O personagem é um clássico: o forasteiro misterioso, calado e sombrio, que chega para libertar a cidade do domínio dos poderosos e corruptos do lugar. “The Manga Bible: from Genesis to Revelations” (a Bíblia Mangá: do Gênesis ao Apocalipse)conta histórias da Bíblia com reverência, mas com humor e muita ação.

Tal qual o pistoleiro de um faroeste de Sergio Leone ou um samurai de Akira Kurosawa, este é Jesus Cristo em versão ninja, como retratado numa adaptação da Bíblia em quadrinhos, no popular formato de mangá.

“The Manga Bible: from Genesis to Revelations” (a Bíblia Mangá: do Gênesis ao Apocalipse), criada pelo inglês Ajinbayo Akinsiku, 42, foi lançada no Reino Unido e nos EUA e captura as histórias do livro com reverência, mas com humor e muita ação.

“Você pode usar o gênero para contar a história como quiser”, diz Siku, como o artista é conhecido, em entrevista à Folha, por telefone, de Londres.

“Decidimos fazer algo nunca feito antes, apresentar Jesus como um estranho sombrio, que entra em uma cidade que tem sido molestada e corrompida por gângsters e a liberta, algo como “Três Homens em Conflito” [de Leone], “Os Sete Samurais” [de Kurosawa], a figura do solitário que ninguém compreende.”

Para cobrir tanto o Novo quanto o Velho Testamento, Siku precisou editar e condensar os livros (fez versões de vários tamanhos) e, bem de acordo com o gênero mangá, deixou de fora as partes com menos ação, como o Sermão da Montanha.

“Houve uma dificuldade conceitual, discutimos se nos preocuparíamos mais com o cristianismo, com a teologia ou com a narrativa de quadrinhos. Fui muito cuidadoso para manter a intenção do texto original, mas o deixei mais moderno, ágil.”

Assim, sua Bíblia mangá tem heróis que parecem (e soam como) skatistas em versão beduína, Abraão fugindo de uma explosão a cavalo para salvar Lot, e Og, rei de Basã (do Velho Testamento), parecendo um Darth Vader histórico.

Teólogo e ministro

Novato no gênero mangá, Siku é veterano em quadrinhos e em religião: ele freqüenta uma igreja anglicana, é formado em teologia e pretende se tornar ministro de sua religião.

O projeto de transformar os textos bíblicos em quadrinhos é antigo -ele queria fazer uma versão do Apocalipse, em estilo ocidental-, mas o impulso veio com a explosão dos quadrinhos japoneses na Europa e nos EUA, o que levou o projeto ao seu formato atual e ao sucesso de vendas: 50 mil cópias só no Reino Unido, liderando as listas do gênero mangá (No Brasil, ainda não há previsão de lançamento, mas o livro pode ser adquirido por lojas virtuais como a www.amazon.com por US$ 10,36, ou cerca de R$ 17, mais a taxa de frete).

Tendo como público-alvo jovens consumidores de HQ e religiosos, Siku maneirou na hora de retratar algumas passagens mais polêmicas.

“Trabalhei na “2000 AD” [HQ britânica de ficção científica], então lidar com sexo e violência não é problema para mim. Mas, como boa parte do nosso público é mais sensível a isso, contive um pouco esse lado. Só não dá para retirar tudo; o Velho Testamento, por exemplo, é um livro muito violento.”

“Transformers”

Se a “Manga Bible” de Siku foi, como informa sua editora, a primeira do gênero em inglês, ela parece ter despertado uma tendência: pouco depois de seu lançamento, foi anunciado um projeto semelhante (este, norte-americano) chamado “Mecha Manga Bible Heroes”.

A intenção da obra (que será lançada em junho no exterior) é levar as histórias bíblicas para um inusual cenário futurista, transformando personagens em super-heróis -o primeiro é o mítico Davi, que bateu Golias.

“A idéia surgiu com o filme “Transformers'”, disse à Folha Paul Castiglia, o editor da obra. “Pensei em algo com robôs, e Davi e Golias era uma escolha óbvia, por causa do gigante.”

Fonte: Folha Online