Em seu livro que acaba de ser lançado nos EUA, God in My Corner: a Spiritual Memoir, o pugilista convertido em pregador conta como morreu e renasceu num vestiário em Porto Rico depois de sua célebre derrota para Jimmy Young, em 1977, numa luta que pôs fim à primeira fase de sua carreira de boxeador – e de sua vida.

Foreman diz que, naquela noite, foi atirado para dentro de um poço profundo que cheirava a morte, mas que Deus o puxou para fora ¿ e que ele se sentiu tão purificado que não pôde mais odiar ou machucar ninguém.

Em 1994, ele chegou a reconquistar o título de campeão mundial dos pesos-pesados ¿ 20 anos depois de perdê-lo para Muhammad Ali na famosa luta em Kinshasa, a capital do país então conhecido como Zaire.

Hoje Foreman prega para uma pequena congregação em Houston, sua cidade natal, e se tornou empresário de sucesso, conhecido principalmente por suas grelhas “fat-free”.

Você descreve o lugar sombrio para onde foi no vestiário após a luta com Jimmy Young ¿ o mau cheiro, o sangue que você viu, os versos bíblicos que não conhecia antes mas que recitou. Está realmente convencido de que não existe explicação médica para o que aconteceu?

Procurei uma explicação médica, mais do que qualquer outra pessoa procurou. Uma coisa que eu detestava mais que qualquer outra coisa no mundo, mais que a religião, eram pessoas religiosas. Nunca tive a intenção de fazer isso (pregar). Mas aquele cheiro de morte, olhar e enxergar o sangue em minhas mãos… Eu estava morto, e Deus me arrancou daquele poço e me deu uma segunda chance. Espantosamente, não tive mais tempo para odiar ninguém. Senti que não iria dizer nada de mau, nem tentar ferir mais ninguém em toda minha vida.

Você cresceu pobre, nas ruas de Houston ¿ no sul dos EUA, quando ainda havia segregação racial ¿, e hoje mantém um centro para jovens para tirar crianças pobres das ruas. Qual é o maior desafio enfrentado pela comunidade afro-americana hoje?

Acho que o maior desafio é que cada criança que nasce precisa encontrar seu lugar. Nenhuma criança neste mundo tem uma vantagem. A vida vai ser um desafio, mesmo que você nasça em berço de ouro, um John D. Rockefeller. Não é um desafio apenas para uma geração ou grupo étnico, mas para todos.

Não vejo em seu livro nenhuma menção a algumas questões ligadas aos evangélicos americanos, como aborto, casamento gay e orações nas escolas. Que posição você adota, como pregador, em relação a essas questões?

Sempre digo às pessoas em minha igreja que existem certas palavras inventadas puramente para a política. Elas não passam disso. Minha posição em relação a qualquer coisa é que obtenha dessa vida um ser humano decente.

Então, diferentemente de muitos cristãos evangélicos nos EUA, você não tem opiniões políticas?

Não, nenhuma.

O que você quer que os leitores tirem de seu livro?

Que não importa quem você é ou o que alguém lhe fez. A única maneira de encontrar paz de espírito é pelo perdão.

No livro você fala de sua amizade com Muhammad Ali. Ele é muçulmano devoto, você é cristão devoto. Alguma vez você tentou convertê-lo?

Se tentei? Muhammad me disse: “George, George, se Deus quiser que eu saiba o que você está tentando me dizer, deixe que ele mesmo me diga! Me deixe em paz!”. Eu segui aquele cara em todo lugar com a Bíblia. Preguei a ele todos os sermões do mundo sobre Jesus. Mas, no final, encontrei nele um amigo. Eu amo aquele homem.

Fonte: Terra