Nas séries de televisão americanas os “mocinhos” agora praticam a tortura com freqüência, com resultados perigosamente enganosos para os jovens soldados, denuncia uma campanha da associação americana Human Rights First (HRF).

A polêmica gira em torno da série “24 Horas”, na qual um agente antiterrorista, Jack Bauer (interpretado por Kiefer Sutherland), desenvolve ações violentas para frustrar atentados. Em um trecho exibido pela HRF, ele atira no joelho de um suspeito e ameaça dar um tiro no outro joelho para obter uma resposta.

Porém, em outras séries como “Alias-Codinome Perigo” ou “Lei e Ordem”, o herói crava uma seringa envenenada no pescoço de uma suspeita ou mantém a cabeça de um seqüestrador durante longo tempo dentro de um vaso sanitário.

Em “Lost”, um ex-militar iraquiano tortura uma personagem antipática, que urra de dor, enquanto a câmera focaliza o mocinho da história, um médico, desconcertado, mas cúmplice. Em cada caso, o suplício dura pelo menos um minuto.

“Antes apenas os bandidos torturavam na televisão. Hoje as personagens dos mocinhos americanos heróicos torturam e esta tortura é apresentada como necessária, eficaz e até mesmo patriótica”, denuncia a HRF em um site criado para a campanha, “primetimetorture.org”.

Para a organização, esta tendência influenciou os jovens soldados a torturar os presos no Iraque.

“Nós éramos encorajados a ser criativos com nossas técnicas de interrogação”, afirma Tony Lagouranis, que foi interrogador do Exército dos Estados Unidos em 2004 e 2005.

“As pessoas queriam criar suas próprias técnicas. E a maneira como elas fizeram isto foi se baseando na cultura popular, porque nosso treinamento não era mais prático”, acrescentou Lagouranis à HRF.

“Nós não tínhamos uma doutrina sobre o que fazer. Então, as pessoas assistiam filmes e a TV e tiravam as idéias disso”, explicou.

A campanha tem como alvo em primeiro lugar os soldados mais jovens. “Desejamos que eles compreendam que o que é mostrado na televisão é entretenimento, que não é um guia prático”, explica à AFP David Danzig, um dos coordenadores do projeto.

“Jack Bauer é uma construção da televisão. Se ele existisse no mundo real, seria um interrogador deplorável. De fato, seria provavelmente um psicopata que os Estados Unidos deveriam prender ou expulsar”, acrescenta.

“As técnicas de tortura em ’24 Horas’ são um lixo absoluto”, afirma Joe Navarro, agente aposentado do FBI. Além de serem ilegais, não funcionam na realidade, complementa.

Para o coronel da reserva Stu Herrington, ex-agente de inteligência do Exército americano, as séries também passam um “sentimento de urgência” aos jovens soldados que as assistem.

“Eles não compreendem que um interrogatório requer paciência, sutileza e tempo. Não vêem a absoluta necessidade de ater-se às técnicas legais e morais que provam sua eficácia”, explica.

Além dos soldados, a HRF deseja alertar a indústria do entretenimento. Um general da reserva e três ex-interrogadores se reuniram recentemente em Hollywood para discutir com os produtores e roteiristas de “24 Horas”, segundo Danzig.

“Sem privar os espectadores da adrenalina, as séries poderiam, por exemplo mostrar cenas nas quais a tortura não funciona, onde o torturado sucumbe antes de falar, onde os heróis lamentam suas ações”, sugere a HRF. De acordo com Danzig, os produtores já estudam a idéia.

Fonte: AFP