Os 450 padres que se reuniram, na semana passada, no 12º Encontro Nacional de Presbíteros em Itaici, no município de Indaiatuba (SP), voltaram às suas paróquias convencidos de que terão de sair da sacristia se quiserem manter o rebanho e conquistar novos fiéis.

Para serem discípulos e missionários de Jesus, sacerdotes e leigos terão de bater de porta em porta, a exemplo dos evangélicos, num esforço permanente, como aconselha o Documento de Aparecida, aprovado pelos bispos latino-americanos em maio do ano passado.

“Foi-se o tempo em que bastava tocar o sino para atrair as pessoas”, observou d. Esmeraldo Barreto de Farias, bispo de Santarém (PA) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, à qual está subordinada a Comissão Nacional de Presbíteros. Essa advertência reforça a pregação do cardeal d. Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, do Vaticano, entusiasta e incentivador da Missão Continental, uma das principais conclusões da Conferência de Aparecida. “Temos de correr atrás dos católicos que abandonaram a prática religiosa, porque nós (a Igreja) os batizamos e somos responsáveis pela sua fé”, disse ele em Itaici, na quinta-feira.

Os padres aplaudiram o discurso e aproveitaram para discutir o que devem fazer na prática. “Alguém vai avisar as conferências episcopais e as nunciaturas apostólicas que o papa Bento XVI quer bispos afinados com a linha de Aparecida?”, perguntou padre Paulo Jackson, da diocese de Patos (PB). A questão agitou o plenário, porque outro padre havia observado que muitos bispos só dizem o que é proibido, sem abrir espaço para a criatividade.

Queixas

O prefeito da Congregação para o Clero acatou as queixas, mas advertiu que a Santa Sé não pretende ceder em questões importantes. Uma é a proibição de acesso à confissão e à eucaristia para os católicos que se divorciaram e tornaram a se casar. Outro problema intocável para o Vaticano é a exigência do celibato sacerdotal. D. Cláudio ouviu com atenção, mas sem fazer promessa, os argumentos do professor Armando Holocheski, um padre casado que defendia a readmissão dos sacerdotes que abandonaram suas funções.

“A Igreja não tem a intenção de reintegrar aqueles que se casaram”, insistiu d. Cláudio. O celibato é uma discussão recorrente, mas uma opção tranqüila para boa parte do clero. É uma dificuldade, porque há pessoas com vocação para o sacerdócio, mas não para o celibato.

Para o padre José Pietrobom Rotta, presidente da Comissão Nacional de Presbíteros e vigário-geral da Diocese de São Miguel Paulista, é dolorido negar os sacramentos a católicos em segunda união, muitos de vida exemplar. “Não temos solução para esse caso”, disse.

O perfil do padre é diferente de 30 anos atrás. Os candidatos entram no seminário após o curso médio ou a universidade – ao contrário dos anos 70, quando os meninos se matriculavam ao término do grupo escolar ou curso fundamental. Como não estudam em regime de internato, e freqüentam colégios mistos e faculdades, muitos até namoram antes de optar pela vocação.

“O padre deve abraçar o sacerdócio com as exigências da Igreja”, diz o responsável pelo clero na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Quem se sujeitar ao celibato terá de manter a castidade. Em seu discurso, d. Cláudio Hummes disse que “o celibato não deve ser vivido como imposição, mas como dom de Deus”.

Os novos padres têm o desafio de abandonar o discurso social e slogans ideológicos para dar ênfase ao eclesiástico e ao espiritual. As vocações aumentaram principalmente entre os movimentos de visibilidade, como carismáticos da Canção Nova e pobres da Toca de Assis, grupo de padres e leigos de carisma franciscano.

Fonte: Estadão