Missa transmitida em tempo real pela Internet: A Igreja de Roma não descobriu a pólvora. O que os padres começaram agora, os evangélicos já fazem há mais de uma década. O avanço da tecnologia dentro das igrejas assusta os mais conservadores, mas é cada vez mais comum no meio religioso.

Além das missas celebradas com palmtop e transmitidas em tempo real pela Internet, os católicos também fazem aconselhamento espiritual por programas de bate-papo no computador, reflexões do Evangelho via e-mail, imagens do santo do dia no celular, sinos programados para tocar eletronicamente. As tecnologias são de última geração e os ritos, milenares. Esse encontro pouco ortodoxo pode assustar os mais conservadores, mas é cada vez mais comum no meio religioso.

Há pouco tempo um grupo de turistas espanhóis de passagem pelo Rio comprovou essa nova tendência na Igreja Católica. Ao visitar o Outeiro da Glória, participaram de uma missa em espanhol. Até aí nenhuma surpresa, não fosse o fato de, no lugar do missal – livro enorme e pesado que contém todo o ritual da missa -, um pequeno computador de mão ocupasse o altar.

“Eu teria que rezar a missa em português. Mas lembrei que tinha o missal espanhol no meu palmtop e resolvi usá-lo para celebrar. O rito é o mesmo, mas é sempre melhor quando o fazemos na língua dos fiéis”, explica padre Sérgio Costa Couto.

Aos 48 anos – 14 como padre -, ele é louco por tecnologia. “E por Jesus”, acrescenta. Para unir as duas paixões, utiliza todos os meios: dá conselhos a fiéis pelo Skype (programa de comunicação de voz e vídeo pelo computador) e pelo Messenger, lê artigos em sites católicos e baixa palestras em MP3 para ouvir no palm. “Nele, tenho toda a liturgia das horas (oração obrigatória para os padres), além de documentos do Papa, a Bíblia e o missal em várias línguas. Sou um padre conservador atualizado. Gosto de rezar o breviário em latim, mas no palm”, resume.

Na Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, o e-mail é quase um artigo de fé. É através dele que o padre Ramon Nascimento concilia o trabalho na capela com a coordenação de todas as pastorais das igrejas da Lagoa, Ipanema, Leblon e Gávea: “Às vezes precisamos discutir tópicos e não dá para ligar para todo mundo e marcar reunião. Integro grupos de discussão no Yahoo e comunidades no Orkut, onde a troca de informações é sempre produtiva. A Internet é um poderoso veículo de evangelização, mas é preciso cautela para não se deixar engolir. Nada substitui o contato pessoal. A participação nos sacramentos exige presença física. A modernização é só na forma. A mensagem de Cristo não muda através dos tempos”.

Evangélicos, os “pais” da modernização cristã

A Igreja de Roma não descobriu a pólvora. O que os padres começaram agora, os evangélicos já fazem há mais de uma década. Além de terem programas na TV e em rádios com uma linguagem atual, a web está repleta de iniciativas protestantes de pregação cristã moderna. Existe até a União dos Blogueiros Evangélicos (http://blogueirosevangelicos.blogspot.com), que reúne mais de 500 blogs (diários virtuais) de fiéis de todas as denominações.

Eles criaram versões religiosas para sites que são sucesso entre os, digamos, pagãos. No www.godtube.com há centenas de vídeos ligados à fé. E tem ainda versão cristã para a wikipedia (a enciclopédia virtual) no www.conservapedia.com.

“A modernização das igrejas alcança sobretudo a classe média e jovens, público que não se sentia atendido com as ofertas tradicionais da religião”, diz o sociólogo Luiz Alberto Gomez.

Pelo oratório virtual

A Igreja Católica, sempre vista como conservadora e retrógrada, tem se revelado bem moderninha. João Paulo II já incentivava o uso da Internet e de meios de comunicação na evangelização. Durante a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, ano passado, bispos debateram com ele a transmissão de missas pela Internet e cursos de Teologia por videoconferência. A mudança dos tempos é abraçada como aliada poderosa na conquista de novos fiéis até mesmo pelo Pontífice. Em março, ele presidiu encontro com universitários da América e da Europa por teleconferência.

Os exemplos proliferam. Na página do Santuário de Aparecida (www.santuarionacional.com.br), o internauta baixa imagens da santa para o celular e reza o terço virtual com católicos de qualquer lugar do planeta. No site dos frades capuchinhos (www.capuchinhosrs.org.br) é possível deixar pedidos de oração, depois incluídos nas intenções pelas quais os noviços rezam diariamente. Já há até oratório virtual: www.sacredspace.ie/pt. Disponível em várias línguas, oferece a cada dia uma reflexão diferente. Durante 10 minutos, o internauta é levado a um “encontro com Deus” através de passagens bíblicas permeadas por meditações e questionamentos.

No mundo real, o Santuário do Cristo Redentor já tem câmeras para, em breve, transmitir missas on-line. Essa é só uma das novidades. A Arquidiocese do Rio ainda estuda a criação de call center para informações de todas as paróquias, agência de notícias virtual e serviço de envio de passagens bíblicas por SMS.

Fonte: O Dia