Numa longa nota divulgada nesta sexta-feira, o bispo Dom Caetano Ferrari pede que os eleitores católicos de Bauru e região priorizem os candidatos que valorizam a vida e o primado da pessoa diante do Estado e da sociedade.

Foi uma clara manifestação contra o aborto e uma crítica aberta à política da presidente Dilma Rousseff (PT) em relação ao assunto.
A nota foi divulgada por causa da Semana Nacional da Família, que termina amanhã.

“Deve nos preocupar a informação de que o governo brasileiro planeja uma nova estratégia para implantar o aborto no país”, diz o texto assinado pelo bispo de Bauru.

Em seguida, ele ressalta publicação no Diário Oficial da União, no final de 2010, de termo de cooperação do Ministério da Saúde com um grupo de pesquisa para estudar o aborto no Brasil e fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde).

Também cita várias publicações sobre o assunto na imprensa brasileira.
Em seguida, faz crítica contundente ao governo federal.
“O aborto generalizado é crime no Brasil. No entanto, como se vê, nossas altas autoridades, forçando a mudança da lei, já estimulam a prática do aborto”, escreveu.

Por meio da nota, Dom Caetano presta solidariedade à Comissão em Defesa da Vida – Regional Sul 1 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que defende rompimento de convênio do Ministério da Saúde com o grupo de estudo e pesquisa sobre o aborto.

A Comissão em Defesa da Vida publicou texto em que acusa a presidente de “faltar com a verdade” por ter assinado documento durante a campanha eleitoral em que se comprometia a não mudar a legislação atual sobre o aborto.

“De fato, essa é a política da presidente Dilma: incentivar e difundir o aborto favorecendo os interesses de organismos internacionais que querem impor o controle demográfico aos países em desenvolvimento, mesmo se isso leva a presidente a desrespeitar a vontade da maioria do povo brasileiro, que é contrária ao aborto, e a infringir as mais elementares regras da democracia”, diz texto da comissão divulgado em junho.

Para Dom Caetano, os eleitores devem perguntar aos candidatos sobre suas posições em relação ao aborto.
“Assim o eleitor pode depois ir formando a sua decisão”, argumenta.
Em Bauru, a postura clara da Igreja Católica contra suposta política de Dilma Rousseff não significa rejeição aos candidatos locais do PT.

“Sobretudo no interior, o que importa é o conhecimento do candidato, suas convicções pessoais, suas práticas, seus ideais”, afirma o bispo. “Nem sempre o candidato assume na integralidade o ideário do partido. Sobretudo no interior nós votamos em pessoas, mais do que em partidos”.

[b]Gays[/b]

Em sua manifestação, o bispo cita o papa João Paulo 2º, morto em 2005, que defendeu a família como “santuário da vida”. Além de falar sobre o aborto, ele critica a possibilidade de união entre homossexuais, aprovada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

“Segundo o desígnio de Deus, a família é a união entre um homem e uma mulher que se amam e se dispõem com generosidade a gerar vida, a acolhê-la, amá-la e educá-la para que ela se desenvolva e se realize como pessoa, contribua para a construção da sociedade, alcance a comunhão com Deus e a felicidade”, diz.

Para ele, defender o valor da família é dever não apenas da igreja, mas também do Estado e da sociedade.

Na opinião do religioso, a família sofre ataques “sob a influência da cultura atual” “Tudo começa pela ideia secularista de que a família é uma simples construção humana, por isso cultural e histórica. A família pensada como projeto de Deus estaria ultrapassada, coisa do passado”, analisa. “Pior de tudo é quando essa nova mentalidade se faz presente nas altas esferas do Estado”.

Como exemplo de adoção de nova mentalidade, ele cita a decisão do STF sobre relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo e a permissão do aborto para casos em que o bebê é portador de anencefalia.

[b]Rede[/b]

A postura do bispo não é isolada na igreja. No início do mês, o arcebispo de Campinas, Airton José dos Santos, divulgou carta em que orienta eleitores a votar em candidatos que tenham compromisso com a “defesa da vida”.

Em abril, a CNBB lamentou a decisão do Supremo Tribunal Federal de não considerar crime o aborto de fetos que se desenvolvem sem cérebro.

Em entrevista à Folha de S. Paulo em julho, o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, condenou o aborto e disse que a igreja não faz concessões em relação ao tema. Também defendeu que os candidatos a prefeito divulguem suas posições sobre a prática de aborto.

Na eleição presidencial de 2010 o assunto dominou grande parte das discussões e provocou debates acalorados entre os militantes do PT e do PSDB.

A diocese de Guarulhos provocou polêmica ao divulgar carta em que pedia para os fiéis não votarem na candidata petista por causa das supostas posições favoráveis ao aborto.
O documento foi reconhecido pela Regional Sul da CNBB, a mesma que agora recebe a solidariedade do bispo de Bauru.

[b]Bancada religiosa pede documentos ao Ministério da Saúde[/b]
A cruzada religiosa contra a legalização do aborto une católicos e evangélicos.

A nota divulgada pelo bispo de Bauru, por exemplo, apoia os 27 deputados que protocolaram requerimento no Ministério da Saúde pedindo os documentos sobre estudo do aborto no Brasil e o resultado das pesquisas.

A pressão parlamentar no ministério tem forte influência da bancada evangélica.

Na nota que veio a público ontem, Dom Caetano Ferrari estende sua solidariedade aos deputados e cobra a entrega imediata dos documentos solicitados ao Congresso Nacional.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ainda não respondeu aos parlamentares, que continuam cobrando uma posição oficial sobre os estudos e pesquisas.

Durante entrevistas, no entanto, ele tem afirmado que o governo não vai mudar a legislação sobre aborto.

Ele costuma dizer que o esforço do Ministério da Saúde é para organizar os serviços e atender as gestantes em qualquer intercorrência clínica durante a gravidez.

[b]Aborto só é permitido em alguns casos[/b]
No Brasil, o aborto voluntário é ilegal e tipificado como crime no Código Penal. O aborto é autorizado em caso de estupro e de risco de morte da mulher. Movimentos feministas defendem a descriminalização.

[b]Prática em más condições causa mortes[/b]
Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, as quatro causas mais comuns de morte de gestantes são hemorragias após o parto, infecções, hipertensão e abortos inseguros, realizados em más condições.

[b]Fonte: Rede Bom Dia[/b]