A Holanda temia as reações dos países muçulmanos nesta sexta-feira, no dia seguinte à difusão do filme contendo críticas ao Islã, realizado por um deputado de extrema-direita, mas que foi considerado mais inofensivo do que o esperado.

A imprensa considerava que “Fitna”, curta-metragem lançado na quinta-feira à noite na internet pelo deputado Geert Wilders (Partido da Liberdade, 9 deputados em 150), não fez o barulho anunciado há meses, o que explica a calma com o qual foi recebido na Holanda. Mas as autoridades levavam o caso a sério.

À noite, o primeiro-ministro Jan Peter Balkenende, cujo governo tentou em diversas ocasiões dissuadir Wilders a levar seu projeto adiante, fez uma declaração em holandês e em inglês em um tom solene.

“O filme mistura Islã e violência, rejeitamos esta interpretação”, disse. “Lamentamos que Wilders tenha difundido este filme”.

“Achamos que tem apenas o objetivo de ofender”, acrescentou Balkenende. “Mas se sentir ofendido não deve jamais ser um pretexto para agressões ou ameaças”.

A Presidência eslovena da União Européia lamentou nesta sexta-feira a divulgação do filme, considerando não fazia mais que “incitar ao ódio”.

A Haia teme manifestações violentas e ataques contra representações holandesas nos países muçulmanos, como foi o caso da publicação das caricaturas dinamarquesas de Maomé.

Wilders assegurou na quinta-feira à agência ANP que seu filme não era “destinado a provocar a desordem”, mas negou qualquer responsabilidade em caso de violência ou de boicote à Holanda.

O filme mistura imagens violentas de terrorismo ou de execuções nos países muçulmanos com as suras (capítulos) do Corão, justificando principalmente os castigos exemplares para os não-muçulmanos.

O Irã viu no filme um “ato repugnante”, que “mostra a busca por uma vingança por parte dos cidadãos ocidentais contra o Islã e os muçulmanos”.

Em Amã, meios de comunicação anunciaram que processarão Wilders na justiça jordaniana e iniciarão uma campanha de boicote aos produtos holandeses.

Desde o anúncio do projeto, em novembro, países muçulmanos como Irã ou Egito manifestaram sua indignação, ameaçando a Holanda com um boicote econômico.

No final de fevereiro os talibãs ameaçaram atacar os cerca de 1.660 soldados holandeses mobilizados no Afeganistão que integram a Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf) se este “filme insultante” fosse divulgado.

A Coordenadoria Antiterrorista (NCTb) considerou inútil nesta sexta-feira elevar o nível de alerta terrorista, hoje no nível “substancial”.

O ministro das Relações Exteriores Maxime Verhagen afirmou à AFP na quinta-feira à noite que abordaria a questão nesta sexta-feira com seus colegas da União Européia durante uma reunião na Eslovênia.

Na manhã desta sexta-feira os ministros da Integração Ella Vogelaar e da Justiça Ernst Hirsch Ballin se reuniram com representantes de diferentes comunidades religiosas e associações de imigrantes da Holanda.

Todos os jornais manifestavam seu “alívio”, como intitulava o diário de esquerda De Volkskrant, considerando que “o filme de Wilders vai muito menos longe do que muitos temiam: não há páginas do Corão sendo rasgadas e o livro sagrado não é queimado”.

“As organizações muçulmanas e especialistas consideram o filme menos chocante do que esperavam”, ressaltava o Het Algemeen Dagblad (centro).

O NRC-Next, versão matinal do “jornal de referência” NRC Handelsblad, via no Fitna “uma compilação documental que poderia ter sido mais dura”.

“O Fitna ofende, mas não surpreende”, considerava o Trouw (cristão liberal): “o filme tão aguardado de Wilders não contém provocação alguma, não há insultos contra o Corão ou o Profeta, e nenhuma informação”.

“Fitna” (em árabe: divisão e discórdia no Islã) foi lançado no site de divulgação de vídeos liveleak.com, especializado em imagens da atualidade e de guerra, com sede na Grã-Bretanha. Trechos foram divulgados em vários sites similares.

Fonte: AFP