O aposentado Zelito Jesus de Araújo, de 41 anos, epiléptico, matou a mulher e os filhos a golpes de martelo na madrugada de ontem em sua casa na Favela Santa Terezinha, zona sul de São Paulo. “O pastor dizia que remédio era droga, e droga era coisa do demônio”, diz cunhada de Zelito.

Depois de assassinar Maria do Socorro Barboza, de 43, e os meninos Lucas, de 8, e Gênesis, de 9, ele saiu descontrolado pela rua, depredou 17 carros e foi morto a tiros por um policial militar. Segundo familiares, Araújo era agressivo e tinha problemas psiquiátricos.

De acordo com a polícia, por volta das 3h30, Araújo teria matado o filho menor, Lucas, que estava na cama de cima do beliche, no quarto em que Araújo dormia. Maria do Socorro correu para a laje da casa, onde foi assassinada. O filho mais velho, Gênesis, ainda fugiu para a garagem, mas lá também foi morto.

Depois de destruir todos os móveis da casa, o aposentado saiu quebrando, ainda com o martelo, os vidros dos carros que encontrou pela frente. Os vizinhos ouviram o barulho e chamaram a Polícia Militar (PM). “Ele estava fora de si. Ficava bufando”, contou o vizinho José dos Santos Costa. “A gente gritava para ele parar, mas ele nem ouvia.”

Araújo encontrou os policiais na rua e depredou a viatura com o martelo. Eles pediram reforço, e o aposentado correu. Deu de frente com outro carro da PM. Após dar uma martelada na porta do motorista, levou quatro tiros de José Marcos Ferreira de Faria, do 22º BPM.

O estudante Ronie Peterson Barboza Branco, filho de Maria do Socorro, foi o primeiro a entrar na casa após o crime. As portas estava fechadas, e ele teve de usar uma escada para entrar pela laje. De lá, desceu para o quarto, onde viu o corpo de Lucas sobre o beliche. “Só quando voltei é que vi minha mãe estirada num canto da laje.”

Branco afirma que recebeu uma ligação da mãe na manhã de anteontem. Ela estava preocupada porque Araújo não tomava havia duas semanas o remédio Gardenal para tratar epilepsia. “Sempre ficava agressivo quando parava de tomar o remédio.” Segundo ele, Araújo teve uma crise convulsiva, foi levado ao Hospital da Pedreira, medicado e liberado. Mas, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, Araújo não esteve nesse hospital anteontem.

O aposentado disse a parentes que não precisava mais tomar o remédio porque a igreja o tinha curado. Ele era evangélico e freqüentava a Igreja Universal do Reino de Deus. “Ele jogava os remédios fora quando voltava do culto”, disse o irmão José Jesus de Araújo, de 44 anos. “Não aceitava a doença.”

Segundo parentes e vizinhos, há quatro anos, ele também perdeu o controle e quebrou a casa. “Ele não parava e, quando o seguraram, ficou se mordendo”, contou a vizinha Maria Luci, de 30 anos. Segundo ela, Araújo ficou internado seis meses em uma clínica psiquiátrica.

Epilepsia não tratada teria levado homem a matar família

O ataque de fúria de Zelito de Jesus Araújo, 41 anos, que matou a família, destruiu 20 carros e foi morto pela polícia , pode ser explicado como um pico de estresse desenvolvido pela epilepsia, chamado “furor epiléptico”. Segundo a família, Araújo tinha uma epilepsia muito grave e se recusava a tomar os medicamentos.

“É extremamente complicado dominar uma pessoa nessa situação”, diz o psiquiatra forense Guido Palomba.

O psiquiatra explica que nem todos os portadores da doença são agressivos, mas ressalta que agressividade e epilepsia estão intimamente ligados. Segundo ele, dificilmente Araújo seria dominado por uma única pessoa, principalmente por estar armado com um martelo e por desenvolver um quadro de violência excessiva quando acometido pelo “furor epiléptico”.

“Se ele sobrevivesse, não iria se lembrar de nada e provavelmente entraria em depressão ao saber que matou a família”, explica.

Estudioso da doença, Palomba afirma que crimes cometidos por epilépticos são mais comuns do que se pensa. Segundo ele, há milhares de casos nos manicômios judiciários.

Na medicina, há nove características para crimes praticados por epilépticos. Araújo apresentou pelo menos três delas: multiplicidade de golpes, falta de premeditação e ausência de motivos.

O fato de não fazer um tratamento e não tomar medicação contínua pode ter agravado a situação. Mas acompanhamento médico nem sempre é sinônimo de cura.

“Esse é um crime típico de epiléptico, mesmo sendo tratado, pode ocorrer em alguns casos”, diz.

Parentes de Zelito e da mulher dele, Maria do Socorro Barbosa Branco, morta ao lado dos dois filhos do casal, de 8 e 9 anos, culpa o hospital de Santo Amaro por ter liberado ele na manhã antes do crime. Culpam também o pastor da igreja evangélica que ele freqüentava.

“Ele tinha uma epilepsia muito grave, e se recusava a tomar os medicamentos. Nisso, o pastor dava força para ele, dizia que remédio era droga, e droga era coisa do demônio. Dizia também que se ele acreditasse em Jesus, já estava curado”, diz Maria Barboza de Castro, de 39 anos, irmã de Maria do Socorro.

“Sempre que a doença atacava e piorava, ele ficava mais violento que o de costume”, conta.

Maria afirma que nas raras épocas em que aceitava tomar o remédio para epilepsia, Araújo ficava muito mais calmo e era quase uma pessoa normal. Ela diz que a irmã tinha medo de abandonar o marido, embora apanhasse dele.

Fonte: Estadão e Globo Online