[img align=left width=88]http://www.folhagospel.com/imagem/RaymundoDamasceno_presidenteCNBB2011_mini.jpg[/img]Para o presidente da Convenção Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cardeal Raymundo Damasceno (foto), o crescimento dos evangélicos impulsionou um despertar da Igreja Católica.

O Brasil que acaba de receber o papa Francisco e uma multidão de católicos que acorreram de várias partes do mundo para a Jornada Mundial da Juventude, realizada no fim do mês passado no Rio de Janeiro, já é um país bem diferente daquele que outro líder católico, João Paulo II, visitou em 1980. Neste curto intervalo histórico de três décadas, a maior nação em número de fiéis declarados da Igreja Romana teve seu perfil religioso significativamente alterado. Agora, na segunda década do século 21, já é muito comum encontrar gente como o analista de suporte técnico José Thadeu Hoffman, mineiro de 33 anos.

Mesmo oriundo de uma linhagem com forte tradição religiosa – seu avô foi curador de templos católicos; o pai, catequista, e duas tias tornaram-se freiras –, hoje ele é evangélico. Do passado, ele se lembra com carinho das missas que frequentava “com a melhor roupa” e das vezes em que, menino, atuou como coroinha, auxiliando o vigário nas celebrações. E só. “Percebi que muita coisa que vi e aprendi ali não tem qualquer base bíblica. Encontrei a verdade da Palavra de Deus”, afirma ele, que já foi devoto de São José e pensou seriamente em virar padre.

“Um dia, ouvi uma mensagem evangélica sobre o engano da adoração aos santos e de Maria como mãe de Deus”, conta. “Hoje, respeito a fé dos católicos, mas não a compartilho. Encontrei em Jesus, e somente nele, o caminho da salvação”. Desde então, José Hoffman frequenta o Ministério Cristo, Luz do Mundo, igreja pentecostal localizada na região metropolitana de Belo Horizonte.

Experiências como a dele explicam, em grande parte, um fenômeno religioso recente e sem paralelo na história do país: o declínio numérico do catolicismo, que ocorre simultaneamente ao avanço das igrejas evangélicas. No intervalo de uma geração, a Igreja Católica Apostólica Romana encolheu quase 25 pontos percentuais. Já os evangélicos avançaram mais de sessenta por cento em apenas dez anos. Por isso mesmo, o Vaticano vem adotando várias medidas para fortalecer sua fé entre os brasileiros nos últimos anos. A visita de Jorge Mario Bergoglio ao país foi a primeira viagem oficial de seu pontificado – e a quinta presença papal no país. Nove bispos brasileiros tornaram-se cardeais e religiosos que nasceram ou viveram no país foram canonizados: o padre José de Anchieta, considerado beato desde 1980; madre Paulina, a primeira santa brasileira, sagrada em 2002; e frei Antônio de Sant’Ana Galvão, santificado em 2007 pelo papa Bento XVI.

É impossível mensurar os resultados, a curto e médio prazos, da passagem de Francisco pelo país. Convém lembrar que outro episódio do gênero com grande repercussão nacional, a participação de João Paulo II no Encontro Mundial com as Famílias – realizado em 1997, também no Rio –, não alterou a tendência de encolhimento. Naquela época, o processo de evasão era ainda mais acelerado, com a estimativa de 600 mil fiéis católicos batizados deixando a Igreja a cada ano. Mas a passagem do simpático Bergoglio pela Terra brasilis foi avaliada como altamente positiva: “Ele gerou muita esperança na Igreja Católica. Mas é difícil quantificar essa mudança no aumento do número de fiéis”, sintetiza o cardeal Raymundo Damasceno, presidente da Convenção Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Aparecida, cidade paulista que abriga o maior santuário católico do país. Em entrevista à Agência France Presse, o religioso confirmou que o crescimento dos evangélicos impulsionou um despertar da Igreja Católica. “Talvez nós tenhamos nos acomodado, e pode ser que o crescimento do movimento neopentecostal tenha nos feito acordar para a nossa verdadeira missão”.

Há outra situação, esta apontada pelo padre Pedro Gomes, professor da Universidade do Vale do Rio Sinos, no Rio Grande do Sul. “Os católicos brasileiros, ultimamente, estavam com a autoestima baixa, em muito por causa dos grandes escândalos”. Embora os ruidosos casos de pedofilia no clero e desvio de recursos tenham ocorrido no exterior – como a recente descoberta de um esquema milionário de lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano –, é evidente que repercutiram e causaram descrédito à Igreja também por aqui.

[b]IDENTIDADE SOCIAL[/b]

Consolidada no país, a fé católica é mais do que apenas uma tradição religiosa. Ela influenciou a cultura, interferiu na política, inspirou leis e estabeleceu a ética ao longo de centenas de anos. Nos séculos 16 e 17, enquanto a Reforma Protestante promovia profundas transformações religiosas na Europa, o país viu nascerem em seu território duas colônias reformadas, a França Antártica e a Nova Holanda, surgidas a partir das invasões militares, respectivamente, de franceses e holandeses. Duramente combatidas com apoio da Igreja, então na linha de frente da temida Inquisição, as duas iniciativas duraram pouco. Embora já não seja a religião do Estado há 122 anos, desde a primeira Constituição republicana, o catolicismo jamais abriu mão de seu caráter “oficial”. “É muito difícil, para um católico, admitir a legitimidade espiritual de outras igrejas cristãs”, observa o pastor batista Paulo Roberto Inácio, que além de exercer o ministério como pregador leciona História na rede particular de ensino em Campinas (SP). “Desde cedo, no catecismo, ele aprende que, fora da Santa Igreja Católica Apostólica Romana e de seus dogmas e ritos, não há salvação”. Para Inácio, a mudança do cenário religioso no Brasil é, na maioria das vezes, ignorada pela liderança católica. “Bispos e cardeais agem de maneira monolítica, como se as demais correntes cristãs no país não passassem de grupos sectários. É uma mentalidade de quem se acostumou a pensar em termos de exclusividade.”

“Em uma sociedade que era católica por pressão social, é natural que, com o aumento do pluralismo e da liberdade cultural e religiosa, haja a diminuição do número da igreja hegemônica”, raciocina o teólogo Jung Mo Sung, diretor da Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo. “Isso aconteceu também em países de maioria protestante, como os da Europa ocidental, que viram o número de seus fiéis diminuírem drasticamente”, compara. Ele lembra que a relação entre católicos e evangélicos, no Brasil, já enfrentou momentos difíceis, sobretudo na primeira República. “Havia intolerância e um comportamento hegemônico por parte dos católicos, fortalecidos por um panorama político amplamente favorável à manutenção daquele status quo”. Com o tempo, prossegue, isso foi mudando – “E um dos aspectos mais importantes desse processo foi o crescimento do segmento evangélico e a conquista de visibilidade midiática, comportamental e econômica pelos crentes”.

Para ele, embora o declínio percentual do catolicismo tenha sido mais acentuado nos papados de Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger, o fenômeno não pode ser atribuído à maneira como eles conduziram a Igreja. “Em termos sociológicos, há também um aspecto importante”, destaca. “Hoje em dia, o pertencimento a determinada igreja não é o fator fundamental da identidade social. Isto é, no passado, a maioria identificava ser brasileiro com ser católico e acabava se opondo ao surgimento de novas igrejas cristãs. Hoje em dia, a denominação da igreja não tem mais esse papel tão importante na identidade social.”

[b]COMPETITIVIDADE[/b]

“A recente eleição do papa Francisco, por seu perfil de sacerdote franciscano e teólogo latino-americano que possui sensibilidade em relação aos pobres, e sua prática histórica de aproximação dialética com as igrejas protestantes, gerou inequívoco clima geral de otimismo no que tange às possibilidades de diálogo e aproximação”. A análise é do pastor metodista Luís Wesley de Souza, com pós-doutorado em Teologia Prática e Práxis Religiosa e mestre em Missiologia. Considerado amigo dos protestantes em seu país, o pontífice tem bom trânsito entre lideranças evangélicas portenhas e, no tempo em que era arcebispo de Buenos Aires, costumava participar de eventos comuns, inclusive reuniões de oração e estudos bíblicos. Bergoglio também já esteve em encontros do Movimento Lausanne na Europa, junto com líderes evangélicos e reformados.

Por tudo isso, Wesley pensa que Francisco representa certo “desejo maniqueísta” do cristão protestante. “É como se dissessem: ‘Ele parece mais simpático, mais próximo e mais parecido com a gente'” – embora, no nível popular, pondera, não fica clara a projeção desse otimismo. “Entre lideranças eclesiásticas, há maior intencionalidade no que tange a procurar caminhos de cooperação. De qualquer forma, hoje a palavra de ordem é ‘reconciliação’, que se repete tanto em congressos protestantes como em católicos. Discussões ecumênicas são uma constante e se firmam na esperança de se ter sinais mais concretos de uma desejada reconciliação, não necessariamente doutrinária. Tais diálogos ecumênicos ganham certa medida de efetividade, embora sem garantia de sucesso de longo prazo”. Para o pastor, as conversações ainda prometem ser longas, difíceis e sem garantias de sucesso – “O que não pode ser usado como justificativa para a desistência”, pondera.

Vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, onde leciona na Emory University, em Atlanta, Luis Wesley explica que, lá, o relacionamento entre os dois grupos religiosos é diferente daquele observado por aqui. “O fator maioria-minoria, nos EUA, é o oposto do que ocorre no Brasil, onde a dinâmica relacional ganha claras nuances de tensão que acabam por se traduzir em rejeição e alta competitividade”. Ele lembra as histórias relativamente recentes de perseguição religiosa aos protestantes no Brasil, o controle religioso do Estado e da sociedade, o preconceito e, sobretudo, as diferenças doutrinárias e de simbolismo. “Entre os brasileiros, no nível mais popular, quando protestantes e católicos pensam uns nos outros, ainda se projetam como rivais religiosos. Porém, essa relação na América do Norte, de esmagadora maioria protestante – a exemplo do que ocorre em outras partes do mundo –, é extremamente mais tolerante do que no Brasil. É, portanto, menos conflituosa e de natureza doutrinária, não política”.

Porém, Wesley reconhece que muitas questões não resolvidas, como as enormes diferenças de teologia e doutrina, permanecerão como impasse – “A menos que haja um mal ou um bem muito maior que deva ser valorizado e force os dois segmentos do Cristianismo à unidade”, especula. Entre os pontos de discórdia, o pastor destaca a crença católica na transubstanciação, na ressurreição corpórea de Maria, nas legiões de santos intercessores e outros, além do papado e da própria Reforma. “Por essas razões, penso que, se há qualquer futuro promissor no esforço de aproximação, este será no campo da teologia prática e da ação missionária, isto é, através da identificação de uma variedade de áreas em torno das quais se pode somar esforços comuns e agir em conjunto.”

Embora a palavra “ecumenismo” costume causar arrepios nos crentes, o sociólogo e doutor em Ciências da Religião Gedeon Freire de Alencar, diretor do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, destaca a existência da Comissão de Diálogo Católico-Pentecostal, promovida pelo Vaticano: “O organismo tem até a presença de pastores da Assembleia de Deus americanos, mas isso é desconhecido no Brasil”. Segundo ele, também na América Latina ocorrem diálogos ecumênicos envolvendo líderes pentecostais e clérigos católicos. “O pentecostalismo brasileiro é quase totalmente anti-ecumênico, mas isso é uma característica típica do país”, destaca o estudioso, que é presbítero da Igreja Betesda.

O abismo, no Brasil, tende a se manter. “Violência é quase intrínseca à religião – às vezes de forma concreta; outras, simbólica”, continua. “Outrora hegemônico, o catolicismo se sentia livre para fazer o que bem queria. Agora, outros grupos, ricos e poderosos, querem repetir o modelo”. Segundo Alencar, a aproximação, quando existe no Brasil, é como um abraço de afogados. “Acuados pela pressão social e pelas demandas modernas, como direitos reprodutivos e novas formas de sexualidade, católicos e evangélicos fazem acordos táticos e somente se unem em defesa do moralismo”, critica.

[b]RENOVAÇÃO X CONSERVADORISMO[/b]

Estão, de fato, ultrapassados os tempos em que a Igreja Católica brasileira assumiu uma face marcadamente progressista – revolucionária, até. Sacerdotes como Leonardo Boff e Frei Betto tiveram papel de destaque na implantação da teologia da libertação, de caráter esquerdista, no país, e justamente no período do regime militar. Em um mundo polarizado entre capitalistas e comunistas, o papa João Paulo II, conservador de carteirinha, era inimigo declarado do socialismo. O pontífice teve papel ideológico destacado na derrocada dos regimes do Leste europeu, inclusive na sua Polônia natal. Duramente sufocada pelo Vaticano, o movimento da libertação perdeu força em toda a América Latina. Censurado por seus superiores eclesiásticos no Vaticano, como o então cardeal Ratzinger, Boff acabou desligando-se do sacerdócio.

Ao mesmo tempo, uma mudança perceptível acontecia no seio do catolicismo brasileiro. Passado o tempo das missas rezadas em latim e dos sacerdotes distantes dos fiéis, sempre enclausurados nas sacristias, outro tipo de clérigo ganhou espaço. Religiosos da nova geração deixaram a batina para usar na igreja e passaram a andar de jeans, camiseta e tênis de marca. Padres com perfil de popstar, como Zezinho, Marcelo Rossi e Jorjão, começaram a celebrar missas animadas, onde o povo participava ativamente cantando hits, levantando as mãos e acompanhando orações proferidas em meio a lágrimas. A mudança de panorama começou a se delinear a partir da eclosão da Renovação Carismática Católica (RCC), movimento nascido nos EUA e que ganhou corpo por aqui a partir dos anos 1970. Com práticas litúrgicas despojadas, forte incentivo ao envolvimento dos fiéis e linguagem atraente para o jovem, a RCC mudou a face da Igreja e já tem, hoje, cerca de 10 milhões de seguidores.

É gente como a jovem Thaynara Bianco, de 19 anos. Frequentadora assídua da igreja, ela comunga regularmente e participa dos encontrões do grupo jovem. “É uma bênção ser católico”, declara a estudante de Direito, que carrega um terço na mochila, junto com o iPod onde mantém gravadas músicas de artistas como Dunga, Rosa de Saron e padre Fábio de Melo. Entre os planos para a vida, ela segue o figurino família: “Quero me formar, casar e ter meus filhos”. Por enquanto, ela mora com os pais, também católicos, e enxerga a fé por um viés bastante conectado ao dia a dia. “Ser católico não nos torna diferentes de ninguém. O jovem cristão é normal, se diverte, vai à balada. Apenas carrego a minha fé comigo para onde for”. Thaynara diz que é dever de todo católico levar a mensagem de amor de Cristo ao mundo. “Só assim as coisas vão melhorar. No meio dessa loucura toda, tenho encontrado na igreja uma segurança muito grande.”

Uma crescente e bem montada estrutura de mídia se encarrega de levar a mensagem católica adiante. São centenas de rádios e quatro redes de TV com abrangência nacional, com destaque para a Canção Nova – instalada num complexo católico no interior de São Paulo – e Rede Vida. Antes criticada pelos setores mais tradicionais da Igreja Católica, a Renovação Carismática tem ganhado aceitação. “Pela sua própria natureza, a Igreja é plural”, analisa o padre jesuíta Jesus Hortal, consultor da Comissão Pontifícia que trata do diálogo inter-religioso. “Já o Vaticano II, na sua Constituição Sacrosanctum Concilium, previa a adaptação da liturgia às idiossincrasias das diversas comunidades”. Mas ele observa que isso deve ser feito de modo a englobar na unidade católica os diversos modos de expressão. “Aqueles que pretendem adotar formas novas devem estar abertos a críticas, especialmente da hierarquia, a fim de permanecerem dentro dos limites da comunhão católica. Mas, também, todos os outros devem estar preparados para acolher as legítimas inovações, sem condenações desnecessárias.”

A Renovação Carismática, para o sociólogo Paul Freston, tem sido um dos catalisadores da força católica. Inglês radicado no Brasil e estudioso da conjuntura religiosa nacional, ele entende que a redescoberta da espiritualidade por esse grupo tende a robustecer a Igreja. “Passamos a ter um núcleo católico praticante de sua fé, diferente daquela maioria nominal que sempre existiu”, aponta o professor colaborador da Universidade Federal de São Carlos (SP) e catedrático em Religião e Política em Contexto Global na Wilfrid Laurier University, no Canadá. “A evasão de fiéis se deu e se dá, basicamente, entre as pessoas com pouco vínculo com sua Igreja”. Para Freston, mesmo essa perda numérica das últimas décadas tende a ser compensada em qualidade, neste sentido, pelo ingresso de novos fiéis, sobretudo jovens. “Ou seja, ser católico passa a ser uma questão de escolha pessoal, e não tanto mais por tradição familiar ou influência cultural.”

O pesquisador não acredita que o número de evangélicos possa vir a superar o de católicos, como alardeiam muitos pastores. “A tendência, nas próximas décadas, é de haver uma acomodação. O catolicismo tem peso e tradição. O legado de centenas de anos, além do comando central – ao contrário do pulverizado movimento evangélico –, lhe conferem estabilidade”. Por outro lado, assevera, regras como a do celibato sacerdotal são um empecilho ao seu futuro. “A capacidade de renovação do corpo sacerdotal esbarra nisso. Se a Igreja amanhã deixasse a questão para escolha pessoal do religioso, isso teria um efeito grande em novas vocações”. Outra dificuldade, prossegue Freston, é o clericalismo – “Muita funções são exclusivas dos sacerdotes, e as instâncias decisórias, que têm poder de mudar as coisas, são conservadoras e centralizadoras. A Igreja Católica é como um enorme porta-aviões, cujas manobras são lentas e difíceis. Enquanto isso, as igrejas evangélicas têm a agilidade de carrinhos”, compara.

Embora envolva seus fiéis em reuniões de oração e estudos bíblicos – práticas outrora tipicamente evangélicas –, a RCC está fortemente ligada a pilares clássicos da fé romana rechaçados pelos crentes. Além disso, a corrente representa pouca ou nenhuma ruptura com dogmas considerados anacrônicos em plena pós-modernidade. “O catolicismo tem uma dificuldade enorme de adaptar a sua mensagem às transformações sociais”, aponta o pastor Paulo Romeiro, especialista em apologética e integrante da Igreja Cristã da Trindade. “Ela ainda combate o controle de natalidade por meios artificiais e não abre espaço para as pessoas que se divorciaram.”
Romeiro lembra que o catolicismo, no Brasil, adotou um perfil próprio, de forte influência popular. “Muito do que se crê entre grande parte dos católicos nada tem a ver com as doutrinas oficiais da Igreja e nem com a Bíblia Sagrada. Há uma enorme quantidade de católicos aberta para todo tipo de crenças, superstições e crendices”. No país onde o sincretismo religioso é marca registrada, figuras místicas como os padres Cícero Romão e Damião de Bozzano, que marcaram época no interior do Nordeste, recebem intensa veneração popular, embora não sejam reconhecidos pelo Vaticano. “Muitos católicos não têm dificuldade de crer em reencarnação e abraçar muitas formas de simpatias e superstições.”

[b]”INSTITUIÇÃO NÃO SALVA”[/b]

Pastor da Convenção Batista Nacional e professor de Teologia do Novo Testamento e História das Religiões no Seminário Teológico Evangélico Peniel, no Rio, Eber Jamil entende que a teologia e práticas católicas são equivocadas quanto à doutrina da salvação. “Para os católicos, Jesus não é o único mediador para o homem se chegar a Deus. Os sacerdotes, os santos e Maria também são intermediários, ou medianeiros, como eles chamam. Outra questão é que o catolicismo prega a essencialidade dos sacramentos, e estes são ministrados por sacerdotes. Portanto, a salvação é pela via sacerdotal”.

Ex-católico praticante, o pastor Flávio Magalhães diz que conheceu a Cristo na Igreja Romana. “Eu me converti genuinamente sendo católico. Não tenho dúvida disso. É possível um católico adorar somente a Deus”, afirma. Mais tarde, contudo, afastou-se da Igreja Romana. A idolatria o incomodava. “Há uma ordem expressa do Senhor nos Dez Mandamentos, de que só a ele devemos render culto. Creio que o descumprimento desse princípio é suficiente para comprometer a salvação de qualquer pessoa”. Outro motivo que Flávio aponta para seu rompimento é que a doutrina católica, em sua opinião, se assemelha ao espiritismo na consulta aos mortos. “A simples reza da Ave Maria é uma forma de comunicação com uma pessoa morta. Essa prática, segundo a Bíblia, é abominável”.

O pastor lembra um dos princípios da Reforma, que é o sacerdócio universal dos crentes, para apontar o que considera outro erro. “A confissão de pecados ao padre não chega a ser um pecado em si, pois a Bíblia nos recomenda confessarmos nossas falhas uns aos outros. Porém, a partir do momento em que isso se torna obrigatório, com o fiel se confessando exclusivamente ao padre, se torna uma doutrina extrabíblica”. Depois de um longo período na Igreja Missionária Evangélica Maranata, na qual chegou a diácono, Flávio, que é casado e tem dois filhos, foi ordenado ao ministério pastoral e agora lidera a Igreja do Evangelho Simples, congregação instalada na zona norte do Rio de Janeiro. Mas ele critica o pertencimento religioso meramente nominal , que na sua opinião tem sido uma realidade tanto para evangélicos como para católicos. “Qual a diferença entre o domingueiro que vai à missa e o domingueiro que vai ao culto? Instituição não salva ninguém. Salvação não é questão meritória, mas sim, obtida pela graça do Senhor.

[b]Fonte: Site da Revista Cristianismo Hoje[/b]