Enquanto segmentos bancários como securitização de recebíveis imobiliários de alto risco e financiamentos por meio de alavancagens financeiras sofrem com a atual crise, as finanças islâmicas, baseadas na lei islâmica, sharia, estão tendo um crescimento espetacular.

A lei islâmica, sharia, proíbe o pagamento e o recebimento de juros. Em vez disso, enfatiza o compartilhamento dos lucros. Também proíbe o investimento em ramos como tabaco, álcool e jogos.

No último ano, os ativos que cumprem a sharia cresceram quase 30%, para mais de US$ 500,5 bilhões (em torno de R$ 1 trilhão), de acordo com a análise da indústria em escala global, publicada neste mês pelo The Banker, com informações da consultoria Maris Strategies.

Esse crescimento supera a maior parte de segmentos de serviços financeiros e parece que vai continuar assim, enquanto os bancos -inclusive bancos ocidentais como Standard Charters de Goldman Sachs- alimentam a demanda crescente dos 1,6 bilhão de muçulmanos.

Um importante fator de crescimento tem sido o alto preço do petróleo que deixou mais ricas as nações que compõe o Conselho de Cooperação do Golfo e o Irã, entre outros. Além disso, países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Malásia querem ampliar sua receita e criar empregos tornando suas capitais em centros de finanças islâmicas.

A indústria está em sua adolescência em questões como transparência, contabilidade e classificações, com a utilização de padrões muito díspares. Isso também significa que a tabela do The Banker provavelmente subestima os ativos cumpridores da sharia.

“Os bancos islâmicos no Reino Unido diferem em suas operações de contabilidade de bancos em Bahrein que, por sua vez, são diferentes de bancos na Malásia e Indonésia”, disse Nabeel Shoaib, diretor global do HSBC Amanah, unidade islâmica do banco global HSBC. “A padronização das finanças islâmicas é necessária para evitar a fragmentação e por fim criar uma nova classe de títulos que pode competir plenamente com as finanças convencionais.”

A discordância entre acadêmicos sobre o que é ou não cumpridor da sharia não impede o progresso. A sharia não é um conjunto de leis codificadas, mas de interpretações baseadas no Alcorão e, portanto, afetadas por crenças pessoais e influências culturais, observa Joe DiVanna, diretor da Maris Strategies.

Há também uma falta de acadêmicos com experiência na sharia devido ao enorme crescimento da indústria financeira islâmica nos últimos anos. E esses acadêmicos precisam estudar produtos cada vez mais sofisticados que começam a surgir -fundos hedge cumpridores da sharia e fundos nos quais as ações selecionadas cumprem a sharia.

O estudo do The Banker sublinha que a ampla maioria dos investimentos vem de clientes com menos de 30 anos interessados em sua identidade cultural e religiosa. No entanto, há uma compensação, já que em muitos mercados, produtos de poupança convencionais podem ser mais lucrativos. Isso deve ser cada vez menos o caso, enquanto mais produtos islâmicos são desenvolvidos, em uma das principais áreas de crescimento da indústria.

Além disso, o crescimento virá do fornecimento de serviços aos muçulmanos do outro lado da escala de riqueza, aqueles que não têm acesso à conta bancária. Uma forma de microcrédito que evite o pagamento de juros é uma área evidente.

Em termos de países, o Irã tem a maior quantia de ativos islâmicos, com US$ 155 bilhões (cerca de R$ 300 bilhões), pois todas as suas instituições devem ser seguidoras da sharia e o país conta com uma grande população de 71 milhões de habitantes. Na Arábia Saudita e na Malásia, os bancos e seguradoras podem oferecer também produtos convencionais.

O que é mais surpreendente em termos de classificação de países é que o Reino Unido, país não muçulmano apesar de ter 2 milhões de residentes muçulmanos, é o 10º maior em ativos que cumprem a sharia, com US$ 10,4 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões).

Isso em grande parte é resultado do HSBC Amanah, que tem US$ 9,7 bilhões (em torno de R$ 19 bilhões) desses ativos e tem sede em Londres. Mas também reflete o papel da cidade como centro global de serviços financeiros, e o apoio do governo britânico no desenvolvimento da indústria.

É intenção do Reino Unido se tornar o primeiro governo Ocidental a emitir bônus islâmicos e tem explorado as opções disponíveis. Entretanto, os planos de emiti-los na primeira metade de 2008 aparentemente não se realizarão, devido à necessidade de novos regulamentos complexos que cumpram a leis islâmicas.

No mês passado, o Citigroup anunciou uma profunda queda de 57% de lucros no terceiro trimestre, para US$ 2,38 bilhões (aproximadamente R$ 4,5 bilhões), por problemas em áreas como hipotecas de risco e empréstimos alavancados e negociação com títulos de renda fixa.

O banco não entrou em detalhes sobre a unidade de finanças islâmicas, que é pequena se comparada com outras, mas cuja escala de crescimento e de ambição não: no ano passado, o banco americano ficou em nono lugar na subscrição de bônus e empréstimos islâmicos; neste ano, ficou em primeiro, com 12,5% do mercado e US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 9 bilhões) em negócios, de acordo com a Bloomberg.

Fonte: International Herald Tribune