Onze anos após do fim da guerra civil na Bósnia-Herzegovina, as comunidades religiosas de todas as religiões enfrentam obstruções para construir novos templos, ou para refromar os que estão danificados ou destruídos.

Nas áreas da Federação controladas pelos bósnios (a maior das duas entidades que compõe o país), muitas mesquitas foram construídas, aparentemente sem controle do governo, mas igrejas católicas e protestantes sofrem anos de burocracia. Nas áreas croatas, os templos muçulmanos e protestantes não podem ser construídos legalmente. Na Republika Srpska, controlada pelos sérvios (a menor das duas entidades), as igrejas ortodoxas sérvias podem ser construídas, mas os templos de outras religiões enfrentam maiores obstruções.

A igreja católica recebeu permissão recentemente para construir uma igreja em Sarajevo, “depois de muitos anos lutando para receber a permissão”, o secretário da Conferência Católica de Bispos da Bósnia-Herzegovina, Ivo Tomasevic, disse à agência de notícias Forum 18. Segundo ele, essa é a primeira permissão que a igreja católica recebeu em Sarajevo desde a Segunda Guerra Mundial.

Na cidade de Mostar, controlada pelos croatas, as divisões religiosas e geográficas são claramente visíveis. As autoridades da cidade não permitiram que a comunidade muçulmana reconstruísse a mesquita destruída. Muharem Omerdic, diretor do serviço educacional da comunidade islâmico da Bósnia-Herzegovina, disse que em Banja Luka, na Republika Srpska, a reforma da mesquita Farhadija, construída no século 16 e destruída durante a guerra civil, ainda é um grande problema. “É um jogo político. A comunidade islâmica insiste que, em todos os lugares onde haja fieis e problemas reais, a reforma de templos deve ser permitida.”

O mufti Seid Smaikic, de Mostar, disse que a comunidade muçulmana já construiu várias mesquitas pequenas sem permissão. “Construir uma mesquita no leste de Mostar, em direção de cidades como Capljina e Stolac, conflita com o conceito de “etnicamente puro’ que alguns políticos têm”, disse ele ao Forum 18.

Ele disse que, quando se pede permissão para construir uma mesquita, a administração não dá nenhuma resposta. Sendo assim, eles construíram uma mesquita sem permissão. Seid disse que eles esperam uma autorização para construir uma mesquita maior em Mostar desde 2000.

Mas não são apenas os muçulmanos de Mostar que sofrem obstruções. Karmel Kresonja, presidente da Igreja Evangélica na área não-sérvia da Bósnia-Herzegovina, diz que há um “grande problema” em todas as áreas controlados pelos croatas. “Em Mostar estamos esperando uma autorização de planejamento por mais de seis anos. É basicamente impossível consegui-la, mesmo que a lei diga que temos o direito de construir uma igreja.”

Bernard Mikulic, de uma igreja evangélica em Capljina, região croata, afirmou ao Forum 18: “Nos disseram que, no planejamento urbano, não é possível construir uma igreja na área onde fica o nosso terreno. Não conseguimos receber a autorização”. A igreja planeja perguntar às autoridades onde elas podem ter um templo. “Mas, para ser honesto, não acho que poderemos ter uma permissão para uma igreja.”

Bernard disse ao Forum 18 que, apenas em Sarajevo, ele sabe de igrejas evangélicas que não têm problemas para construir. Em Capljina, ele recebeu a autorização de reformar uma casa na qual eles se reúnem para cantar e orar. Ele não podem, entretanto, realizar cultos públicos lá. A permissão se restringe à construção de uma casa pastoral com uma sala para cultos. A igreja pretende pedir permissão para construir um salão de conferências e um escritório.

Na Republika Srpska, a igreja ortodoxa é a única comunidade religiosa que não sofre obstruções para construir. O Forum 18 soube que, por causa disso, as igrejas protestantes geralmente compram uma casa e transformam-na em uma igreja.

Forum 18 sabe de comunidades religiosas com problemas para obter autorizações na Republika Srpska, as quais acham que discutir publicamente esse assunto acabará com sua chance de receber a autorização. Em um desses casos, a permissão de construção de uma igreja protestante foi revogada quando se tornou público que ela iria construir um templo protestante.

Outro problema que as comunidades religiosas enfrentam é a cobrança de imposto, que restringe o trabalho humanitário, projetos de construção e outras atividades. Desde janeiro de 2006, todas as comunidades religiosas da Bósnia-Herzegovina devem pagar 17% de taxa de valor agregado até em atividades de ajuda humanitária. “Esse é um fardo pesado”, disse Ivo Tomasevic, secretário da Conferência Católica de Bispos, “especialmente quando se sabe que país todo depende de ajuda humanitária”.

Fonte: Portas Abertas