Integrantes da Igreja Assembléia de Deus vêm catequizando índios da tribo Suruí, em Cacoal (RO), sem terem a permissão da Fundação Nacional do Índio (Funai), prevista na legislação nacional, para freqüentar as aldeias.

Essa denúncia, feita pela coordenação da Associação de Defesa Etno-Ambiental Kanindé, contradiz as declarações do pastor e também comandante da Polícia Militar (PM), Firmino do Santos, dadas ao jornal Folha de Rondônia, na semana passada.

Segundo o texto, Firmino declara que 150 índios adultos da aldeia Sete de Setembro, localizada na Linha 14 do distrito de Cacoal, em Rondônia, com cerca de 600 habitantes de etnia Suruí, foram convertidos à fé cristã, por espontânea vontade. Ainda de acordo com ele, 49 índios foram batizados, nove casais indígenas foram casados em cerimônia religiosa e uma igreja da Assembléia de Deus foi construída na aldeia, em respeito aos costumes indígenas e com total anuência da tribo.

A coordenadora de projetos e uma das fundadoras da Associação Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo, discorda das afirmações do pastor, garantindo que, além de entrar ilegalmente nas terras indígenas, o religioso está sempre armado quando faz tais incursões. Conforme informações da Funai, membros da comunidade Suruí denunciaram a presença indesejada de 300 missionários cristãos no interior de suas terras. Os autores da reclamação pedem que sejam tomadas providências, dentre as quais a retirada da igreja que foi construída na aldeia e o impedimento à entrada de missionários no local onde vivem.

Em oposição a essas acusações, o pastor Firmino fez a seguinte afirmação à Folha de Rondônia: “A Funai, depois da festa de inauguração do templo realizada no período de 19 a 21 de setembro deste ano, queria que o trabalho de evangelismo na aldeia fosse retirado, inclusive com a Força do Exército. Mas os próprios índios fizeram um abaixo-assinado para que permanecêssemos e a situação foi apaziguada pela vontade e crença dos próprios índios”.

Em relação à entrada de pessoas não pertencentes às tribos indígenas em Tis, a Constituição Federal e a Portaria da Fundação Nacional do Índio proíbem o desrespeito à cultura dos índios e exigem a autorização da Funai para a entrada em suas terras. Portanto, de acordo com Ivaneide, o que hoje acontece com as tribos Surui é a falta de cumprimento da legislação por parte dos missionários da Assembléia de Deus e da Funai, que deveria agir na defesa dos direitos indígenas.

“Os indígenas que se contrapõem a este tipo de descaracterização de sua cultura, dificilmente têm o apoio da Funai, que prefere não cumprir a legislação brasileira”, denuncia Ivaneide, afirmando que ainda existem casos de missionários que se aproveitam da catequização para fazer biopirataria em terras indígenas. O pastor Firmino contou à Folha de Rondônia que, quando iniciou o trabalho missionário na aldeia, os índios que ali viviam eram drogados, alcoólatras e não possuíam condições de sustento e moradia. “Hoje eles têm casas arrumadinhas, roças, carros e andam bem vestidos”, destacou o pastor Firmino. Ivaneide diz que a informação é mentirosa, já que os índios já tinham roças e casas antes da chegada da igreja à região. “Colocar os índios como miseráveis da forma como faz o pastor, é um total desrespeito a um povo que luta por sua autonomia e que sempre foi trabalhador, tanto na agricultura, quanto na coleta e na confecção de suas artes”, afirmou a coordenadora.

Para ela, muitas vezes, a falta de educação nas aldeias é usada como justificativa para que pessoas mal intencionadas entrem nessas terras prometendo ensinar os índios a ler e a escrever, quando, na verdade, o que farão é a catequese e a destruição da cultura nativa. “Começam quase sempre traduzindo cantos religiosos à língua indígena para, em seguida, dizerem que irão traduzir a Bíblia. Dessa forma, enganam os índios e os funcionários da Funai”, afirma a coordenadora.

Ela também informou que os missionários presentearam, com duas motocicletas, indígenas das aldeias Linha Nove e Linha Onze, que aceitaram abandonar sua cultura para se converter à religião cristã. “Há também casos de missões religiosas que pagam a lideranças das aldeias para que ajam como pastores e catequizem outros indígenas”, concluiu.

Quanto a isso, o conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno, disse que é papel da Funai punir qualquer pastor ou religioso que abuse do função de evangelização ou escarneça a religião original do povo que pretende assistir.

Segundo ele, ainda não há um consenso entre todas as religiões sobre o modo ideal de relacionamento entre instituições religiosas e comunidades nativas. Porém, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a CPT têm o comum princípio de respeitar a cultura ancestral de qualquer povo que venham a assessorar.

Dom Balduino destacou, ainda, que embora o pastor Firmino não tenha intenções políticas com essa sua ação, as conseqüências da evangelização abusiva podem ser desastrosas do ponto de vistas político, já que muitos índios convertidos são absorvidos pela religião, chegando a abandonar sua luta por terra e outros direitos ao pensar que tais condutas são contrárias aos princípios religiosos.

“Muitos legisladores e juízes coniventes com interesses de proprietários de terra e empresários contrários à luta de indígenas são favoráveis e esse tipo de catequização abusiva, que separa os integrantes de uma mesma comunidade, fazendo com que percam sua identidade comum e união”, concluiu o conselheiro.

Fonte: Rondonoticias