A situação dos cristãos iraquianos “é inquietante”, disse ontem, em Portugal, Antoine Audo, bispo dos católicos caldeus em Alepo (Síria). A guerra, afirmou, pode ter mesmo significado “o fim da Igreja do Iraque”.

Mas o bispo deposita esperança na mudança de Presidente nos Estados Unidos, enquanto teme o crescimento do fundamentalismo muçulmano, que tem levado muitos cristãos do Oriente Médio a fugir.

O bispo Audo presidiu ontem e anteontem à noite à celebração nacional dos 2000 anos do nascimento de São Paulo. A iniciativa foi convocada pelos bispos católicos portugueses, para o dia em que a liturgia assinala a festa da conversão do “apóstolo dos gentios”.

Em conferência de imprensa antes da missa da manhã, o bispo sírio afirmou: “A guerra no Iraque preocupa-nos muito. Será o fim da Igreja no Iraque, com esta instabilidade e violência?” Antoine Audo explicou que “há uma imigração interna” no Iraque, com muita gente que saiu de cidades como Bagdad e Mossul e foi para o Curdistão, no Norte, bem como para países vizinhos. “Na Síria, houve quase 50 mil caldeus” que fugiram da guerra, recordou.

A sua diocese recebeu cerca de 50 mil refugiados e a Cáritas foi o primeiro socorro. Hoje, sobram cerca de 30 mil refugiados e a Cáritas apoia diretamente um milhar de famílias (das quais 250 são muçulmanas) nos alimentos, medicamentos, rendas, escolas e combustível.

“Esperamos que, com a mudança de Presidente nos EUA, possamos ter um tempo de segurança e de paz. Desde que há guerra e insegurança, a Igreja tem sido posta à prova e os cristãos, minoritários, não podem vencer a violências”, afirmou o bispo.

Pessimismo

Antoine Audo diz que no Oriente Médio, onde nos últimos anos se registra um verdadeiro êxodo de cristãos, “há muita gente pessimista”. O temor maior são as “tendências fundamentalistas que fazem tudo para levar os cristãos a partir”. Só no Iraque, metade dos cristãos (três por cento de 25 milhões de habitantes) deixou o país nos últimos anos. Em todo o Oriente Médio, os atuais 12 milhões de cristãos podem ser apenas metade daqui a uma década, ao ritmo atual de debandada.

Há um discurso nos media muçulmanos, nas mesquitas, nas escolas, exemplifica Audo, segundo o qual o islã está a começar “a conquista da Europa, porque os muçulmanos são cada vez mais numerosos”.

“O secularismo e a exclusão dos cristãos na Europa inquieta-nos e reforça os muçulmanos. Eles dizem que já não há fé, nem família, nem moralidade na Europa.” E que, “pacificamente, vão pregar o Alcorão e converter toda a gente ao islã”.

Muito crítico das pressões sobre os cristãos, o bispo sírio está comprometido com iniciativas de aproximação ao islã: nas festas cristãs, os xeques muçulmanos visitam igrejas e nas mais importantes datas do calendário islâmico os bispos cristãos vão às mesquitas. “É uma oportunidade de exprimir respeito e reconhecimento mútuo”, diz.

E exemplifica que, em 2008, foi convidado por três vezes para acompanhar o grande mufti da Síria em visitas ao Parlamento Europeu, Alemanha e Áustria. Neste caso, para um encontro entre a Liga Árabe e os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus, “para encontrar uma parceria entre a Europa e o mundo árabe para conter a violência e construir um futuro próspero no Mediterrâneo”.

O problema maior é o diálogo teológico. “Não conseguimos ainda ter um diálogo oficial”, disse. Funciona bem o diálogo de vizinhança ou no âmbito de algum projeto social. Mas não no nível teológico, difícil quando o muçulmano “afirma de forma absoluta a fé corânica como integrando o cristianismo e não reconhecendo a alteridade de quem está diante dele, diluindo a fé cristã”. Ou quando “um cristão faz observações críticas ou teológicas sobre o modo como é concebida a revelação corânica”.

O bispo falou do diálogo no âmbito “espiritual” como mais fácil que o dogmático. “A partir de uma experiência de Deus, de uma experiência de oração, de refletir em conjunto, da mística”, pode ser mais simples a aproximação.

A estratégia dos cristãos do Oriente Médio é “viver a solidariedade, criar pontes de diálogo, não ceder ao medo, não encorajar a emigração”, afirma Antoine Audo, que é jesuíta e integra a Congregação para as Igrejas Orientais e o Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, do Vaticano, além de ter integrado a equipa que traduziu a Bíblia para árabe. “Estamos ali antes do islã, aquele é o nosso país, não somos estrangeiros, não chegamos com o mandato francês nem com as cruzadas, nem dependemos dos americanos.” Além dos católicos caldeus, que Audo lidera, há cinco grupos católicos em Alepo: greco-católicos, armênios, siríacos, maronitas e latinos. Todos estão unidos à Santa Sé, mas têm ritos diferentes.

Fonte: Publico – Portugal