Um grupo dos EUA que combate o anti-semitismo pediu na quinta-feira ao papa Bento 16 que suspenda o processo de beatificação de seu antecessor Pio 12 (foto), acusado por críticos de ter feito vista grossa à morte de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

A Liga Anti-Difamação disse que o processo deve ser suspenso até que os arquivos secretos do Vaticano sobre a Segunda Guerra Mundial sejam abertos e plenamente examinados “para que todo o histórico das ações do papa durante o Holocausto possa finalmente ser conhecido.”

A Congregação para a Causa dos Santos do Vaticano votou a favor de um decreto reconhecendo as “virtudes heróicas” de Pio 12, o que era um dos principais obstáculos no longo processo de beatificação iniciado em 1967.

“Pedimos ao papa Bento 16 que suspenda o processo de santificação do papa Pio 12 pelo bem da verdade histórica e do aprofundamento da amizade entre a Igreja Católica e o povo judeu”, disse Abraham Foxman, diretor nacional da liga e sobrevivente do Holocausto.

“Embora compreendamos que o processo de santificação seja um assunto interno da Igreja, o que Pio 12 fez ou não para ajudar a salvar os judeus durante o Holocausto é uma questão profunda que deve ser resolvida antes, pelo bem das relações judaico-católicas”, disse ele em nota.

Segundo o site do Vaticano, cabe ao papa decidir a “liberação” do acesso aos documentos com base em um pontificado inteiro. Até agora, foram liberados os documentos até o pontificado de Pio 11, que terminou em 1939. Quando os documentos são liberados, só acadêmicos têm acesso a eles.

Se o papa alemão aprovar o decreto da Congregação, como é esperado, Pio 12 receberá oficialmente o título de “venerável”. Começaria então a busca por milagres que possam levar à sua beatificação.

Grupos judaicos acusam Pio 12 de ter sido indiferente ao Holocausto, e as relações diplomáticas entre o Vaticano e Israel foram testadas no ano passado devido a uma legenda referente a isso sob uma foto do pontífice num memorial oficial para as vítimas do nazismo.

Antes de ser eleito papa, em 1939, Pio 12 — ou cardeal Eugenio Pacelli — foi núncio apostólico na Alemanha (1917-29) e secretário de Estado do Vaticano (1930-39). Morreu em 1958.

O Vaticano afirma que Pio 12 não se manifestou contra o Holocausto de forma mais incisiva porque temia piorar o destino dos católicos e judeus, mas que trabalhou nos bastidores para salvar judeus.

Grupos judaicos há anos pressionam o Vaticano para suspender ou arquivar o processo de Pio 12.

O papa Bento 16 está no Brasil para uma visita de cinco dias destinada a reforçar a mensagem católica sobre os valores familiares tradicionais e para tentar conter o avanço das seitas evangélicas no país.

Fonte: Reuters