Desde que o Hamas assumiu a Autoridade Nacional Palestina, em março, a tensão entre muçulmanos e cristãos vem crescendo, e o desconforto entre a minoria cristã da Cisjordânia -especialmente em Belém, local tradicional do nascimento de Jesus- aumentou.

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Somado aos problemas de segurança e econômicos da cidade, agora cercada pelo muro construído por Israel, um governo radical islâmico causa desconfiança entre os cerca de 25 mil cristãos que vivem ao lado de 150 mil muçulmanos.

Em público, os cristãos de Belém -católicos, ortodoxos e protestantes – dizem que não há problemas. O tema das disputas é tabu na cidade. E as duas comunidades vivem lado a lado e são unidas em torno da identidade nacional palestina e na política da luta contra a ocupação. Mas problemas religiosos e rixas pessoais vêm desgastando a convivência.

A tensão chegou ao pico depois do discurso do papa em setembro, quando Bento 16 usou uma citação que aludia ao islã como uma religião violenta. Muçulmanos revoltados atacaram igrejas e instituições cristãs na Cisjordânia. Em Belém, casas de cristãos foram apedrejas, inclusive a sede da Renovação Carismática brasileira.

A minoria cristã é a elite econômica, social e cultural em Belém. As escolas ligadas à igreja são consideradas as de nível mais alto na cidade e não pararam de funcionar nas greves dos funcionários da ANP.

As instituições não são exclusivas para cristãos, e muitos muçulmanos preferem colocar os filhos nas escolas ligadas às igrejas. As maiores lojas para turistas são de famílias cristãs.

Amizades e negócios entre cristãos e muçulmanos são comuns. Mas namoros e casamentos são raros. Há uma espécie de acordo de silêncio. “Não se conversa sobre religião”, diz o vendedor Sami Quesh. “Ninguém vai conseguir converter ninguém.”

No início deste ano, um grupo de cristãos escreveu uma carta a líderes de igrejas listando problemas com muçulmanos. Reclamavam da inação da ANP para resolver disputas por terrenos e desrespeito a propriedades da igreja. Mas um dos formuladores da carta disse à Folha que a igreja tem receio de ir à ANP. “Os líderes não querem demonstrar que estão contra um governo que defende os interesses nacionais palestinos. A igreja também têm muitas propriedades e instituições, que podem ser afetadas se houver uma briga oficial”, disse um cristão de Belém, que pediu para não ser identificado. “O movimento islâmico domina a luta nacional palestina. Para eles, a religião cristã identifica-se com o Ocidente.”

Êxodo

A fricção com muçulmanos, a crise econômica e a insegurança podem aprofundar o êxodo cristão na cidade, onde o índice de desemprego passa de 60%.

Os problemas econômicos pioraram desde 2000, com o início da Intifada palestina. As incursões israelenses em busca de terroristas e a construção da barreira ao redor da Cisjordânia -que em Belém é um muro de oito metros de altura- isolaram a cidade, cortaram o fluxo de turistas e agravaram problemas econômicos.

A saída de cristãos de Belém preocupa as lideranças religiosas e políticas. De acordo com o Grupo Palestino de Monitoração dos Direitos Humanos, há uma perda qualitativa, pois os emigrantes são em geral pessoas com educação superior, em busca de oportunidades econômicas e intelectuais.

Todas as famílias cristãs têm -ou conhecem- alguém que emigrou ou tenta obter cidadania em outro país. Pesquisa da organização não-governamental Open Bethlechem mostra que 63,2% dos cristãos de Belém têm ao menos um parente no exterior. Chile e Argentina são os principais destinos.

Não há números exatos do êxodo. As lideranças cristãs não divulgam dados sobre a saída, mas a ONU estima que 10% dos cristãos deixaram a cidade. A cada ano, segundo líderes locais que pedem anonimato, mil cristãos deixam os territórios palestinos. De Belém saíram 450 famílias católicas nos últimos anos, estima a Custódia da Terra Santa, ordem franciscana responsável por preservar centro religiosos na região e segundo a qual os cristãos já foram 65% da população da cidade.

“Somos uma minoria presa na briga religiosa entre judeus e muçulmanos”, disse Edward, dono de uma pequena loja de artigos domésticos em Belém.

Fonte: Folha de São Paulo

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