“Yeshuah” é o resultado de quase dez anos de obsessão do quadrinista Laudo Ferreira Jr. em mostrar a sua visão pessoal da trajetória de Jesus e outras figuras bíblicas.

A HQ busca inspiração não em estética pasteurizada e “pura” dos eventos bíblicos, como encontrada nos grandes épicos hollywoodianos, mas nas imperfeições humanas de filmes como “O Evangelho Segundo São Matheus”, de Pasolini. “Yeshuah” também utiliza como fonte principal diversas fontes apócrifas, mostrando lados diferentes de personagens como Maria, José, Pedro, João Batista e Maria Madalena.

O quadrinista conversou com a Livraria da Folha sobre porque criou uma versão pessoal de uma figura tão forte e controversa, seu processo de pesquisa e as dificuldades de se fazer uma HQ autoral no Brasil.

Livraria da Folha – O que lhe atraiu para criar a sua versão autoral sobre Jesus?

Laudo – Estudando um pouco sobre a trajetória da história dele é curioso vermos o rumo que aquele pregador judeu morto pelo Império Romano tomou e tudo que aconteceu desde então até os dias de hoje. A forma que os católicos mais fervorosos o enxergam. Essa maneira absolutista de encará-lo impossibilitando até, de certa forma, de pensar que um dia ele foi alguém como nós. Isso claro, falando para os que acreditam em sua existência. Eu acredito. Mas por outro lado temos os que negam a sua existência e mesmo a de Deus, aquele da barba branca ou qualquer outra forma de interpretação. No entanto ainda estamos sob formas, sob aparências, para os que crêem ou não. Quando você começa a entrar em alguns estágios um pouco mais profundos e, digamos assim, mais simples de fé, de ideia do que é sagrado, essas coisas caem por terra. A fé não precisa disso. A fé não precisa orar e temer uma imagem de um homem sendo executado que é o que vemos nas igrejas. Ficou aquela coisa de pensarmos no Filho de Deus, aquele que deu sua vida por nós. Então ficamos todos num estado de “órfãos de Jesus” quando o certo seria andarmos pelas nossas próprias pernas e temos aí o sagrado, o nosso Deus interior. Essas questões sempre foram perenes para mim e com o passar dos anos, do amadurecimento, melhor eu as entendia. Durante todos esses anos que trabalho produzindo meus quadrinhos, sempre vez ou outra jogava questões assim mesmo que discretamente, até que chegou o momento em que me julguei suficientemente maduro, em meu trabalho pelo menos, para contar algo mais direto. E Jesus era o cara a se falar, sem dúvida.

Livraria da Folha – Jesus é um personagem complexo por sua importância religiosa para grande parte da humanidade e pelo excesso de versões sobre sua vida, muitas delas controversas; que vão de salvador da humanidade, a filósofo, a alienígena a até alguns que questionam a sua existência histórica. Como essa complexidade influenciou a sua versão pessoal?

Laudo – Digamos que tudo isso entrou no caldeirão na hora de conceber a minha versão. Na realidade um detalhe a mais que me peguei foi Jesus como uma ideia. Muito mais que o homem que fazia milagres, há uma ideia dentro desse homem e ele por si é uma. E essa ideia é importante que a queiramos, que a tenhamos como fonte e meta de vida. Ela é básica, o amor, o entendimento e é isso que está nas palavras de Jesus e aí não importa sentar numa mesa de bar e discutir se ele existiu ou não, se ele é filho de Deus, se trepou com Madalena, essas coisas lá no final, não importam, importa é a ideia de humanidade que ele e tantos outros avatares deixaram e que a gente a cada dia que passa percebe o quanto é mais difícil de exercer. Esse é o princípio da concepção do meu Jesus nessa hq. Ele plenamente humano. Essa aproximação sagrado-humano é a fonte central da trilogia “Yeshuah”, até mesmo para que possibilite a melhor aceitação do leitor.

Livraria da Folha – No posfácio você menciona influências do filme “O Evangelho Segundo São Matheus”, de Píer Paolo Pasolini, no que diz respeito a dar imperfeições humanas aos personagens como dentes quebrados, roupas encardidas e pele ruim. Qual você considera a importância de trazer essa humanização a uma figura muitas vezes retratada de forma impecavelmente pura como Jesus?

Laudo – Dentro dessa perspectiva, a influência de filmes do Pasolini é fundamental. Não há como pensar, conceber um visual hollywoodiano para essa hq, ou seja, roupas bonitas, alinhadas, cabelos bem feitos e penteados, como? Mesmo a pessoa que não se interessa pelo assunto não acredita que tenha sido desse jeito. A figura européia que acostumamos com o passar dos séculos a crer, ou seja, o loiro de olhos azuis, barba e cabelos penteados e finos e de roupas claras e limpas, é impossível se pensarmos em termos históricos. O próprio Jesus como o retrato na hq tem um rosto forte e duro, feições incisivas. Ele é um líder, ele é uma pessoa carismática e ao mesmo tempo com uma profunda noção do sagrado dentro de si. E é claro, não se pode esquecer que ali, ele é um judeu, andando, vivendo na Palestina de dois mil anos atrás. Não penso muito como ele supostamente deve ter sido, nunca passou isso pela minha cabeça, porém o meu Jesus, em minha hq, é assim.

Livraria da Folha – Maria é retratada, não como um símbolo perfeito de maternidade, mas como uma adolescente assustada com acontecimentos além de seu poder e compreensão. Por que você escolheu essa caracterização mais frágil para ela?

Laudo – Quando optei em contar a história do nascimento como primeiro volume dessa trilogia, a clássica história do evangelho canônico sobre o nascimento de Jesus estava perfeita para ser trabalhada dentro de minha perspectiva. Portanto não me interessou questionar se é real, verossímil a questão da inseminação divina. O que me interessou foi pensar em como aquela menina iria lidar com os fatos: o que é tudo aquilo? Deus colocou uma criança para eu parir? Mas por que eu? E por que não pude tê-lo como qualquer outra mulher? Essas questões que inicialmente se mostram confusas na cabeça de menina Maria, conforme o tempo vai passando, depois de parir a criança, vão se assentando e a menina do começa termina seu caminho agora uma mãe, crescida, pronta para proteger sua cria que por si só já é divina. A questão dessa fragilidade é fundamental para a “personagem” Maria, ela, afinal de contas, é a heroína dessa primeira história, ela mesma tem seu processo de redenção. Alguns [evangelhos] apócrifos que contam a história do nascimento Jesus mostram Maria como uma menina realmente. Um deles, conta que ela fora criada no templo junto com outras meninas e que logo que chegara a época de sua primeira menstruação, fora devolvida aos seus pais, pois o ato de menstruar iria macular o templo. E é desse princípio de texto apócrifo que parti o roteiro dentro da história da pequena Maria.

Livraria da Folha – A sua pesquisa foi muito além das fontes corriqueiras sobre Jesus, mas passou por referências como misticismo, budismo, islamismo, Cabala. De que forma essas fontes se integraram à obra?

Laudo – Não da forma “literária” digamos assim, mas o que isso pode trazer para mim, de forma mais íntima. De mais sagrado e sem estar ligado a esse ou aquele “Deus” ou profeta. Pois, na verdade, tudo converge para um mesmo lugar e aí está as respostas que pelo menos tento colocar um pouco na hq, mesmo, claro, ela tendo seu enredo, seu ritmo.

Livraria da Folha – Quais são as dificuldades em se fazer um quadrinho autoral no Brasil?

Laudo – A situação dos quadrinhos nacionais de uns dois anos para cá tem melhorado gradativamente. Há possibilidades acontecendo, coisas como o ProAc da Secretaria da Cultura tem possibilitado muito projeto engavetado de acontecer, por outro lado, as editoras estão se mostrando mais interessada nos quadrinhos e nos artistas nacionais. Prova recente disso é uma editora do peso da Cia. das Letras criar um selo específico de quadrinhos. Porém, claro, nem tudo é lindo e o autor tem que labutar muito, pois produzir um trabalho autoral requer disponibilidade do tempo do artista com o tempo de outros trabalhos. E é claro, o trabalho pronto precisa sim estar na mira do que a editora quer. Com “Yeshuah” rodei muito, muito, muito. Alguns editores sacaram a idéia do trabalho, outros não, e outros nem mostraram interesse, é assim. Com a Devir a coisa aconteceu, eles antes de tudo entenderam a idéia do quadrinho e isso foi perfeito.

Livraria da Folha – O primeiro quadrinho acompanha os acontecimentos antes do nascimento de Jesus até o momento que ele tem uma revelação. E quanto ao segundo? Qual a previsão de lançamento?

Laudo – O segundo mostra, digamos assim, a vida pública de Jesus. Entram outros “personagens”, os seus seguidores, ou apóstolos para ficar mais entendível. A figura da Maria Madalena que aparece no final desse primeiro volume, é uma das figuras chaves dessa segunda parte. O roteiro mesmo seguindo alguns fatos dos evangelhos canônicos e de alguns apócrifos, é mais descompromissado que esse primeiro que é mais preso ao que conta o Novo Testamento. Os desenhos estão prontos e eu e o Omar (o arte-finalista da hq) estamos trabalhando na montagem da edição, capa, balonização, etc. Até março, devo levar um boneco para editora e até maio a edição em si pronta, aí é com a editora.

Livraria da Folha – Recentemente, Robert Crumb lançou uma versão em quadrinhos do livro do “Gênesis”. O que você achou da obra?

Laudo – Gostei muito. Crumb é Crumb e ponto final. Muita gente esperava algo polêmico, mesmo ele dizendo que iria desenhar o que o texto do Velho Testamento conta e que ele por si já trazia polêmica e na verdade a surpresa foi que ele foi para um outro caminho. É fundamental pensar que a rebeldia, irreverência dele pode estar num outro “estágio” e o pessoal talvez tenha esperado o “antigo” Crumb. Gênesis é uma tremenda obra. Irremediávelmente muita gente compara a obra do Crumb com minha hq. É normal e até entendo, embora sejam coisas diferentes. Cada uma na sua função.

Fonte: Folha Online