Há quarenta anos, neste domingo, as forças armadas de Israel concluíram aquilo que começou como uma missão de autodefesa e rapidamente se transformou na vitória militar mais espetacular da história da nação. Correspondentes percorreram a cidade guiados por um judeu israelense, um muçulmano palestino, uma dupla de cristã americana e judeu sionista e um estudioso cristão que falaram da ligação da cidade com suas religiões.

Para surpresa dos israelenses e humilhação dos árabes, Israel destruiu os exércitos do Egito, Síria e Jordânia no combate que teve início em 5 de junho de 1967. Israel conquistou 109 mil quilômetros quadrados, das Colinas de Golan à Península do Sinai, colocando quase 1 milhão de árabes na Cisjordânia e Faixa de Gaza sob domínio militar.

Um dos espólios da guerra foi a captura de Jerusalém Oriental e da Cidade Velha, lar de templos considerados sagrados pelas três religiões abraâmicas -o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Os soldados israelenses tomaram seu controle da Jordânia, colocando a Cidade Sagrada antes dividida sob a autoridade judaica pela primeira vez em dois milênios. Era a 26ª vez que o controle da cidade mudava de mãos entre judeus, cristãos e muçulmanos.

Mas quatro décadas após Israel concluir sua vitória relâmpago, declarando Jerusalém a “capital eterna e indivisível” do povo judeu, a Cidade Sagrada está longe de estar unida.

Israel tem trabalhado sistematicamente para fortalecer seu controle da cidade, apesar dos palestinos ainda reivindicarem Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestino independente. A ONU e grande parte do mundo continua considerando a cidade um território em disputa.

Solucionar o problema de Jerusalém é um ponto chave para a paz entre israelenses e árabes. E seu status também é importante para grande parte dos 2,1 bilhões de cristãos, 1,3 bilhão de muçulmano e 16 milhões de judeus do mundo.

No 40º aniversário de um dos eventos mais importantes da história recente do Oriente Médio, correspondentes dos jornais “Cox” percorreram Jerusalém guiados por um judeu israelense, um muçulmano palestino, uma dupla de cristã americana e judeu sionista e um estudioso cristão.

Suas visões diferentes e freqüentemente conflitantes da cidade ilustram quão pouco separa fé do fato e religião da política em um dos pedaços de terra mais disputados do mundo.

A guia de excursão judia

Tali Lebowitz, 29 anos, é uma assistente social israelense e guia da Taglit-Birthright Israel, uma organização sem fins lucrativos que traz jovens adultos judeus norte-americanos para Israel para excursões educativas.

“A Cidade de Davi é o local onde tudo começou. É a Jerusalém original (…) Leia o Salmo 121. É possível ver que (o rei David) estava descrevendo este local exato. Ele escolheu este ponto por sua localização entre duas tribos, que visava unir todas (as tribos israelenses). Ela não pertencia a ninguém(…) o que tornava Jerusalém uma cidade que pertencia a todos. É uma cidade que deveria simbolizar paz e unidade.”

“O Monte do Templo é o local mais sagrado para os judeus. Ele tem a pedra fundamental sobre a qual todo o mundo foi criado. É o local onde Abraão pretendia sacrificar Isaac. É o local onde Jacó teve seu sonho. (…) David construiu o Primeiro Templo. (…) O Segundo Templo (construído pelo rei Herodes) foi destruído (em 70 d.C.) porque os judeus não demonstravam amor suficiente uns pelos outros.

“Após (a destruição do Segundo Templo) os judeus perderam o controle da cidade. Os muçulmanos a tomaram depois do século 7º. Eles construíram o Domo da Rocha. É um local sagrado para eles. Mas não esqueçam (…) ele não é uma mesquita. É apenas um memorial. (Os judeus) perderam o acesso ao (Monte do Templo) na época da segunda Intifada (no final de 2000, quando os palestinos lutaram contra a ocupação israelense do território que desejam para um Estado separado).”

“Hoje nós rezamos no Muro Ocidental (porque) é o mais próximo que podemos chegar (do Santo dos Santos).”

“Esta é uma excursão sobre a herança judaica. Nós queremos (que os turistas) entendam que nós (judeus) choramos por 2 mil anos (a perda de Jerusalém), mas que (após 1967) nosso sonho se concretizou. Quando reconquistamos a Cidade Velha e recuperamos (os locais sagrados), nós recuperamos o coração da nação judaica.”

“A Cidade Velha, o Bairro Muçulmano, não fazem parte de Jerusalém Oriental (território que Israel ocupou durante a guerra de 1967 entre árabes e israelenses e território que a comunidade internacional diz que está ocupado ilegalmente por Israel).”

“Jerusalém é uma só.”

A excursão com o muçulmano palestino

Yusuf Natsheh, 51 anos, é um professor de arquitetura e história da arte da Universidade al-Quds, em Jerusalém, e um guia na Cidade Velha.

“O Haram esh-Sharif é o local por onde começar qualquer excursão. Estes
locais sagrados são uma parte chave da fé islâmica. Os muçulmanos acreditam que Deus abençoou este local. Na Hadith (as tradições ligadas às palavras e atos do Profeta Maomé), há uma clara ligação entre Meca, Medina e Jerusalém. Jerusalém é o local para onde Deus enviou Maomé em sua ‘Viagem Noturna’, onde Ele lhe revelou que era um verdadeiro profeta, maior que Jesus, Davi ou Moisés.”

“O Domo da Rocha é o berço da arte islâmica. É o mais antigo monumento islâmico do mundo ainda em pé. Seu projeto original ainda está intacto e inalterado.”

“A Cidade Velha é especial para os palestinos por muitos motivos. É a cidade que nosso segundo califa, Omar ibn al Khattab, conquistou no século 7º, mas ele a conquistou sem derramamento de sangue. Sob sua influência, os governantes muçulmanos foram os primeiros a permitir a liberdade religiosa em Jerusalém para as pessoas de todas as fés -muçulmanos, cristãos e judeus. Daquela época em diante, nós começamos a ver nossa herança palestina na cidade.”

“Os padrões acadêmicos israelenses foram distorcidos para fins políticos. O que os judeus chamam de ‘Cidade de Davi’, eu chamo de antiga cidade jebusita. Todas as evidências mostram que aqui havia uma cidade próspera e sofisticada muito antes da chegada de Davi. (…) Quem pode dizer que os palestinos não são os descendentes daqueles jebusitas, ou de outra cultura que viveu na Terra Santa antes da chegada dos judeus?”

“O que os israelenses chamam de Muro Ocidental, nós conhecemos como Porta de Mughrabi. Na época de Saladino (um general muçulmano do século 12), este era o seu nome. Em 1967, os israelenses destruíram cerca de 130 lares de famílias muçulmanas para construir a praça onde os judeus se reúnem atualmente.”

A excursão cristã-judeu sionista

Kay Arthur, 73 anos, é executiva-chefe e co-fundadora da Precept Ministries International, um ministério cristão com sede em Chattanooga, Tennessee. Eitan Ritov, 59 anos, é um judeu israelense que conduz excursões por Israel desde 1970.

Ritov: “Uma das coisas mais confusas sobre Jerusalém a é Jerusalém bíblica. As pessoas pensam que era assim na época de Jesus. Nem um pouco. Todos os grandes prédios ficavam lá embaixo (na Cidade de Davi). Os israelenses acreditam que o palácio do rei Davi está lá, mas um dos motivos para os arqueólogos não continuarem escavando lá é por ter se tornado político demais. Um palestino se recusou a vender sua casa por milhões de dólares”.

Arthur: “Uma coisa que é preciso entender é que esta terra pertence a Deus. Ela não pertence aos palestinos, apesar de a reclamarem. Isto vai contra a palavra de Deus. Se você olhar para (o Monte do Templo), não pense em ‘mesquita’. Aquela era para ser a morada Dele. Esta terra foi dada a eles (os judeus) por Deus. Era a herança deles. Por quanto tempo pertencerá a eles? Para sempre. (Apontando em sua Bíblia para a interpretação de um artista do resplandecente Primeiro Templo.) O Templo de Salomão tratava da vida. (…) O Islã trata da morte, não da vida”.

A excursão acadêmica cristã

Jerome Murphy-O’Connor, 72 anos, é um padre católico e professor de Novo Testamento da École Biblique Et Archéologique Française, em Jerusalém. Ele é o autor de “Paulo: Uma Biografia Crítica” e “The Holy Land: An Oxford Archaeological Guide from Earliest Times to 1700”.

“A maioria destes locais, se não todos, foi ocupado por grupos diferentes em tempos diferentes. As igrejas do Santo Sepulcro e de Santa Ana foram construídas sobre um templo pagão. O Domo da Rocha foi construído sobre um templo judeu.”

“A esplanada do Monte do Templo é judaica. Os prédios nela são muçulmanos. O paradoxo é que tanto a arquitetura quanto os mosaicos do Domo da Rocha são obra de artesãos cristãos. (No seu início no século 7º) o Islã não tinha tradição de arquitetura e nem de artes decorativas.”

“Alguns palestinos começaram a dizer que nunca houve um templo judeu no Monte do Templo. Eu compilei uma lista inteira de fontes eruditas árabes que dizem que (o rei) Davi e (o rei) Salomão construíram aqui.(…) Mas pela primeira vez há, no momento, uma disposição entre alguns palestinos de falsificar a história religiosa.”

“A Igreja do Sepulcro é a história da Igreja em Jerusalém escrita em pedra. É possível ver traços dos pontos altos -o simples triunfalismo- assim como traços dos pontos baixos, quando a igreja foi destruída por Hakim (o soberano egípcio do século 10). É o prédio mais não-cristão em que já estive. Ele é palpavelmente não-cristão por causa das lutas internas de grupos diferentes.

“A falha de todos os prédios religiosos em Jerusalém: todos carregam
implicações políticas e visavam ser assim. Independente de sua beleza
intrínseca, a falha fatal é a dimensão política inserida neles: ‘Nós
vencemos. Esta é a prova. Obedeçam’.”

“A pergunta é o que torna este local ‘sagrado’. Ele não é sagrado por si só. Você o torna sagrado no local onde você teve uma experiência religiosa excepcional. É onde você encontra seu Deus. É onde você enterra seus ancestrais. Em um sentido muito real, é pelo que você sofreria e morreria. Isto é verdadeiro para judeus, cristãos e muçulmanos. Jerusalém é realmente sagrada para todos eles.”

Drama dos refugiados

Após a guerra, cerca de 1 milhão de árabes caíram sob o controle israelense, e cerca de 300 mil abandonaram sua terra. Para muitos palestinos foi o segundo êxodo. Na primeira guerra entre árabes e israelenses, em 1948, ao menos 700 mil palestinos deixaram a região. A maioria fugiu para a Cisjordânia ou para a Faixa de Gaza.

Em 1967, a tragédia se repetiu. A situação dos refugiados palestinos é vista como um dos principais obstáculos para paz no Oriente Médio. Políticos palestinos de todas as cores exigem o direito à volta de seus refugiados, mas muitos deles não querem mais viver em Israel.

Os assentamentos israelenses são outro obstáculo para a paz. Em 1967, não havia planos de ocupar a Cisjordânia. Hoje, 270 mil israelenses vivem em 122 assentamentos na Cisjordânia. Outros 190 mil se alojaram na região que circunda Jerusalém e a parte árabe da cidade.

A tomada maciça de terras não era a intenção original dos líderes políticos de Israel. Pelo menos no caso de David Ben-Gurion, o fundador de Israel, quando ele aceitou a divisão do território num EStado judaico e árabe, em 1947. Na opinião dos revisionistas, o Estado judaico que estava sendo estabelecido deveria ter começado na Península do Sinai, incluído grandes partes do Líbano e acabar na extremidade ao leste do Rio Jordão.

Assentamentos

Os assentamentos foram criados praticamente à revelia das autoridades. O primeiro deles surgiu em 1970, em Hebron. Quando o Likud, partido de direita, chegou ao poder, em 1977, construir assentamentos tornou-se uma diretriz oficial. Em 1967, cerca de 2,4 milhões de judeus e 1,2 milhão de árabes viviam na região entre o Mediterrâneo e a Jordânia, que os colonos chamam de Eretz Israel (“Grande Israel”). Como têm uma taxa de natalidade mais alta, hoje os palestinos quase compensaram a diferença. Hoje, existem 5 milhões de árabes e 5,3 milhões de judeus vivendo no território sob controle israelense.

Em Israel – excluídos os territórios ocupados – há cinco judeus para cada árabe. Para manter essa proporção levando-se em conta as regiões ocupadas em 1967, 16 milhões de judeus teriam de emigrar para Israel. “Isso é mais do que a população de judeus no mundo inteiro”, diz Shaul Arieli, de 48 anos, coronel da reserva do Exército.

Arieli se transformou num especialista no muro de separação, ou cerca de segurança, que Israel constrói na Cisjordânia. Com moradores de vilarejos palestinos que, de repente, se viram do lado israelense do muro, ele já protocolou várias ações na Suprema Corte de Israel – e tem tido sucesso.

O traçado do muro planejado originalmente incluiria 20% da Cisjordânia, mas graças à Suprema Corte, essa porcentagem caiu para 8%. Arieli prevê que, no final, apenas uma pequena porcentagem permanecerá. Então os palestinos finalmente poderão estabelecer seu próprio Estado. “Somente quando isso acontecer teremos verdadeiramente vencido a guerra de 1967”, diz.

Fonte: Cox Newspapers e Estadão