No próximo domingo, a Igreja Universal do Reino de Deus comemora seus dez anos na Inglaterra com o seu maior evento na Grã-Bretanha, desde que chegou ao país.

No encontro, “Sinais” (“Signs”), onde se espera reunir 30 mil pessoas no estádio do West Ham United, zona leste de Londres, a igreja anuncia “centros para ajudar centenas a arrumar empregos”, núcleos de aconselhamento e trabalho para jovens.

Contudo, a atividade assistencial é só uma parte do objetivo de “Sinais”.

Mais conhecida como UCKG (sigla em inglês para Universal Church of the Kingdom of God), a Universal dá seqüência a um trabalho intenso de cuidado com a imagem, perceptível nos últimos anos.

Dez anos

Surpreendentemente, a organização se recusa a classificar o encontro como religioso, apesar de dizer que o seu objetivo é “fazer uma ponte entre as pessoas e o Deus da Bíblia”.

Os “dez anos” que a igreja está celebrando também são uma licença poética, já que os primeiros serviços conduzidos pela Universal aconteceram em 1995.

A atitude é coerente com a política adotada pela Universal na Grã-Bretanha, onde prefere ser vista como uma entidade assistencial – que, aliás, é como está registrada no país.

“A UCKG é uma organização que tem investido de maneira sólida na sua imagem nos últimos anos”, diz Amanda van Eck, assessora de imprensa da Inform, órgão independente que monitora as atividades de movimentos religiosos na Grã-Bretanha.

Segundo van Eck, a igreja teve seu nome frequentemente ligado à controvérsias nos últimos anos e começou a sentir a necessidade de agir para melhorar o modo como a entidade é vista.

“Episódios controversos como o de Victoria Climbie deixaram uma má impressão generalizada – e nem sempre justa – sobre a UCKG”, explica van Eck.

Em fevereiro de 2000, a menina marfinense Victoria Climbie morreu em Londres em decorrência de violência por parte de uma tia e do namorado dela.

A igreja foi envolvida porque, nas semanas anteriores à sua morte, Victoria foi levada a um templo da igreja para ser exorcizada pelo menos três vezes.

O inquérito que se seguiu isentou a igreja de responsabilidade.

Outras polêmicas envolvendo transferência ilegal de fundos para o exterior e desconfiança sobre a gerência dos fundos levantados pelos fiéis obscureceram ações positivas como jornadas de coleta de sangue para hospitais.

Crescimento “agressivo”

Audrey Chaytor, ativista da Fair, ONG que pressiona o governo para a criação de regulação para movimentos religiosos, é absolutamente cética em relação a “Sinais” não ser religioso.

“É claro que ele é religioso. Eles são uma igreja. Até se intitulam como tal”, argumenta Chaytor. “O que mais uma igreja poderia fazer numa reunião para 20 mil pessoas?”, diz.

A Fair foi criada em 1976, para monitorar a Igreja da Unificação, do Reverendo Moon, por familiares de membros do culto.

Depois disso manteve a atividade de seguir de perto os passos de cultos religiosos.

Segundo ela, igrejas “cristãs extremas” como a Universal estão em franco crescimento da Grã-Bretanha, junto com movimentos como a Cientologia.

O desenvolvimento desses movimentos contrasta com a diminuição do número de fiéis em religiões tradicionais, como a Igreja Anglicana.

O avanço rápido da organização ajudou a angariar antipatias com as ofertas da igreja para comprar cinemas e casas de shows para transformá-los em templos evangélicos, assim como fez em São Paulo e em outras cidades brasileiras.

Em 1995, a Universal comprou o famoso Rainbow Theatre por £ 2,3 milhões (R$ 9,3 milhões) e só não adquiriu também o Brixton Academy porque a prefeitura negou a licença necessária.

À época, a Universal creditou a recusa à má repercussão causada pela morte de Victoria Climbie.

Universal nega evento religioso e reafirma objetivos assistenciais

A Universal, ou UCKG, como é mais conhecida na Inglaterra, negou sistematicamente que “Signs” seja um evento religioso.

Em entrevista à BBC Brasil, o bispo Renato Cardoso usou uma frase que está no site do encontro para explicar a posição da organização.

“Para nós, ser ‘religioso’ significa seguir uma organização e isso não é o que fazemos”, argumenta, aparentemente contradizendo outro objetivo do evento, que é “fazer uma ponte entre as pessoas e o Deus da Bíblia”.

“A UCKG tenta ajudar as pessoas a encontrar Deus diretamente, sem depender de uma religião”, explicou Cardoso, por meio de sua assessoria de imprensa.

Quanto à questão de apostar na imagem, Cardoso também afirma que é uma observação improcedente e que a única razão por trás de tudo é fazer com que “as pessoas melhorem as suas vidas usando a fé”.

Para Cardoso, as iniciativas da igreja são mal-interpretadas por falta de comunicação adequada. Citando Martin Luther King, ele disse que “as pessoas não se relacionam bem porque temem umas às outras, e elas temem umas às outras porque não conhecem umas às outras”.

Fonte: BBC Brasil