Um grupo de poetas populares e boêmios que costumam se encontrar em mesas de bar do Recife, sob a liderança de Luiz Berto – autor do premiado Romance da Besta Fubana -, causou alvoroço na cidade ao lançar um livro com o mote ‘Bento foi eleito papa sem dar papa pra ninguém’.

A publicação, de 55 páginas sob o título Um Mote Santo e Algumas Sacras Glosas, incomodou a Arquidiocese de Olinda e Recife por seus versos provocadores – alguns quase inocentes, outros com palavras de baixo calão – sobre Bento XVI. O problema é que o livro, editado pela Bagaço, foi patrocinado pela Secretaria de Cultura de Olinda. Lançado em maio, foi recolhido no mês seguinte depois que a prefeita Luciana Santos (PCdoB) recebeu uma comissão indignada da Cúria Metropolitana, enviada pelo arcebispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso.

‘O papa é contra o rock/Contra o ‘pop’quem diria/Na sua ortodoxia/O que virá a reboque?/Povo cristão que se toque/Tratou Boff com desdém/Quem à direita convém/Do inferno não escapa/Bento foi eleito papa/Sem dar papa pra ninguém’, diz uma glosa, composição poética que no padrão tradicional nordestino é escrita com dez versos terminando com o mote proposto.

A prefeitura acatou o pedido da Igreja e quer evitar mais polêmica. A Assessoria de Imprensa informou que, se a prefeita tivesse tomado conhecimento prévio do teor do livro, teria vetado a publicação ‘em respeito à liberdade da prática religiosa’. O arcebispo não fala sobre o assunto.

Dos 500 exemplares, mais da metade foi recolhida. Parte foi distribuída gratuitamente, parte ficou com os 25 poetas que assinam as glosas.

Mas o diz-que-diz-que provocou uma procura inesperada do livro. Os exemplares distribuídos estão sendo xerocados ou vendidos. ‘A Igreja tem coisa mais importante para se ocupar do que censurar poetas populares’, indigna-se Berto, que promete uma segunda edição, bancada por seu grupo. A atitude de d. José Cardoso virou alvo dos ‘gloseiros’ na internet: ‘Dom José vai queimar vivo/ quem bulir com o papa Bento’.

Fonte: Estadão