De acordo com a matéria publicada hoje na Folha de São Paulo, a Polícia Federal tentava identificar origem do dinheiro usado na aquisição de emissoras de rádio e TV.

Relatórios produzidos pela Polícia Federal e pelo extinto Serviço Nacional de Informações revelam que Edir Macedo e a Igreja Universal do Reino de Deus foram monitorados pelos serviços de inteligência durante o governo de José Sarney (1985-90).

Segundo a Folha de São Paulo, o objetivo da investigação, de acordo com os papeis, era descobrir a origem do apoio financeiro da igreja e sobretudo tentar identificar os “testas de ferro” da organização que adquiriam emissoras de rádio e televisão. “Recentemente a seita tem adquirido emissoras de radiodifusão através de testas de ferro e ao custo de milhões de dólares de procedência desconhecida”, diz documento da Polícia Federal. Outro trecho afirma que a Universal comprou naqueles anos dez emissoras de rádio ao custo de US$ 6 milhões.

Os relatórios, elaborados em 1989, listam ainda excentricidades da igreja, que completara naquele ano pouco mais de dez anos de fundação.

A Folha de São Paulo teve acesso aos relatórios e documentos sobre Edir Macedo e a Universal, desclassificados recentemente pelo Arquivo Nacional na esteira da Lei de Acesso à Informação.

A investigação, que nunca foi oficializada, lista que a igreja estimulava o pagamento de dízimo em dólares, a fama de ter fiéis arruaceiros, a primeira sede que ficava junto a uma funerária na zona norte do Rio e a prática de charlatanismo, diz a matéria do jornal Folha de São Paulo.

Fundada no final da década de 1970, a Universal teve rápido crescimento na década de 80, o que motivou a investigação.

Para o primeiro governo civil após 21 anos de ditadura, a igreja era uma “seita” que merecia controle e atenção dos órgãos de vigilância

À época, segundo os documentos que a Folha de São Paulo teve acesso, a Universal tinha mais de 500 templos em todo o país, com presença também nos EUA e Uruguai. Hoje a organização conta com mais de 6 mil templos em 200 países.

Em documento de junho de 1989, a Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça distribui a órgãos de segurança do governo federal, entre eles Polícia Federal e SNI, um pedido de busca com seis tópicos sobre a Universal.

Entre outras coisas, buscava-se o fundamento legal para a instalação da igreja no Brasil, os objetivos da “seita”, o apoio financeiro de pessoas e entidades (a maioria do dinheiro chegava pelas contribuições dos fiéis) e os “testas de ferro”, que não foram identificados.

Conforme o dossiê, agências do SNI e da PF em todo o país se mobilizaram para levantar informações. Até em Estados onde não havia a presença da igreja à época, como Goiás.

Os órgãos de inteligência do governo Sarney também levantaram a relação dos pastores com políticos, fraudes e casos de charlatanismo.

Paralelamente à investigação do governo Sarney, estava em curso uma outra apuração, a cargo do Ministério Público, que levaria Edir Macedo à prisão, em 1992. O criador da Universal passou 15 dias preso pelos “delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular”. Ele atribuiu sua prisão à Igreja Católica.

[b]Acusações falsas[/b]

Em nota enviada à Folha de São Paulo, a Universal afirmou que os documentos sobre Edir Macedo e a atuação da igreja mostram “práticas condenáveis que o extinto aparelho repressivo praticou” e que a “perseguição religiosa foi somente mais um capítulo” daqueles anos.

A Universal disse que nunca soube que fora monitorada pelo Serviço Nacional de Informações e Polícia Federal. Tampouco tomou conhecimento da investigação do governo Sarney.

Sobre os “testas de ferro” e as aquisições de emissoras de rádio e TV citadas nos documentos, disse que a “afirmação é falsa”.

“O bispo Edir Macedo, ao longo de toda a sua trajetória, já teve sua atuação religiosa questionada em mais de 30 procedimentos investigatórios. Muitos aventaram eventuais práticas de estelionato, charlatanismo e curandeirismo. Em todos esses procedimentos foi reconhecida sua inocência”, afirmou a organização.

Com relação à prisão de Macedo, ele mesmo atribuiu, no livro “Nada a Perder”, a culpa à Igreja Católica.

“A cúria não admitia o surgimento de um povo livre da escravidão religiosa imposta por eles”, escreveu. “Para quem me odiava, bispo Macedo era sinônimo de bandido. Isso é assim até hoje.”

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]