O teólogo católico suíço Hans Küng, 79 anos, foi agraciado, na sexta-feira, 26, com o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, da cidade do mesmo nome, a 260 Km de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Küng expressou a alegria de receber a honraria e do significado de uma universidade pública reconhecer a importância e o lugar da religião na construção de um projeto de paz.

Em sua visita de pouco mais de uma semana ao Brasil, Küng proferiu seis conferências, enfocando as religiões e a ética mundial, as religiões e a ciência, e um novo paradigma para as relações internacionais.

“A globalização da economia e dos meios de comunicação, sem uma globalização da ética, é um desastre. O resultado disso é desumano para grande parte da população. Há necessidade de critérios ético para a economia”, defendeu o teólogo em entrevista ao Instituto Humanitas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Ao abrir a conferência proferida na Universidade Federal do Paraná, na noite de terça-feira, 23, Küng criticou a política internacional norte-americana implementada após o ataque terrorista às torres gêmeas de Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001. O governo do presidente George Walker Bush introduziu a concepção do “ataque preventivo” como estratégia para combater o terror.

Essa prática política é imperialista, agressiva e um retrocesso para a construção da paz, afirmou. O projeto de uma ética mundial pressupõe, disse Küng, uma mudança de mentalidade e compreende as diferenças nacionais, étnicas, religiosas e culturais como um enriquecimento. Se antes se buscavam inimigos, agora se buscam parceiros para a construção de um projeto de paz mundial, definiu.

A ética mundial que Küng defende não tem em mente uma nova ideologia mundial, “tampouco uma religião mundial unitária, para além das religiões mundiais que já existem, e menos ainda uma mistura de todas as religiões. Uma ética mundial também não quer substituir a ética de cada religião por um minimalismo ético”, apontou.

Ele explicou que uma ética mundial quer evidenciar o que há de comum às grandes religiões da humanidade – budismo, confucionismo, hinduísmo, judaísmo, cristianismo e islamismo – apesar de todas as diferenças existentes entre elas em relação ao comportamento humano, aos valores éticos e convicções morais básicas.

Mas todas essas religiões também têm elementos comuns. “Todas as religiões – por mais confusas que elas sejam – são mensagens salvíficas que respondem todas de maneira semelhante a questões básicas do ser humano, às eternas questões sobre amor e sofrimento, culpa e redenção, vida e morte: de onde vem o mundo e seu ordenamento? Por que nascemos e por que devemos morrer? O que determina o destino de cada um e da humanidade?”

Segundo Küng, a religião pode instigar, mas ela também pode ser tranqüilizadora. “A religião pode motivar, incentivar e prolongar guerras, mas ela também pode impedir e encurtar guerras”, enfatizou. A exigência de uma paz mundial através das religiões mundiais provém de amargas experiências do passado e do presente, nas quais as religiões, com freqüência, desempenharam e desempenham um papel fundamental, assinalou o teólogo suíço.

O Projeto de Ética Mundial, que Küng propõe, entende que todas as religiões podem empenhar-se em torno de quatro eixos comuns: a obrigação de uma cultura de não-violência e do respeito à vida, segundo de “não matar”; a obrigação de uma cultura da solidariedade e da justa ordem econômica, de acordo com o princípio de “não furtar”; a obrigação de uma cultura da tolerância e uma vida autêntica, seguindo o princípio de “não mentir”; e a obrigação de uma cultura de direitos iguais entre homens e mulheres, atendendo o princípio de “não fazer mau uso da sexualidade”.

Ao apresentar conferência na Unisinos, na segunda-feira, 22, Küng resumiu o que defende em quatro sentenças: não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre elas; não haverá diálogo entre as religiões sem padrões éticos globais; não haverá sobrevida do globo na paz e na justiça sem um novo paradigma de relações internacionais na base de padrões éticos globais.

Küng admitiu, contudo, que também existem discordâncias fortes entre as religiões no que diz respeito, por exemplo, ao aborto, ao homossexualismo e à eutanásia. Mas sobre esses pontos o Projeto de Ética Mundial, que o teólogo preconiza, não assume um posicionamento, “porque, do contrário, se desperdiçaria todo o consenso já obtido”.

O primeiro pressuposto para o entendimento entre as religiões é que elas se conheçam entre si e a si próprias, e que não se baseiem em preconceitos. Em entrevista ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, Küng disse que as igrejas, no intuito de aperfeiçoar e promover o entendimento dos povos, precisam arrumar a própria casa. “Não há credibilidade se a Igreja prega paz no mundo, quando ainda não é possível que católicos e protestantes tenham uma ceia comum à mesma mesa”, comparou.

Para os cristãos, apontou Küng no diálogo que manteve com teólogos, na segunda-feira, 22, em São Leopoldo, a pergunta decisiva é: “O que o próprio Jesus exigiria, se ele voltasse? Eu creio que ele exigira de nós uma convivência solidária com as outras religiões, a renúncia às guerras religiosas, à perseguição e à inquisição, a substituição do egoísmo coletivo pela solidariedade do amor, praticando tolerância religiosa, o perdão e ousar um recomeço”.

Fonte: ALC