Membros da igreja se sentiram incomodados quando a Igreja de Cristo, a mais antiga igreja na Geórgia, votou pela separação da diocese episcopal da qual é parte há mais de 200 anos para se integrar a uma diocese anglicana em Uganda.

A Igreja de Cristo está instalada em Savannah há 274 anos, e sua congregação tem uma história longa e repleta de motivos de orgulho. Fundada com uma concessão de terras pelo rei George I da Inglaterra e liderada no passado por nomes famosos como John Wesley e George Whitfield, a Igreja de Cristo serviu de lar espiritual a alguns dos mais renomados moradores da cidade, entre os quais Juliette Gordon Low, a criadora do movimento de escotismo feminino.

Assim, os membros veteranos da igreja se sentiram incomodados, para dizer o mínimo, quando a Igreja de Cristo, vista como a mais antiga igreja estabelecida na Geórgia, votou recentemente pela separação da diocese episcopal da qual é parte há mais de 200 anos para se integrar a uma diocese anglicana em Uganda.

“Eu sinto tremenda lealdade por esta igreja, e estou confusa com a situação”, diz Frances MacLean, 85, membro da Igreja de Cristo há 55 anos. Os filhos dela foram batizados lá, e mais tarde se casaram na capela centenária da instituição. “Que história é essa de Uganda?”

Desde 2003, quando a Igreja Episcopal selecionou seu primeiro bispo abertamente gay, cerca de 55 paróquias de todo o país decidiram abandonar a denominação e se afiliar, em lugar disso, a dioceses anglicanas, mais conservadoras, na África, de acordo com registros preservados pela direção nacional da igreja episcopal.

O que essas paróquias rebeladas contestam é que igrejas que acatem relacionamentos homossexuais não estão mais seguindo a Bíblia. Os episcopais não são a única seita que se viu envolvida nesse debate. A igreja presbiteriana dos Estados Unidos, a principal organização dessa seita, perdeu algumas de suas congregações nos últimos anos em função dessa questão. Os paroquianos votaram por aderir à igreja presbiteriana evangélica, mais conservadora.

As cisões religiosas, entre as quais a que vem afetando os paroquianos da Igreja de Cristo, inundaram os tribunais do país com processos referentes a propriedades de igrejas, uma área de jurisdição quanto à qual os tribunais ¿ cuja atuação é restrita pelos termos da primeira emenda à constituição norte-americana, que impõe separação entre igreja e Estado – se sentem notoriamente desconfortáveis.

“Como instituição estadual, nós nos abstemos de qualquer envolvimento em disputas religiosas”, disse John Witte Jr., diretor de estudos judiciais e religiosos na Universidade Emory, de Atlanta, “e todas as disputas obre propriedades de igrejas abarcam uma dimensão doutrinária que não cabe aos tribunais decidir”.

Os juízes precisam determinar se as paróquias individuais são proprietárias dos edifícios nos quais seus membros acompanham serviços religiosos, ou se as paróquias simplesmente gerem essas propriedades em nome de uma hierarquia religiosa superior, um arranjo que muitas seitas incorporaram aos seus regimentos.

Na Igreja de Cristo, a cisão criou duas congregações, ambas as quais alegam direitos sobre o nome e os ativos da paróquia. A congregação que aderiu à denominação anglicana, composta por quase 300 membros regulares, continua a usar a bela capela, com sua fachada alta, marcada por colunas brancas.

Os cerca de 75 membros da congregação que continuam afiliados à igreja episcopal por enquanto estão usando a igreja de São Miguel e Todos os Anjos, mais modesta, em uma rua próxima. Os dois lados criaram sites ilustrados por fotos da igreja.

“Há membros da paróquia que acompanham os serviços nos dois locais”, diz Mark McDonald, diretor-executivo da Fundação Histórica de Savannah, instituição que, com a colaboração da associação feminina da Igreja de Cristo, organiza visitas a casas históricas da cidade há 72 anos.

“É assim que nos vemos. Não como episcopais ou anglicanos, mas como membros da Igreja de Cristo.” A cisão na igreja, que separou famílias e amigos, gerou um nível de rancor raramente visto nesta cidade, na qual disputas são atenuadas ou esquecidos com a ajuda de coquetéis, e onde alguns guias turísticos ainda se referem à guerra civil americana como “aquele momento desagradável”.

Falando à congregação em 14 de outubro, pouco antes da votação em que os paroquianos decidiram que desvinculariam a Igreja de Cristo da igreja episcopal, Janet Stone, 63, que é membro da congregação desde 1975, apelou pela união.

“Eu imploro que vocês abandonem essa disputa e procurem a reconciliação”, disse Stone. “Isso seria forte prova de nosso espírito cristão.” Momentos mais tarde, 87% da congregação votou pela separação. Em novembro, a diocese episcopal da Geórgia abriu processo pela manutenção do controle dos ativos da Igreja de Cristo, entre os quais um edifício histórico de valor avaliado em US$ 3 milhões e um fundo de investimentos formado por doações que tem valor atual de entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões.

O processo se baseia no regimento interno da igreja, adotado em 1970 sob o nome de “código Dennis”, segundo o qual todas as paróquias controlam suas propriedades como representantes da diocese. Mas a Igreja de Cristo foi estabelecida em 1733, e alega que seu controle jurídico sobre suas edificações e propriedades está firmemente estabelecido porque ela existia antes da criação da igreja episcopal, surgida em 1789 nos Estados Unidos.

“Isso faria o caso um processo simples de direito imobiliário, e não um caso de liberdades religiosas”, disse Witte. “Eles terão de argumentar que os valores da paróquia são mais próximos dos valores do final do século XVIII do que é o caso com a moderna igreja episcopal. E isso, ele acrescentou, “representa uma tese que ainda não foi colocada à prova nos tribunais federais”.

Fonte: The New York Times