Apesar de sua população não chegar a 18 mil, a cidade holandesa de Urk já conta com mais igrejas protestantes do que muitas cidades pequenas. Mas os 19 templos existentes não são suficientes, de forma que planos estão em andamento para construção de mais dois.

A uma hora de carro de Amsterdã, onde maconha é vendida abertamente em cafés e a prostituição é legal, Urk, uma comunidade pesqueira remota e tradicional, é um dos locais mais tementes a Deus na Europa.

Milhares aqui desprezam a televisão, teatro, cinema e dança. Muitos se vestem de preto e assistem três horas de culto aos domingos. E alguns se recusam a imunizar seus filhos ou a comprar seguro, pois acreditam que isto interfere com a vontade de Deus.

O assassinato de dois críticos do Islã, Pim Fortuyn, um político gay e oponente da imigração, e Theo Van Gogh, um cineasta, causou convulsões na Holanda, provocando um forte debate sobre a identidade nacional e a assimilação das minorias nas cidades holandesas.

Mas Urk faz parte de uma Holanda diferente, o coração da direita cristã do país que conta com dois partidos políticos -um deles ocupa o posto de vice-primeiro-ministro na coalizão de governo.

Se esta cidade ilustra algo da famosa tolerância dos holandeses -uma nação multicultural de 16 milhões de habitantes, mais de 3 milhões de origem estrangeira- é o fato dela se basear mais na coexistência do que em um desejo de integração social.

Enquanto a freqüência à igreja está em declínio por toda a Europa, em Urk a religião permanece um pilar da sociedade e os pastores estimam que 97% da cidade freqüente o culto dominical. Por haver tantos fiéis, as diferenças teológicas importam o suficiente para provocar divisões notáveis da fé protestante.

Na Holanda em geral, sete entre dez pessoas raramente assistem a um serviço religioso, segundo estatísticas de 2003. Um motivo para Urk desafiar as tendências modernas, seculares, está no fato de ter sido uma ilha além da costa até 1939, quando a terra foi resgatada do mar.

A cidade conta com um dialeto distinto e expressões únicas freqüentemente derivadas da marinhagem. Um antigo ditado de Urk diz: “Não se pode confiar em vento contrário e em mulheres que procuram prazeres”. De um lado os cidadãos de Urk estão ligados ao continente por terra recuperada, enquanto o porto da cidade, antes marítimo, margeia um grande lago de água doce chamado IJsselmeer. Os pescadores de Urk agora viajar por terra para chegar aos barcos ancorados em outros portos.

Socialmente conservadora, Urk é predominantemente branca (as estimativas do número de imigrantes varia de 20 a 60, incluindo um punhado de muçulmanos). Coabitação antes do casamento é quase desconhecida, as mulheres se casam jovens e as famílias freqüentemente são grandes. Um casal em Urk tem 18 filhos.

A cidade não têm igreja católica romana, sinagoga ou mesquita. Mas seguindo pela rua De Noord é possível contar sete igrejas protestantes em três quadras.

Na sala de estar de sua casa, William Middelkoop desenhou um diagrama com 12 linhas entrelaçadas para descrever a evolução das igrejas de Urk, que se dividiram desde os anos 60 devido a uma série de disputas teológicas.

No momento as 19 igrejas possuem prédios e, das três sem endereço permanente, duas estão planejando construir -incluindo a igreja Ichtus da qual Middelkoop é pastor.

Sua congregação de 800 se reúne em um ginásio esportivo, mas acabou de receber a permissão para reformar um prédio em igreja. O projeto custará 4 milhões de euros e deverá ser concluída em meados de 2009.

Middelkoop, 42 anos e nascido em Roterdã, lamenta a divisão das igrejas devido a disputas em torno da interpretação das escrituras.

“Satã ri quando vê isto”, disse Middelkoop. A questão, ele acrescentou, é: “É possível fazer parte de uma igreja que dá espaço para pastores não bíblicos?”

Uma das rixas teológicas mais significativas de meados do século 20 na Holanda foi sobre se a história de Adão e Eva devia ser aceita literalmente -em particular sobre se a serpente de fato falou.

Mas apesar das Igrejas Reformada e Cristã Reformada de Urk terem sobrevivido a este debate relativamente unidas, elas se dividiram desde os anos 60 em torno de quanto pensamento livre e teologia liberal é possível tolerar.

A Ichtus surgiu de uma aliança de igrejas que permitem que os fiéis duvidem das palavras literais das escrituras. Uma igreja não rígida segundo os padrões de Urk, sua congregação pode assistir televisão e dirigir no domingo.

Mas Middelkoop alerta seus fiéis a resistirem à tentação. “Você tem a lei do Senhor”, ele argumenta. “É preciso assistir a TV com os 10 Mandamentos do Senhor em sua mente, olhos e ouvidos. Quando você está com o controle remoto em sua mão, você não deve pensar ‘uau’, mas que tipo de decisão Jesus Cristo tomaria?”

O pastor da igreja mais rígida de Urk, a Jachin Boaz, se recusou a comentar, mas um ex-membro da congregação, falando sob a condição de anonimato por temer ofender a hierarquia da igreja, lembrou que “na infância não tínhamos TV, nem música popular e nem filmes. Nós vestíamos roupas pretas no domingo”.

Mas esta é uma comunidade unida e na qual as pessoas apóiam umas às outras, onde as pessoas conhecem seus vizinhos. “Eu tive uma boa infância”, ele disse. “Se você não tem TV, você lê um livro ou conversa com seu irmão ou irmã, seu marido ou sua esposa. Se você tem TV, você apenas olha para a TV.”

Como Urk conseguiu permanecer em outra era estando tão próxima das grandes cidades e centros de tentação da Holanda?

A resposta é que não conseguiu. Mesmo nos anos 60 a igreja mais rígida, a Jachin Boaz, foi sacudida por um escândalo quando foi descoberto que seu pastor tinha um filho fora do casamento, segundo um ex-morador que pediu que seu nome não fosse mencionado.

Ao receber um Mercedes de sua congregação, o mesmo pastor bateu seu carro, mas seus fiéis o substituíram após arrecadarem mais dinheiro. Posteriormente foi descoberto que o pastor tinha segurado o carro -contra o código da igreja- e resgatado o prêmio.

Com uma alta taxa de natalidade e uma grande população jovem, Urk tem um problema documentado com álcool e drogas, um que se torna mais evidente nas sextas e sábados, quando os pescadores voltam para casa.

Jaap Bakker, um ex-ancião da igreja Bethelkerk e um assistente social aposentado, aponta para o senso de comunidade, para a boa qualidade de vida familiar e para o retrospecto de filantropia da cidade.

Mas ele reconhece que, sob o exterior temente a Deus de Urk, se encontra uma realidade perturbadora. “Muitos jovens estão bebendo demais, as pessoas estão usando drogas. O que acontece em Amsterdã também acontece em Urk”, ele disse sentado no terraço da casa de seu filho.

No museu da cidade, o curador Hans Besselink disse que uma das coisas que torna Urk diferente é que aqueles que se comportam mal em uma noite de sábado invariavelmente estarão na igreja na manhã seguinte. Fortemente independentes, os fiéis de Urk não querem que lhes digam como orar, mas “se você estiver descontente com uma disputa teológica, ninguém se importa se iniciar uma nova denominação”.

Os fiéis de Urk, disse Besselink, não tentam converter pessoas e “são muito tolerantes em relação a culturas de fora” desde que possam proteger seu próprio modo de vida. A tolerância é uma virtude, ele acrescentou, mas “também pode significar falta de interesse”.

Fonte: International Herald Tribune