Nomeado rabino emérito da Congregação Israelita Paulista (CIP), Henry Sobel deixará as funções administrativas da presidência do rabinato, cargo que ocupou nos últimos 37 anos, mas continuará a exercer atividades políticas e religiosas, como a celebração de casamentos e de bar mitsvahs em São Paulo.

“Estou saindo da CIP por iniciativa própria”, declarou Sobel ao Estado, ao anunciar os planos para o futuro, incluindo a criação do Instituto Henry Sobel e a publicação de uma autobiografia. O objetivo do instituto, adiantou o rabino, será promover palestras e lançar livros, “no estilo do Instituto Fernando Henrique Cardoso, embora em proporções bem mais modestas”.

Sobel promete falar de tudo em sua autobiografia – de sua participação na resistência à ditadura militar aos “tristes acontecimentos de março nos Estados Unidos” (quando foi detido sob acusação de ter furtado gravatas em lojas de Miami).

“Vou relatar o que aconteceu, embora eu não estivesse consciente, pois depois daquele episódio estive em tratamento de desintoxicação”, disse Sobel, com a segurança de ter superado o problema. “Aqueles que apoiavam o rabino antes continuam a apoiar e aqueles que me faziam oposição utilizam o ocorrido para justificar a oposição”, acrescentou.

A autobiografia terá um capítulo sobre contatos pessoais que Sobel teve com João Paulo II, o papa que reconheceu o Estado de Israel e visitou Jerusalém. Ao falar de suas relações com a Igreja Católica, o rabino lembrará sua participação no ato ecumênico contra a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, ao lado do cardeal d. Paulo Evaristo Arns, um de seus grandes amigos. Recordará ainda as relações com os sucessores do arcebispo, d. Cláudio Hummes e d. Odilo Scherer.

“Estou começando uma nova fase em minha vida, na qual pretendo abrir caminho para uma nova geração de rabinos na CIP, à qual devo a projeção religiosa, social e política que tive em todos esses anos”, afirmou Sobel. “A CIP não está parando, está continuando o trabalho que sempre fez”, acrescentou, insistindo que deve à congregação todo o prestígio que alcançou.

O novo presidente do rabinato da CIP, que ainda não foi escolhido, deverá vir de Israel ou dos Estados Unidos, “simples mente porque não existe um seminário para a formação de rabinos no Brasil”. O sucessor de Sobel, atualmente com 63 anos, deverá ter, segundo ele, entre 25 e 40 anos de idade, para que possa ocupar o cargo por um longo período.

“A CIP, um palco religioso para manifestações que afetam não só a comunidade judaica mas toda a sociedade brasileira, continuará a ser a maior congregação israelita da América Latina, embora a Argentina tenha duas vezes mais judeus (cerca de 300 mil) que o Brasil”, prevê o rabino.

Sobel ressalta que, como presidente do rabinato da CIP, enfrentou muitas crises internas e externas. “O caso Herzog não foi o primeiro nem o último”, observa o rabino, referindo-se à dificuldade que enfrentou na época para sepultar, de acordo com o ritual judaico, o jornalista assassinado no DOI-Codi. Na versão de seus torturadores, ele teria se suicidado.

Fonte: Estadão