Grupos religiosos e advogados especialistas em imigração estão alarmados com os longos atrasos enfrentados por padres, freiras, missionários e outros religiosos que fazem pedidos de visto para trabalharem nos Estados Unidos.

“As duas categorias de visto que respondem por cerca de 90% das permissões para trabalho religioso nos Estados Unidos parecem ter deixado de ser emitidas”, afirma Crystal Williams, vice-diretora de programas da Associação Americana de Advogados de Imigração.

Williams diz que os atrasos ocorrem “além da fronteira” e afetam milhares de pessoas que aguardam o momento de trabalhar para vários grupos religiosos, incluindo católicos, judeus, luteranos, evangélicos, mórmons e muçulmanos.

Dan Kane, porta-voz do Serviço de Imigração e Cidadania dos Estados Unidos, diz que os atrasos devem-se às rígidas medidas de segurança e a uma reorganização que concentrou todos os pedidos de visto para trabalhos religiosos em um centro regional de serviços na Califórnia. A maioria dos vistos exige uma inspeção local da instituição patrocinadora.

“A questão se refere mais à integridade do processo de inscrição”, acrescenta Kane. Ao reduzir as fraudes e avaliar a legitimidade dos inscritos, o processo pode se tornar mais eficiente, explica ele.

O governo Bush vem sendo acusado de ser muito leniente com relação aos vistos religiosos, concedendo tais vistos a clérigos muçulmanos de outros países sem averiguações suficientes.

Funcionários de imigração dizem que os programas de visto religioso têm esbarrado em problemas relativos a fraudes. Um relatório de agosto de 1995 revelou que o índice de fraudes para aquilo que é conhecido como visto religioso permanente especial era de 33%.

Steve Camarota, diretor de pesquisa do Centro de Estudos de Imigração, uma organização que defende a adoção de medidas mais duras para controlar a imigração, diz que o programa de vistos necessita de reformas devido aos temores referentes à segurança nacional vinculados às tentativas de extremistas muçulmanos de ingressarem nos Estados Unidos.

Ele disse que um programa repleto de fraudes perderá o apoio da população e desaparecerá, o que, para os inscritos, seria pior do que os atuais atrasos.

Os grupos religiosos e os defensores dos imigrantes dizem que as medidas de segurança estão prejudicando os inscritos legítimos e provocando carência de funcionários nas igrejas, hospitais e escolas. Várias igrejas cultivam a tradição de trazer trabalhadores estrangeiros há cerca de 50 anos, e possuem fortes vínculos com as suas congêneres no exterior. A Igreja Católica, em especial, tem recorrido a padres e freiras estrangeiros para compensar a carência nesta área nos Estados Unidos.

A irmã Margaret Perron, freira católica e diretora de serviços de imigração religiosa da Rede Católica de Imigração Legal, diz que o seu escritório recebeu 65 pedidos por mais detalhes sobre casos pendentes no mesmo dia no ano passado.

Em uma nota divulgada no início deste mês, o Serviço de Imigração e Cidadania anunciou que alguns dos pedidos por mais evidências enviados para várias partes do país não levaram em conta informações incluídas nos pedidos de visto e que elas não podem ser ignoradas.

Perron disse ainda que no ano passado um pedido de uma freira católica nicaraguense de 86 anos para que o seu visto de turista fosse trocado por um de residência permanente foi bloqueado para uma “revisão detalhada”.

“Não consigo imaginar por que o caso de uma pequena freira de 86 anos em Wisconsin esteja passando por uma revisão”, disse ela. Segundo Perron, o pedido está sendo processado há nove meses. Williams disse que as inspeções in loco referentes a quase todos os pedidos resultarão em anos de atrasos para as pessoas que pedem vistos.

Joel Pfeffer, um advogado de imigração de Pittsburgh, disse que o atraso afetará vários imigrantes que estão se aproximando do limite de cinco anos para a expiração dos seus vistos temporários para trabalho religioso, conhecidos como R-1, e que solicitaram residência permanente. Caso os seus vistos expirem, essas pessoas estarão nos Estados Unidos ilegalmente. O visto R-1 foi criado em 1990.

Pfeffer disse que um dos seus clientes, um padre católico de Uganda, teve que retornar à África devido ao atraso e está aguardando lá enquanto o seu pedido é processado. “As pessoas que apresentam casos legítimos estão presas em um impasse”, afirma.

Dorothy Sandoval, diretora de serviços pastorais do Centro Médico Providence Saint Vincent, em Portland, no Oregon, diz que o hospital necessita de um terceiro capelão para realizar uma série de tarefas, incluindo confortar os enfermos e administrar a extrema unção aos moribundos.

O emprego foi oferecido a um padre da Tanzânia que já está trabalhando nos Estados Unidos, mas que necessita de uma modificação do seu visto para trabalhar no Saint Vincent. Sandoval diz que antigamente tal modificação era feita em cerca de oito semanas, mas que agora ela pode demorar seis meses ou mais. “Isso está provocando um estresse real na minha equipe e nos pacientes que atendemos”, reclama ela. “Tem gente sofrendo devido a isso”.

Fonte: Cox Newspapers