Os brasileiros, que assistiram no início deste século Boston se transformar no epicentro de um escândalo envolvendo abuso sexual de crianças por padres, foram pegos de surpresa com o afastamento do padre Pedro Damázio da Arquidiocese de Boston, especificamente da igreja de Santo Antônio, em Cambridge, acusado por “dois adultos de manter comportamento inapropriado”, conforme carta escrita pelo padre Richard M. Erikson ao brasileiro.

Padre Pedro Damázio estava em férias no Brasil e foi comunicado de seu afastamento no sábado, 11, poucas horas após chegar à igreja. Menos de 36 horas depois de desembarcar no Logan, o padre embarcou de volta a Santa Catarina.

A igreja não disse se há provas contra o padre Pedro Damázio, mas uma amiga do religioso, Zulamar Acorde, de 43 anos, afirmou que o procedimento de afastamento é normal.

“O próprio padre Pedro disse que quando há denúncias duvidando ou colocando em situação incomoda a conduta de um padre, ele deve ser afastado. E ele não é diferente de nenhum imigrante. Ficou sem emprego, sem lugar para morar e sem dinheiro, então só lhe restava voltar para o Brasil. Além disso, ele queria explicar pessoalmente o problema para sua mãe, que está com 86 anos e doente”, disse Zulamar ao OJB.

Embora a carta enviada ao padre não especifique que tipo de denúncia foi feita contra ele, o pároco brasileiro sofre as consequências dos efeitos do escândalo Bernard Law, arcebispo de Boston que no início do século foi acusado de pedofilia. A igreja foi obrigada a abrir os cofres e pagar milhões em indenizações e agora suas ações são consideradas sempre como de ‘prevenção’. Vale lembrar que no caso Law, bispos da igreja católica norte-americana reunidos na época em St Louis para discutir o assunto enfrentaram acusações de tentar abafar o escândalo e de lidar com ele no estilo sigiloso da Máfia.

Nos Estados Unidos desde 1997, padre Pedro Damázio disse ao OJB que se sente orgulhoso do trabalho que realizou.
“Dirigi a comunidade católica de brasileiros em Lowell por 10 anos, a de Cambridge por dois anos, e ajudei a fundar diversas outras comunidades do Apostolado Brasileiro, como Plymouth, Acton, agora Maynard, Amesbury, Lynn e mesmo Lowell, que comecei do zero e a deixei com 500 pessoas. Ainda ajudei a formar as comunidades nas dioceses vizinhas, como Providence, Leominster, em Massachusetts, e Concord, em New Hampshire.

Em todas as igrejas que coordenei, sempre procurei com humildade oferecer uma boa orientação espiritual, nunca querendo mostrar que eu era o mais santo ou o melhor, mas procurando crescer juntos no amor a Deus e ao próximo.”

Padre Pedro Damázio foi coordenador do Apostolado Brasileiro em Boston e independente da acusação seria transferido para o Brasil ainda este ano. “Depois destes quase 13 anos fui chamado de volta pelo meu bispo para minha diocese no Brasil, o que aconteceria, talvez, até antes do final do ano”, disse ele.

Segundo Zulamar, amiga do padre há mais de 30 anos, “o contrato dele se encerraria neste mês de julho”.

A escritora Terezinha da Rocha, que lança ainda este ano um livro sobre a vida católica nos Estados Unidos, defendeu o padre, alegando que “as pessoas que o acusaram e o deixaram em voga não têm nem mesmo coragem de mostrar suas caras”. Terezinha está coordenando um abaixo-assinado em favor da volta do padre para Boston.

Mas o mesmo fato que ela disse estranhar foi comentado pelo padre Pedro Damázio. “Ao ler a carta que me entregaram, estranhei algumas coincidências. Primeiro porque em quase 13 anos não recebi nenhuma censura. E agora aparecem, em apenas uma semana enquanto estava de férias, duas alegações de comportamento inapropriado. Achei muito estranho estas coincidências”, disse ele.

“Achei estranho também o fato de que, pela manhã, quando passei pela Imigração (no aeroporto), levaram-me com outras pessoas para outra sala, onde eram checados os documentos. A maioria os recebia de volta. O meu (documento) foi passado para outra pessoa que levou para outra sala, depois voltou, preencheu uma ficha e me devolveu.

Pensei na hora que era de rotina, pois poderiam estar sendo falsificados muitos documentos religiosos. Mas quando li a carta da Arquidiocese, relacionei também com o que aconteceu no aeroporto, e acabei ficando preocupado, sem entender realmente tudo o que estava se passando”, afirmou o padre.

Segundo o blog Brazil com Z, de O Globo, o padre José Eduardo Marques, coordenador geral do Apostolado Brasileiro em Massachusetts, teria dito que as denúncias contra o padre Pedro Damázio “foram de assédio”. Mas ninguém ligado ao padre acusado confirma as denúncias e garatem que ‘não há provas’.

Fonte: O Jornal