A Igreja Maná, maior denominação neopentecostal de Portugal, está enfrentando sérios problemas em Angola. Criada em 1984, em Lisboa, pelo pastor Jorge Tadeu – logo alçado à posição de apóstolo –, ela tem sido obrigada a fechar suas portas no país africano.

Em janeiro deste ano, o governo angolano promulgou o Decreto 6, baseado na Lei 14/92, que revoga o reconhecimento oficial às atividades da Maná. O ato resultou da conclusão de um processo instaurado pelo Ministério da Justiça para apurar “violações sistemáticas” da lei angolana e da ordem pública. Traduzindo, há suspeitas em relação à arrecadação de fundos e à transferência de verbas para o exterior.

Segundo dados da própria organização, a Igreja Maná mantinha 800 templos e casas de culto em nove províncias angolanas. Os membros tiveram que retornar para casa numa sexta-feira, quando encontraram as portas fechadas por medida judicial.

A Maná está recorrendo da decisão, mas ainda não houve mudança. O ministro da Justiça de Angola, Manuel Aragão, após uma reunião com deputados da Comissão de Assuntos Religiosos do Parlamento, disse que a Maná poderia até reabrir suas portas aos fiéis se “reunisse os pressupostos legais”. A partir daí, seria necessário ainda requerer novamente o reconhecimento oficial. O ministro deixou, no entanto, a advertência de que o governo pode não ser favorável à reabertura de suas atividades. A igreja está implantada em Angola há 20 anos. No mundo, a Maná está presente em 32 países, nove deles africanos, e detém um império de mídia que inclui vários canais de televisão e rádio em Portugal, Espanha, Brasil e Moçambique (ver texto abaixo). Aqui, a igreja tem cerca de quarenta templos em cinco estados, a maioria deles em São Paulo.

A partir da publicação do decreto proibindo as atividades da igreja, todos os telefones de dirigentes da Igreja Maná em Angola foram desligados. Alguns locais de culto da denominação foram lacrados, alguns deles com guarnição policial à porta. CRISTIANISMO HOJE tentou, por dois meses, fazer contato com Tadeu e outros dirigentes da denominação, sem sucesso. Por meio de uma nota na ocasião do fechamento, o dirigente da Maná declarou que o decreto 14/92 contém imprecisões – uma delas, segundo o religioso, seria o fato de o processo ter como réu a Igreja Maná, representada por Jorge Tadeu. “Não represento a igreja lá. Temos igrejas legalizadas em vários países e cada uma tem a sua estrutura, com autonomia administrativa e financeira”, explicou o líder.

Desvio de verba

A questão tem sido tratada, pela igreja, como um episódio de perseguição religiosa. Em um abaixo-assinado intitulado Defesa da liberdade religiosa e exercício de culto dos fiéis, os membros da igreja protestaram contra a interdição dos templos.

Diz um trecho: “Temos direito à liberdade de culto e seu exercício (…) uma vez que a Constituição refere que a liberdade de consciência é inviolável”. Mas as autoridades angolanas sustentam outra tese. O processo acusa a denominação de praticar atos contra a dignidade das pessoas e a ordem pública. Em maio de 2007, o bispo José Luís Gambôa, um dos líderes da igreja na áfrica, foi suspenso pela cúpula da Maná por suspeita de desvio de fundos, equivalentes a US$ 1 milhão, que teriam sido doados pela petrolífera Sonangol. A verba deveria ser destinada à instalação de uma escola. O fato foi decisivo para chamar a atenção das autoridades para as atividades da igreja. Ao mesmo tempo, abriu-se um inquérito interno na igreja que culminou com a expulsão do bispo.

Para complicar ainda mais a história, o bispo Joaquim Muanda, que substituiu Gambôa na liderança Maná em Angola, disse publicamente que não havia provas de que o dinheiro fosse fruto de uma doação da companhia de petróleo, onde curiosamente o seu antecessor trabalhava. Muanda, sem constrangimento, acusou Gambôa de roubo, já que o dinheiro foi parar numa conta pessoal dele. O ex-bispo, por sua vez, argumentou em diversas entrevistas à imprensa angolana que ocultou o dinheiro para impedir que fosse transferido para Portugal, já que acreditava que a verba deveria ser utilizada na áfrica. A diretora para Assuntos Religiosos do Ministério da Justiça, Fátima Viegas, lembra que o ministro pode conceder ou revogar, a qualquer momento, o reconhecimento oficial ao funcionamento de igrejas. “Este assunto da Igreja Maná é uma questão de soberania e autoridade do Estado, e a partir do momento em que há um desrespeito contra autoridade do Estado, este deve agir”, defende. “A Lei 2/04, que trata da liberdade de consciência e religião, é clara nesse sentido”.

Dizendo que a igreja precisa “refletir e analisar seus erros”, Fátima lembra que a Maná teve muito tempo para se manifestar enquanto o processo estava tramitando, mas que se manteve em silêncio mesmo diante de denúncias graves. Atitudes extremistas da Igreja Maná também colaboram para prejudicar sua imagem. é o caso, por exemplo, da divulgação de um comunicado da denominação, atribuindo o desabamento do edifício onde funcionava a Direção Nacional de Investigação Criminal de Luanda – tragédia ocorrida no dia 29 de março e que provocou a morte de 30 pessoas – a um suposto “castigo divino” contra as autoridades do país por terem interditado seus templos. Houve, na igreja, quem comparasse o episódio às pragas bíblicas com que Deus castigou os egípcios no êxodo.

Durante seus quase 25 anos de existência, a Igreja Maná já esteve envolvida em várias situações polêmicas, não só no continente africano, como também em Portugal. Embora alardeie possuir “2 milhões de fiéis” em solo lusitano – um evidente despropósito, já que os evangélicos são apenas 1% dos quase 10 milhões de habitantes – , a Igreja Maná não é bem vista por suas co-irmãs. Ouvido por CRISTIANISMO HOJE, o pastor Jorge Humberto, diretor da Aliança Evangélica Portuguesa, disse que a denominação não faz parte da entidade. “é que a identidade teológica deles não se afina com o que acreditamos ser mais saudável”, explica. Além disso, o dirigente lembra que a maneira de agir da igreja é meio truculenta. “Alguns de seus opositores são simplesmente amaldiçoados pelos seguidores de Tadeu. Além disso, eles praticam um proselitismo agressivo”. Contudo, Humberto diz que a Aliança está preocupada com a situação dos crentes angolanos: “Eles bateram com a cara na porta quando buscavam alimento para suas almas. Esses irmãos não podem ficar desamparados”, defende.

Apóstolo da mídia

Um dos maiores disseminadores da chamada confissão positiva, corrente teológica que defende, entre outros pontos, o papel fundamental do crente na obtenção de bênçãos e milagres divinos, Jorge Tadeu é um líder controvertido. Ele ganhou projeção internacional quando a Igreja Maná, denominação carismática que fundou em 1984, começou a expandir-se pelo mundo a partir de Portugal. Considerada a maior igreja de língua portuguesa da Europa e da áfrica – sobretudo em nações lusófonas, como Angola –, a Maná faz amplo uso da mídia para veicular sua mensagem e conquistar novos adeptos. Os canais de televisão ManáSat 1 e ManáSat 2 têm emissão via satélite com alcance da Europa Ocidental, áfrica, parte dos Estados Unidos, América Central e América do Sul. A igreja mantém ainda uma construtora, uma universidade e uma editora.

Nascido em Moçambique, Jorge Tadeu graduou-se em engenharia e tem especialização em grandes estruturas. Convertido ao Evangelho na áfrica do Sul, onde estudou teologia, o apóstolo da Maná escreveu vários livros que expressam suas convicções já nos títulos, como Cura divina – como receber manter, Falar em línguas e Amor: Arma de guerra. Temas como a contemporaneidade dos milagres e dos dons do Espírito Santo, além da batalha espiritual, são recorrentes em suas mensagens. Casado com Christel Tadeu, sua segunda mulher e uma das líderes mundiais da denominação, Tadeu tem cinco filhos. Presença constante no Brasil, ele visitou o país pela última vez em julho, pregando numa série de eventos em várias cidades.

Fonte: Cristianismo Hoje