A Igreja de Nossa Senhora da Consolação, no centro de São Paulo, quase foi destruída duas vezes: na primeira vez, o então prefeito Prestes Maia vetou um projeto para ligar a Avenida Ipiranga com a Rua Augusta – trajeto que passaria por cima do templo. A segunda foi durante a construção da Praça Roosevelt.

Os maiores inimigos, porém, continuam a ser as infiltrações. Ao longo do tempo, elas provocaram rachaduras na parede e estão destruindo as pinturas. A salvação agora pode vir do arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer. Ele anunciou na semana passada um projeto para reformar as igrejas da capital que estão em péssimas condições.

Além da Igreja de Nossa Senhora da Consolação, serão reformados o Palacete do Carmo, o Convento da PUC, a Igreja da Nossa Senhora da Conceição de Santa Ifigênia, a sede da Arquidiocese, além do órgão e do altar da Catedral da Sé – todos prédios tombados. O projeto de reforma nesses locais ainda não foi feito. Não há orçamento nem prazo para as obras. Devem participar cerca de 160 pessoas, especializadas em reformas de prédios históricos.

O único local onde as obras estão em andamento é a Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte, uma das igrejas mais antigas de São Paulo. Inaugurado em 1810, o templo foi espremido por construções ao redor e abandonado até o ano passado, quando a reforma teve início.

A reforma está sendo feita com recursos arrecadados junto à iniciativa privada pela Lei Rouanet (R$ 3,7 milhões). Outra parte (R$ 1 milhão) foi repassada pelo governo estadual. Segundo a arquiteta da reforma, Carolina Midori Oshiro, a expectativa é de reabrir o local ao público até agosto do próximo ano. Isso se conseguirem arrecadar mais R$ 1,1 milhão.

Reforma urgente

Para d. Odilo, a reforma das igrejas é uma medida urgente e não pode ser deixada para mais tarde. “Algumas delas estão em total decadência”, admitiu. Os principais problemas estão na estrutura das igrejas. “O reboco do Palacete do Carmo, por exemplo, pode desabar e atingir pessoas na calçada”,disse o arcebispo. As infiltrações ameaçam as obras artísticas, algumas de autores famosos como os quadros de Benedito Calixto, na Consolação. E os cupins afetam a estrutura de madeira.

O órgão da Catedral da Sé é o maior da América Latina. O último concerto em que foi utilizado ocorreu em 1995. D. Odilo disse que a situação do instrumento é dramática. Ele estima que a reforma vai custar pelo menos R$ 2 milhões. “Se não for restaurado, os cupins acabam por deteriorá-lo completamente.”

Na Igreja da Nossa Senhora da Consolação, que já foi considerada uma das mais bonitas da cidade, o que está em risco são as obras artísticas. O cenário é desolador. Ao lado, paredes com rachaduras e pinturas apagadas. Nem a cúpula central de 500 metros quadrados, obra do artista Hans Bauer, escapou das infiltrações.

Fazem parte do acervo obras de Benedito Calixto e Oscar Pereira da Silva. “Posso dizer que 90% das obras artísticas da igreja precisam de reparos”, disse o pároco da igreja, José de Assis Batista. Em pior situação está o quadro Anchieta e os Índios, de Oscar Pereira da Silva, atingido por um incêndio na década de 90.

Legado

“A Igreja sempre esteve presente ao longo da história de São Paulo”, disse o arcebispo, que viaja dia 24 de novembro para o Vaticano, onde receberá do papa Bento XVI as insígnias de cardeal. “São esculturas, pinturas e afrescos que fazem parte do Patrimônio Histórico do Estado. Por isso, temos de trabalhar hoje para que as gerações futuras possam conhecê-las.”

Fonte: Estadão