Muitos integrantes de orquestras paulistas começaram a aprender música na Congregação Cristã no Brasil e na Assembléia de Deus, de linha pentecostal, igrejas que mais formam instrumentistas, segundo maestros e professores. Violino é o mais procurado nas escolas, e sax é “escandaloso” para Congregação.

Foi nos bancos da igreja evangélica Congregação Cristã no Brasil que o violinista Davi Graton, 30, teve as primeiras lições de música. “Comecei a tocar para servir a Deus, não pensava em seguir carreira”, diz Graton, que hoje é concertino da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), considerada a melhor do país. Como Graton, muitos integrantes de orquestras paulistas começaram a aprender música na Congregação e na Assembléia de Deus, igrejas que mais formam instrumentistas, segundo maestros e professores ouvidos pela Folha.

Louvar o Senhor é justificativa comum nas fichas de inscrição da Escola Municipal de Música. “Tem aluno que entrou sem ter ouvido Mozart, só conhecia música de igreja”, afirma o diretor Henrique Autran Dourado.

Selecionado para a Academia de Música da Osesp, o violinista Djavan dos Santos, 22, atribui seu talento à inspiração divina. “Orei e aprendi em um estalo o que não consegui em meses.” Santos e os outros dois violinistas da Academia são da Congregação, apesar de a doutrina vetar a profissionalização.

Segundo um documento da igreja, o fiel que trabalha como músico não pode tocar nos cultos. “Aos que já estão nessa profissão, aconselhamos orar para que Deus lhes prepare um outro meio de vida”, diz o texto.

“Músicos profissionais ficam com o espírito transtornado”, reforça um dos regentes da igreja, José, que não quis informar o sobrenome. Já a Assembléia de Deus apóia os fiéis. “É uma honra ter nossos músicos nas orquestras. Só é proibido tocar na noite”, afirma Sérgio Emídio da Silva, 38, maestro em um templo.

Perto de Deus

A música foi a única expressão artística preservada pela Reforma protestante (século 16), que aboliu a representação de pessoas e animais, considerada idolatria. Para os protestantes, a música aproxima de Deus. “Sobretudo um deus que não está presente nas coisas, como o cristão”, explica o sociólogo e professor da USP Antônio Flávio Pierucci.

Segundo ele, os pentecostais (corrente do século 20) “radicalizaram a autorização bíblica para transformar salmos em hinos”. Na Congregação e na Assembléia, que têm orquestras com até 200 integrantes, os hinos são tão importantes quanto a pregação.

Para a professora de música da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Dorotéa Kerr, a musicalização natural do ambiente protestante explica o sucesso dos músicos. “O aprendizado informal supre a deficiência do ensino da igreja.” Na Assembléia, no entanto, o ensino se profissionaliza. Há quatro anos, uma igreja em Perus (região norte) mantém uma escola de música. Os alunos pagam mensalidade de R$ 10, e a igreja empresta instrumentos.

Já na Congregação, ensina-se “o suficiente para louvar”, afirma o regente José. O suficiente bastou para que o violinista Kleberson Buzo, 26, fosse aprovado na seleção da Escola Municipal de Música. “Na audição, toquei a única composição que sabia, um hino religioso”, conta Buzo, que toca na Orquestra Experimental de Repertório, do Teatro Municipal, onde a maioria dos violinistas tem currículo parecido com o dele: tiveram as primeiras lições em igrejas e depois estudaram em escolas públicas.

No Centro de Estudos Musicais Tom Jobim, mantido pelo governo do Estado, os alunos pentecostais são numerosos. “É perceptível. Não temos dados porque o credo dos músicos não importa”, afirma o diretor Arcádio Minczuk, 42. Baseado em sua biografia, Minczuk, oboísta da Osesp, considera a música um meio de ascensão social -o salário do músico erudito chega a R$ 5.000. “Meu pai determinou que eu aprendesse oboé, pouco tocado, para que fosse mais fácil conseguir emprego”, conta Minczuk, que, como seu irmão Roberto, diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, aprendeu música na Assembléia de Deus Russa.

Violino é o mais procurado nas escolas, e sax é “escandaloso” para Congregação

O violino é o mais disputado nas seleções da Escola Municipal de Música (EMM): são 30 candidatos por vaga. Para o diretor, Henrique Autran Dourado, a procura é explicada pela demanda de mercado, já que é o instrumento mais numeroso nas orquestras sinfônicas, e 20 dos 32 violinistas da Osesp, por exemplo, são estrangeiros.

Um violino “made in China” ou usado, para iniciantes, custa R$ 250. Já os que servem para alunos adiantados saem por pelo menos R$ 5.000.

O diretor Autran Dourado recomenda não adquirir “porcaria”. “É como comprar um fusca para correr a Fórmula 1. Serve para aprender a dirigir, mas nunca vai pegar a pole.”

Dos alunos da EMM advindos da Congregação Cristã no Brasil, a maioria é violinista.

Tataraneto de um fundador da igreja, André Veci Baptista, 16, é exceção. Ele estuda saxofone, instrumento malvisto na igreja por ser associado a “barzinhos e madrugadas”.

Seu pai, o luthier (fabricante de instrumentos musicais) Moisés Baptista, 38, teve de enfrentar o ancião _autoridade máxima da igreja_ para introduzir o sax na orquestra da igreja da qual é regente.

Escandaloso

Além do sax, não há trombone de vara nem percussão nas orquestras da Congregação, onde os instrumentos mais comuns, ao lado do violino, são flauta transversal, clarinete e bombardão (espécie de tuba). Fagote, oboé e violoncelo são permitidos, mas raros.

O regente da igreja José, que não quis informar o sobrenome, classifica de “escandalosos” o sax e o trombone de vara _válvula cilíndrica longa que o músico desliza para produzir o som. “É indecente e barulhento como a percussão, típica do candomblé”, afirma.

Os “escandalosos” também não são vendidos nas lojas de instrumentos musicais pertencentes a seguidores da Congregação Cristã.

Há uma concentração delas nos arredores do templo do Brás (centro), a sede da Congregação. Na Garcia & Nabarrete, a maior parte da clientela é formada por “gente da igreja”, informa Epaminondas Garcia, 38, um dos proprietários.

A loja vende marcas conhecidas e instrumentos de luthiers da Congregação, como Moisés Baptista, que é autodidata. “Iniciei-me na lutheria para consertar meus próprios instrumentos porque a manutenção é cara.”

Fonte: Folha de São Paulo