliar e dois anos de liberdade condicional por contrabando de dinheiro.

Além da Renascer, Estevam e Sônia fundaram a Igreja Internacional Renovação Evangélica, que é considerada de “fachada” pela Promotoria, teria sido criada para assumir as dívidas e protestos judiciais movidos contra a igreja Renascer.

A nova igreja foi registrada em nome do bispo Jorge Bruno, irmão do deputado estadual paulista José Bruno (DEM), também membro da Renascer. À Justiça, Jorge Bruno disse que a entidade foi criada para ser o braço internacional da Renascer.

Fora do país, o casal tem ainda uma casa de 400 metros quadrado em Boca Raton (Miami), avaliada em R$ 2,14 milhões, e os carros Mercedez modelo 230 Kompressor (cerca de R$ 138 mil) e Chrysler.

Igreja diz que não responderá as acusações

Procurada pela reportagem durante uma semana, a igreja Renascer informou que “não lhe caberia responder a esse emaranhado de abstrações [a relação de bens], embora pudesse fazê-lo”.

Em nota, a igreja informou que sempre teve o maior interesse em esclarecer as falsas acusações que são “brutalmente assacadas a ela, voltadas a denegrir sua imagem e a abalar a fé e o nome de seus líderes”.

A assessoria da Renascer informou que a igreja tem colaborado de todas as formas com as autoridades pertinentes. “Todos os assuntos levantados em mais essa tentativa do Ministério Público de utilizar a imprensa estão sendo tratados, discutidos. Vários deles, inclusive, rebatidos definitivamente.”

Ainda de acordo com a nota, a igreja informa que “apenas lhe resta mais uma vez mostrar que as suposições, ilações e conclusões totalmente factóides, que a Promotoria torna públicas periodicamente, servem apenas para incentivar uma guerra de nervos, para tentar indispor os líderes da Renascer com seus fiéis e com a opinião pública. Não conseguirão.”

Fonte: Folha de São Paulo